Angela Carrato ---------------
Quarta-feira com rodada do Brasileirão é quando a família Marinho aumenta ainda mais o faturamento da TV Globo.
A sacrificada, obviamente, é a notícia.
As novelas, o BBB seguem vida normal. Enquanto isso, o JN, cujas edições giram em torno de 80 minutos, teve nesta quarta-feira (11/3) duração de meros 34 minutos.
Há quem considere a redução até positiva, pois diminuem também as mentiras, manipulações e distorções divulgadas.
Há controvérsias.
Mesmo com edição para lá de reduzida, o JN desta noite deu mais um show de desinformação.
Vamos aos fatos.
1. GUERRA DOS ESTADOS UNIDOS E ISRAEL CONTRA O IRÃ ---------
O assunto abriu a edição, que se mostrou propositalmente confusa e truncada. O objetivo era mostrar um Trump durão, forte e cantando vitória: "vamos seguir lutando até terminar o serviço". Vale dizer: destruir e derrotar o Irã.
Só que os dados apresentados pela própria reportagem não apontam para isso.
O estreito de Ormuz continua fechado e o Irã bombardeou mais um petroleiro que tentou romper o bloqueio. Desta vez o atingido possuía bandeira da Tailândia.
Como o barril do petróleo continua subindo e Trump não consegue resolver a situação, o jeito foi os 32 países que integram a Agência Internacional de Energia (AIE) entrarem em ação. Decidiram liberar todos os seus estoques de petróleo, o equivalente a 20 dias de fluxo normal pelo estreito, para conter a alta.
Deve funcionar por um prazo curto, mas e depois?
Outro aspecto que não deixa Trump bem na fita diz respeito à sua relação com as big techs e a empresa de IA Anthropic.
Todos ainda se lembram que, na posse dele, a primeira fileira de convidados era composta pelos donos destas empresas. Bilionários que agora estão em pé de guerra com ele. O caso mais evidente é o da Anthropic que entrou na justiça por ser contra a utilização militar irrestrita de sua ferramenta de IA Cloude.
A Anthropic não aceita que a ferramenta seja utilizada para vigilância em massa e nem que atue de forma completamente autônoma.
As big techs estão preocupadas com o aprofundamento do prejuízo envolvendo as ferramentas de IA. Prejuízos que podem se ampliar ainda mais se as pessoas as associarem à vigilância e ao controle.
A briga promete ser boa e nem Trump e nem seu Departamento da Guerra estão tranquilos.
Se o objetivo da reportagem era reforçar a visão de que Trump está vencendo, a impressão que ficou foi exatamente a oposta.
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2. CPI DO BANCO MASTER -----------
O JN noticiou que o ministro do STF, Dias Toffoli, julgou-se "impedido" para ser o relator do processo de pedido de abertura de CPI do Master e que o ministro Cristiano Zanin será o relator.
Isso depois da campanha para desacreditar os ministros Alexandre de Moraes e o próprio Toffoli, alegando que familiares de ambos teriam negócios com o Master.
Mas o que chamou atenção foi a reportagem mostrar que ACM Neto, vice-presidente nacional do União Brasil e pré-candidato ao governo da Bahia, recebeu R$ 3,6 milhões a título de consultoria para o Master. ACM Neto tentou se explicar, dizendo que o serviço foi devidamente prestado, mas resta saber o que o eleitor vai achar disso.
O que levou o JN a tomar esta atitude?
Ele atirou em ACM Neto para salvar a própria pele.
A notícia que faltou é que o Grupo Globo recebeu, em 2025, nada menos do que R$ 120 milhões do Master, a título de patrocínio em Nova York, do aniversário de 25 anos de um dos seus veículos, o jornal Valor Econômico.
O evento foi considerado chave para colocar Daniel Vorcaro e suas empresas no "grand monde" das finanças nacional e internacional com a chancela da família Marinho.
Detalhe: o valor recebido por uma única noite é pouco menor do que o previsto em contrato com o escritório da esposa de Alexandre de Moraes: R$ 192 milhões em dois anos.
Além deste patrocínio, a fintech Will, do conglomerado Master, patrocinou o programa do global Luciano Huck, que se tornou seu garoto-propaganda.
Se o ministro Alexandre de Moraes, segundo colunistas amestrados da família Marinho, deveria renunciar ao cargo por causa do contrato da esposa, seguindo a mesma lógica qualquer cidadão brasileiro pode pedir a cassação da concessão da Globo pelos negócios com um notório corrupto.
Claro que os sorridentes César Tralli e Renata Vasconcellos passaram anos luz do assunto.
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3. MAIS PESQUISAS ----------
Desta vez foi a pesquisa Quaest, mostrando que tanto o governo Lula quanto o modo de governar do presidente não contam com o apoio da maioria da população.
Não vou discutir metodologia.
Gostaria apenas que o JN informasse quem bancou a pesquisa. Se for banco, fintech ou empresa da Faria Lima o resultado precisará sempre ser colocado sob suspeição.
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4. POSSE PRESIDENCIAL NO CHILE --------
Com nota coberta de apenas alguns segundos foi noticiada a posse do novo presidente do Chile, José Antônio Kast.
Importante país da América Latina, o Chile passa a ser governado por um extremista de direita, admirador de Augusto Pinochet e subserviente aos Estados Unidos e a Trump.
As principais agências internacionais de notícia destacaram o fato, lembrando que ele começou mal: hostilizou o antecessor Gabriel Boric, não aceitou receber dele a faixa presidencial e ignorou todo o processo de transição.
A cerimônia de posse foi bastante esvaziada. O Brasil foi representado apenas pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Qualquer semelhança com Jair Bolsonaro não é coincidência. Será que para poupar seu filho e pré-candidato Flávio Bolsonaro, que apareceu por lá, representando não se sabe quem, o JN escondeu o assunto?
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5. SABESP-----------
Uma pessoa morreu, nove ficaram feridas e 30 casas seriamente danificadas com o rompimento de uma caixa d'água da empresa Sabesp, em Mariporã, na grande São Paulo.
As imagens das águas inundando tudo e causando destruição são impressionantes.
A empresa anunciou que "vai ressarcir todos os prejuízos".
Faltou só a reportagem do JN contar para o seu respeitável público que a Sabesp era uma empresa modelo até a privatização em 2024 pelo governador de extrema-direita, Tarcísio de Freitas.
De lá para cá, tornou-se recordista em problemas.
Esse Tarcísio é o mesmo que quer continuar governando São Paulo.

