As crianças de Gaza e o coração do cristão

Por Jair de Souza no site Pátria Latina -------- Os últimos dias foram muito tristes para quem ainda conserva alguma capacidade de empatia diante do sofrimento alheio. As imagens que nos chegam de Gaza são estarrecedoras. Ver fotos de crianças esqueléticas por não receberem alimentação, ou de gente sendo fuzilada ao se aproximar de caminhões que estariam levando ajuda humanitária tem sido de cortar o coração. Como é possível que alguém em pleno uso de sua razão possa acreditar que o que está acontecendo em Gaza corresponde aos desígnios de Deus? Lamentavelmente, existem sim várias pessoas aferradas a argumentações deste tipo, para aceitar, e até mesmo apoiar, um dos mais horrendos crimes contra a humanidade de todos os tempos, e certamente o mais horripilante dos últimos oitenta anos. Isto me foi corroborado recentemente em uma conversa que mantive com um amigo de longa data seguidor de uma religião dita evangélica. Ao expor-lhe meu estupor diante do morticínio que vem sendo perpetrado contra a população civil palestina de Gaza, que vitima especialmente crianças e mulheres, a resposta que recebi foi: “É, mas isto reflete a vontade de Deus, pois está tudo escrito na Bíblia. É o desejo de Deus, e devemos aceitá-lo.” Antes de obrigações, gostaria de reiterar algo já exposto em várias oportunidades em outros de meus textos: eu não tenho nenhuma religião, mas me incluo entre os seguidores dos ensinamentos ministrados por Jesus, segundo os relatos de sua vida estampados nos Evangelhos. Ali, podemos constatar que o que parece correto e justo é valorizado, já o que vai em contraposição ao seu sentimento humanitário é taxativamente rechaçado. Consequentemente, aquilo que vai no sentido do bem é válido de ser feito como coisa de Deus e, por sua vez, o que sinalizar para o caminho do mal deve ser encarado como sendo do diabo. Para questionar a atitude daqueles que anuem com o cometimento de crimes abomináveis sob a alegação de que os mesmos resultariam da vontade de Deus, o primeiro ponto que levanto é: as orientações de Deus deveriam ser cegamente obedecidas, sem importar se elas apontam claramente a prática da maldade? Aos que responderem sim a esta indagação eu diria que, talvez, eles possam estar sendo fieis à imagem do Deus representado pelos escritos do Velho Testamento, mas, de modo algum, poderão se dizer seguidores de Jesus. E não é tão difícil entender a razão disto: Jesus nunca convalidou nada do Velho Testamento que abertamente ferisse sua lógica humanitária da prática do bem. Portanto, para ele, as perversidades que estão sendo praticadas contra as crianças, as mulheres e toda a população indefesa da Palestina jamais receberão sua concordância.
Em segundo lugar, embora eu tenha total certeza de que os textos do Velho Testamento foram todos eles redigidos propriamente por seres humanos, e não por Deus, vamos admitir, por hipótese, que eles são de verdade uma criação do Ser Supremo. Assim, caberia outra pergunta simples: deveríamos buscar orientações evitadas de perversidade por elas serem provenientes de Deus? Em contraposição ao que dizem sim em resposta à pergunta recém-formulada, eu diria: se, de fato, Deus fosse assim, não teria razões justificáveis para que ele fosse obedecido e seguido, a não ser o medo e a covardia diante da ameaça de forte castigo pela rebeldia e a recusa a submeter-se a determinações nitidamente malignas. Para quem se encontrar situação, tanto faz que estas ordens de Deus sejam iguais às que viriam do Diabo, o importante é não sofrer castigos. Evidentemente, se Deus fosse capaz mesmo de instruir seus seguidores a apoiar um genocídio tão diabólico como o que está em curso em Gaza e no restante da Palestina, em lugar de ser seguido e adorado, tal Deus deveria ser execrado e mandado para os quintos do inferno, que seria o local mais produtivo para sua moradia. No entanto, Deus não tem culpa em nada disto. Aqueles que nele crêem e eles têm fé não precisam renegá-lo por isso. O que se torna imperativo é seguir o exemplo de Jesus, para evitar que os pilantras, aproveitadores e inescrupulosos façam uso de seu nome para induzir a gente de boa fé a ser cúmplice de maldades exclusivamente deles. E muito mais crimes ainda são os que recorrem ao nome do próprio Jesus para tão sórdida empreitada. Então, se você se considera um cristão de verdade, não permita que típicos pastores do diabo se aproveitem do nome e da simbologia de Jesus para induzir os frequentadores de seus estabelecimentos a violentar seus princípios. O objetivo desses espertalhões é fazer fortuna pessoal, trair a nossa pátria, favorecer o bolsonarismo e servir ao imperialismo. Confie em sua capacidade de raciocinar, não tenha medo de suas reflexões. Quem deliberadamente apoia ou é indiferente ao sofrimento do povo desamparado de Gaza não tem absolutamente nada a ver com o espírito de Jesus. Aqueles que fazem isso sem conhecimento de causa, por influência de serviços do diabo, podem romper sua dependência e aderir de verdade aos ideais do Nazareno. Não perca esta oportunidade. É hora de deixar aflorar a espera ensinada por Jesus.