sábado, 10 de março de 2012

Líbia: Começa a divisão



Farirai Chubvu, The Herald Online, Zimbábue

Basta mandarem a OTAN, agora, bombardear o Conselho Nacional de Transição.

Quando a OTAN assassinou a sangue frio o líder líbio Muammar Gaddafi, observadores previram que a morte de Gaddafi não marcaria o final da guerra, mas, de fato, a escalada[1]. A Líbia estava no olho do furacão. Agora, os ventos voltaram a soprar. A retomada de Ben Walid por gaddafistas e a recente declaração de autonomia por líderes de milícias tribais armadas no leste da Líbia (onde está o petróleo) são só as primeiras escaramuças da guerra que virá.

O chefe do Conselho Nacional de Transição instalado na Líbia pela OTAN e com base em Trípoli ameaça usar “a força” para impedir a divisão do país, mas suas palavras cairão em ouvidos surdos, pela suficiente razão de que o Conselho Nacional de Transição não tem poder para fazer o que diz: não passa de um fantoche do ocidente.

De fato, vários membros do Conselho Nacional de Transição estão sitiados em Trípoli e não podem sequer movimentar-se livremente pela Líbia. Alguns pernoitam em Malta, do outro lado do Mediterrâneo, por medo de represálias.

Quase cinco meses depois do assassinato-linchamento de Muammar Gaddafi e de a OTAN ter declarado vitoriosa sua guerra para mudança de regime na Líbia, o confronto entre Trípoli e Benghazi, cidade do leste, onde foi tomada a decisão de dividir o país, já faz ressurgir o monstro de uma guerra civil.

Em comunicado pela televisão, na 4ª-feira, da cidade de Misrata, Mustafa Abdel Jalil, presidente do Conselho Nacional de Transição rejeitou categoricamente a divisão do país.

“Não estamos preparados para dividir a Líbia”, disse ele. “Os divisionistas deveriam saber que há interesses infiltrados entre eles, além de remanescentes do regime de Gaddafi, que agora tentam manipulá-los. Estamos prontos a impedir que alcancem seu objetivo, inclusive pela força.”

Em conferência de imprensa em Trípoli, Jalil acusou “países árabes” (que não identificou) de estarem financiando “a sedição” na Líbia. “Algumas nações árabes irmãs estão infelizmente apoiando e financiando essa sedição que está acontecendo no leste” – disse ele. Jalil, que foi ministro da Justiça do governo de Gaddafi, declarou, mais uma vez, que o Conselho Nacional de Transição seria “o único representante legítimo do povo líbio”; e, Trípoli, “a eterna capital” líbia.

Mais cedo o primeiro-ministro interino do Conselho Nacional de Transição, Abdel Rahim al-Kib, também rejeitara qualquer iniciativa na direção de criar-se um estado federado na Líbia. “Não queremos regredir 50 anos”, disse ele. Referiu-se assim, sem dar nomes, ao regime reacionário e corrupto do rei Idris, que governou a Líbia até ser destronado pelo Movimento dos Oficiais Livres, de inspiração nasserista, liderado por Gaddafi.

O rei Idris sempre serviu como fantoche do imperialismo norte-americano e britânico, assegurando àqueles governos o direito de manter bases militares na Líbia, inclusive a gigantesca base Wheelus, da Força Aérea dos EUA, na Líbia ocidental.

Depois da descoberta de petróleo no país, Idris serviu como complacente braço armado das grandes empresas norte-americanas de petróleo, que redigiram as leis líbias sobre petróleo e asseguraram para elas mesmas direitos irrestritos de exploração. Ao assumir o poder, Gaddafi fechou as bases militares de Grã-Bretanha e EUA e impôs rígido controle sobre todas as empresas estrangeiras que exploravam o petróleo no país.

A conexão entre o projeto do rei Idris e o movimento separatista é hoje muito direta e muito fácil de ver. O rei deposto por Gaddafi governava uma monarquia federada, absolutamente dominada pelas potências imperialistas e pelas empresas que exploravam o petróleo.

Os três estados – a Cirenaica, no leste; a Tripolitânia, no oeste; e Fezzan, no sul, eram jurisdições territoriais herdadas do governo italiano fascista e, antes dele, do Império Otomano – tinham tanto poder quanto o governo central. O próprio rei Idris vivia em Benghazi e considerava-se, antes de tudo, rei da Cirenaica.

O Xeique Ahmed Zubair al-Senussi emergiu da conferência em Benghazi, como escolha dos 3.000 representantes de tribos, milícias e grupamentos políticos ali reunidos, como chefe de um novo Conselho Provisório da Cirenaica, em árabe, Barqa. O objetivo já declarado do novo conselho é reviver a constituição de 1951 imposta pelo rei Idris.

Al-Senussi, que é membro do Conselho Nacional de Transição, é também sobrinho-neto do deposto rei Idris. Tem repetido que a declaração de autonomia da Cirenaica não é movimento de “sedição” e que o conselho de Benghazi não tem qualquer interesse em trocar nem a bandeira nem o hino nacionais, e que deixará as questões de política exterior a cargo do Conselho Nacional de Transição, em Trípoli.

Mas, em entrevista à CNN, falando de Benghazi, al-Senussi disse que “questões sociais” devem ser assunto dos governos locais, inclusive saúde e educação. Sob o governo de Gaddafi, parte significativa dos lucros do petróleo era canalizada para garantir saúde e educação públicas, completamente gratuitas, a todos os líbios. A ideia de entregar esses setores a governos regionais é ameaça clara e direta à sobrevivência da maioria da população, mas pesa mais sobre os líbios que dependem dos programas públicos no leste da Líbia, onde está organizado o movimento separatista.

Segundo a Companhia Árabe de Petróleo do Golfo [Arabian Gulf Oil Company (AGCO)], que tem sede em Benghazi, ¾ das reservas de petróleo da Líbia estão em território da Cirenaica. Perguntado pela Agência Reuters sobre se a criação do novo Conselho de Benghazi alterara o modo como a AGCO opera ali, um porta-voz da empresa respondeu: “Até agora, nada mudou”. A declaração de autonomia de Benghazi está sendo vista por muitos na região como mais um passo na direção de concentrar nessa região todo o controle sobre o petróleo líbio – o que significa o fim de qualquer projeto de distribuição nacional da riqueza gerada pelo petróleo.

O movimento para criar um governo autônomo com base em Benghazi é parte do projeto mais amplo para fraturar o território da Líbia de Gaddafi ao longo de linhas regionais de divisão. Mais de 100 diferentes milícias tribais e milícias instaladas na cidade – as forças que a OTAN apoiou com armamento, instrutores e bombardeios aéreos no ataque para derrubar Gaddafi – controlam hoje grandes áreas do país.

O Conselho Nacional de Transição, apesar de instalado na Líbia por EUA e OTAN como governo oficial, já se comprovou incapaz de controlar sequer a capital, Trípoli, cujo principal aeroporto continua até hoje controlado por milícias.


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[1] Ver, por exemplo, 9/10/2011, “Resistência e guerra sem fim, na Líbia”, Pepe Escobar, entrevista a Russia Today(traduzida) em http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/10/pepe-escobar-ao-vivo-resistencia-e.html [NTs].

Tradução Vila vudu

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