Brasileiro é processado por faturar com as sanções de Trump e receber transferência fraudulenta de magnata que financiou campanha de Bolsonaro
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Por Gilson Camargo / Publicado em 6 de agosto de 2025
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Em 2013, Paulo Figueiredo e Trump fecharam acordo para construir um hotel de luxo barra da Tijuca, mas o magnata americano caiu fora do empreendimento, deixando o brasileiro com uma dívida milionária
O influenciador digital Paulo Figueiredo, neto do ditador João Batista Figueiredo, último presidente da ditadura brasileira, é investigado pelo sistema de justiça dos Estados Unidos por participar de um esquema de especulação financeira ligado às sanções de Donald Trump contra o governo brasileiro e o ministro Alexandre de Moraes. A chave do esquema foi um depósito de 140 mil dólares feito na conta de uma empresa de Figueiredo na Flórida. O autor da transferência – apontada como fraude pela justiça americana – é o magnata chinês Miles Guo, condenado por lavagem de dinheiro e organização criminosa nos EUA.
Investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por envolvimento nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, Paulo Figueiredo fugiu para os Estados Unidos e se associou ao deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-RJ) nos ataques ao próprio país. Após o anúncio do tarifaço de Trump, Figueiredo fez postagens e declarações ao lado do filho de Bolsonaro que levantaram suspeitas de que ele estaria faturando com as sanções. Ele já vinha sendo investigado pelo Departamento de Justiça (DOJ).
De acordo com a apuração da Agência Pública e da Mother Jones, o pedido de apuração na Justiça americana afirma que uma transferência de US$ 140 mil a uma empresa de Figueiredo foi fraudulenta. As informações estão em um processo que tramita desde fevereiro de 2024 no Tribunal de Falências do Distrito de Connecticut (EUA).
O documento aponta que a transferência teria sido feita por uma das empresas de fachada do lobista chinês. Colaborador e financiador de Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump e aliado da família Bolsonaro, Miles Guo é o controlador de uma rede social que patrocinou eventos em apoio à reeleição de Jair Bolsonaro em 2022
Postagem de Eduardo Bolsonaro, com Paulo Figueiredo, em rede social. Os dois comemoraram as sanções de Trump
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Esquema tenebroso
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Uma movimentação atípica e bilionária deixou o mercado financeiro em alerta no dia 9 de julho, quando alguém comprou entre 3 e 4 bilhões de dólares nos instantes que antecederam o anúncio do tarifaço de Trump contra o Brasil. Transações financeiras para obter vantagens pessoais com informações privilegidas são ilegais e vêm sendo investigadas com base em declarações do próprio Trump, de empresários e especuladores. “Em apenas 75 minutos, entre 11h30 e 12h45, nove negociações somaram mais de R$ 6,6 bilhões, quase 10% do total daquele dia. O maior negócio ocorreu às 11h38, com o BTG Pactual intermediando quase 10 mil contratos, equivalentes a R$ 2,7 bilhões”, apurou o ICL.
O neto do ditador deixou pistas sobre sua participação no esquema de Trump. Uma delas ocorreu no dia 16 de julho, uma semana depois que o presidente e megaespeculador anunciava um tarifaço de 50% sobre as importações do Brasil para os Estados Unidos como represália à iminente condenação de Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado, em uma descabida tentativa de interferência no sistema de justiça brasileiro.
Naquela quarta-feira, o influenciador Paulo Figueiredo apareceu em frente à Casa Branca, ao lado do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-RJ), anunciando que as medidas de Trum seriam o “início de uma jornada que pode ser tenebrosa para o Brasil”. Os dois recém tinham saído de uma “rodada de reuniões” em Washington com membros do governo de Donald Trump na qual era tramada a campanha para aplicar sanções contra o governo brasileiro e o ministro Alexandre de Moraes. Na postagem, Figueiredo e o filho de Bolsonaro comemoram e ameaçam o próprio país com mais sanções.
No dia 18 de julho, o influenciador diria em um podcast: “Estou 100% convencido de que as tarifas foram um movimento correto para o Brasil. O presidente Trump agiu corretamente e eu sou muito grato a ele”. As sanções seriam formalizadas com exceções no final de julho por Trump, que enquadrou o ministro Moraes na Lei Magnitsky, como parte da chantagem devido ao processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Com base no Código de Falências e na Lei de Dívidas e Créditos de Nova York, a justiça norte-americana passou a investigar a empresa do neto do ditador João Figueiredo, em uma ação é relacionada a um caso de falência que busca recuperar transferências feitas em uma fraude bilionária liderada pelo trumpista Guo.
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Governo paralelo e vida de luxo
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Justiça dos EUA investiga Paulo Figueiredo por fraude relacionada ao tarifaço
Condenado nos EUA, Guo controla rede social que sustentou campanha de Bolsonaro em 2022. Após o tarifaço, ele fez depósito suspeito de U$ 170 mil na conta de Figueiredo
O magnata chinês condenado por nove crimes está auto-exilado nos EUA desde 2015. Ele também é conhecido como Guo Wengui, Ho Wan Kwok e Miles Kwok. Foi colaborador e financiador de Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump e aliado da família Bolsonaro. O empresário chinês também é apontado pela Justiça dos EUA como “controlador” da rede social Gettr, que patrocinou eventos em apoio à reeleição de Jair Bolsonaro em 2022. O ex-CEO da Gettr, Jason Miller, também é próximo de Eduardo Bolsonaro.
Desde que chegou ao Brasil, em julho de 2021, a rede social pró-Trump se tornou um espaço de propagação de desinformação do bolsonarismo e entrou na mira da Polícia Federal (PF) no inquérito das milícias digitais, que investiga a existência de uma organização criminosa atuando online contra a democracia brasileira.
Detido desde março de 2023, Guo ganhou notoriedade por causa de seu posicionamento crítico ao governo chinês e de apoio à extrema direita dos EUA, ajudando a difundir teorias da conspiração sobre a criação da Covid-19, revela a reportagem da Pública e da Mother Jones.
O Departamento de Justiça dos EUA também aponta que Guo pagou ao menos US$ 1 milhão para Bannon. Em 2024, reportagem da Mother Jones apurou que o valor foi destinado a serviços de consultoria à rede de empreendimentos de mídia e organizações do chinês, que incluía um grupo fundado por ele e Bannon para servir como um suposto governo paralelo ao Partido Comunista Chinês. Guo foi acusado de ter enganado milhares de seguidores na internet para investir em negócios sob seu controle e desviar mais de US$ 1 bilhão para financiar sua vida de luxo.
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Os 140 mil dólares de Paulo Figueiredo
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Polícia Federal. O hotel foi rebatizado como Lifestyle Laghetto Collection e cobra diárias de até R$ 1.870 na baixa temporada.
Sob a fachada, uma dívida de R$ 15 milhões em impostos à prefeitura carioca que o empreendimento não cumpria sob a alegação de recuperação judicial desde 2019. O fundo de investimento Polo Special Situations emprestou dinheiro na forma de títulos da dívida pública para alavancar o negócio, em 2016, e agora está cobrando a dívida de Paulo Figueiredo e de outras oito pessoas físicas e 18 empresas.
Em 2019, ele foi preso nos EUA no âmbito da operação Circus Máximus, da Polícia Federal, que investigava um esquema de pagamento de propinas a dirigentes e ex-dirigentes do BRB, banco estatal de Brasília, em troca de investimentos em projetos, entre os quais a construção do Trump Hotel que nunca se concretizou.