segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Porque é presidenta e não presidente



A mídia brasileira comete o mesmo erro da mídia portuguesa ao se negar a usar a palavra presidente. Nos últimos anos Portugal passou pelo mesmo dilema dos meios de comunicação do Brasil: presidente ou presidenta?
Em Portugal e no Brasil diversos linguistas se manifestaram pró e contra o uso da palavra presidenta. Mas considero que – teorias à parte – o assunto se exauriu na inauguração da “Fundação José Saramago”.
Em entrevista ao jornal português Diário de Notícias em 6 de julho de 2008, ao jornalista João Céu e Silva, Pilar zombava da utilização da palavra presidente pela imprensa portuguesa ao se referir a mulher presidindo alguma entidade. Ela afirmou – com o consentimento de José Saramago, prêmio Nobel de Literatura – que a palavra presidenta não existia no passado porque não havia mulheres exercendo essa função. Somente nas últimas décadas as mulheres conquistaram o devido lugar na sociedade, e passaram a ser presidentas, e não presidente.
Vamos recordar as palavras da jornalista e tradutora Pilar Del Río, presidenta da Fundação José Saramago:
“(...) - Há um ano que é presidente da Fundação José Saramago…
- Presidenta!…
- Presidenta?
- Só os ignorantes é que me chamam presidente. A palavra não existia porque não havia a função, agora que existe a função há a palavra que denomina a função. As línguas estão aí para mostrar a realidade e não para a esconder de acordo com a ideologia dominante, como aconteceu até agora. Presidenta, porque sou mulher e sou presidenta.
- Mas a palavra não existe!
- Porque é que entre uma mulher e um animal tem primazia o gênero do animal? Porque dizem “Vêm os dois” se é uma mulher e um cão quem vem? Em vez de dizerem que não se pode dizer presidenta, mas ministra sim, solucionem essa injustiça e canalhice. Que os doutos acadêmicos resolvam um conflito que tem séculos porque não têm sensibilidade para apreciar a questão ou nem se aperceberam. Por isso, justificam com leis gramaticais ou simplesmente silenciam e riem-se das pretensões da mulher porque se acham superiores. Em quê? (…)”

A imprensa portuguesa se dobrou, em parte, ao argumento de Pilar Del Río. No Brasil, a mentalidade reinante ainda é colonial, ultrapassada, velha. Pior do que isso, utilizar a palavra presidente parece ser um uma decisão ideológica daqueles que não aceitam o resultado das urnas e da maioria do povo brasileiro que elegeu Dilma Rousseff presidenta.

José Gil

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