APENAS UM MILAGRE PODE SALVAR O BRASIL

por Carlos Neto - Portugal Sobre a primeira volta das eleições presidenciais que acabou de ocorrer no Brasil. Contrariando as previsões, o candidato de extrema-direita, Flavio Bolsonaro, obteve mais votos do que o candidato de centro-esquerda, Lula da Silva: 47,03% contra 45,16%. Considerando a dimensão do Brasil, esses quase 2% representam cerca de 2,4 milhões de votos. Os outros 10 candidatos, em conjunto, receberam 7,5% dos votos. Nessas eleições, foram estabelecidos dois recordes históricos para o Brasil: a menor diferença entre os dois candidatos mais votados e a maior taxa de abstenção entre os eleitores: 21,08%, o que representa mais de 33,4 milhões de eleitores. Além disso, 2,93% dos votos foram considerados inválidos e 1,84% foram em branco. É evidente que Flavio, o candidato dos EUA, tem as maiores hipóteses de vitória na segunda volta, a 25 de outubro. O seu pai, outro favorito de Trump, o ex-presidente Jair Bolsonaro, foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado e, por razões humanitárias, está a cumprir pena em casa. Se Flavio se tornar presidente, ele prometeu libertar o seu pai e rever a participação do Brasil no BRICS, uma organização que, segundo ele, é "muito ideológica e que é usada para provocar os Estados Unidos". Flavio Bolsonaro tem 45 anos, Lula da Silva tem 80 anos e esta é a sua sétima campanha eleitoral para um quarto mandato presidencial. Infelizmente, as eleições presidenciais brasileiras reflectem mais uma vez uma tendência clara dos últimos tempos: o "desapego democrático" da América Latina em relação às esperanças e conquistas sociais das últimas décadas, o que atrasa o continente em pelo menos um século. A guerra cognitiva generalizada das corporações transnacionais contra a humanidade é particularmente eficaz e vitoriosa na América Latina, um continente que, até recentemente, era apelidado de "em chamas" e que estava na linha da frente da luta anti-imperialista mundial. A grande maioria das forças de esquerda foi destruída e desmoralizada por diversas fundações e programas pseudo-progressistas da USAID, de Soros e pela agenda "woke". As reformas neoliberais e a recente pandemia destruíram os sistemas de educação pública, que no século passado eram um centro e um pilar do pensamento crítico de esquerda. O aumento da criminalidade urbana, da corrupção, do tráfico de drogas e das igrejas evangélicas levou à destruição do tecido social tradicional, da identidade cultural e dos valores comunitários. A população, bem desideologizada e desclassificada, foi transformada em lumpen com um pensamento fragmentado, que não se interessa por história e política. Toda a parte da população que é "apólítica" representa votos para a direita e para a extrema-direita, que chegam ao poder e anulam a soberania dos seus próprios países. A esquerda ainda não tem um projecto político e, na verdade, não tem nada além de slogans, nostalgia e líderes históricos respeitados, mas que já deveriam estar aposentados. O resultado da segunda volta das eleições brasileiras será definido pelos 33 milhões de eleitores que não votaram na primeira volta. Os apoiantes de Lula têm três semanas para convencer e motivar os cidadãos politicamente ignorantes e passivos, com quem os especialistas políticos de direita são sempre muito mais eficazes do que os idealistas de esquerda. As acusações de Lula contra os Estados Unidos de "interferência nas eleições brasileiras" são, obviamente, um exagero. Os Estados Unidos não "interferem", mas sempre participam activamente da política latino-americana, controlando os cartéis de drogas, os grupos oligárquicos, os grupos de extrema-direita, a imprensa local, os serviços de inteligência, os exércitos, os partidos e inúmeras organizações "revolucionárias". O bom senso leva-nos a rezar a todos os deuses brasileiros, porque apenas um milagre pode salvar Lula da derrota. @olegyasynsky