por Edilson Pereira -----
DONA ARMÊNIA – A atriz Aracy Balabanian morreu hoje aos 83 anos. Dizer que foi uma mulher bonita, grande atriz e tinha bom humor é chover no molhado. Também não dá para lamentar muito porque uma hora todos nós nos vamos. E 83 anos é uma idade razoável, bem vivida, para cair fora da festa, porque depois disso é como ficar na festa para lavar prato e limpar o chão. Sei do que escrevo porque cuido de uma tia de 97 anos que está perplexa com a inutilidade de uma vida excessivamente longa. Não pode fazer nada a não ser ficar na cama. Ir do quarto ao portão é uma maratona cansativa. A pessoa ouve mal (quando ouve), enxerga pior ainda (quando enxerga) e mal consegue andar (quando anda). Isto no caso de minha tia que não tem nenhum tipo de doença. Graças a Deus!
Mas também não dá para não falar desta mulher maravilhosa que foi Aracy Balabanian, que nasceu em Campo Grande no Mato Grosso do Sul em 1940, quando o estado nem fora dividido em dois. Estreou na televisão em 1964, na TV Record. E participou de clássicos da teledramaturgia brasileira como “Antônio Maria”, “A Fábrica” e “Nino, O Italianinho”. Muitos hoje com 60 anos recordam dela na "Vila Sésamo" na Globo ao lado de Armando Bogus e Sônia Braga. Além de sucessos da teledramaturgia, como “Bravo”. Foi nesta novela da Rede Globo de 1975 que tomei o primeiro porre de música erudita e descobri a maravilhosa “Rapsódia sobre um tema de Paganini”, de Sergei Rachmaninoff, que me comove até hoje. Acho que esta novela fez mais para despertar o interesse da música erudita no Brasil que qualquer outra iniciativa oficial. Esta novela e os fascículos da Editora Abril.
Mas presumo que o maior sucesso popular de Aracy foi a personagem Dona Armênia, na novela “Rainha da sucata”, porque era engraçada. Era uma armênia que morava no Brasil há vários anos e tratava os filhos Gino, Gera e Gerson (três marmanjos) como se fossem bebês. A novela foi exibida originalmente de 2 de abril a 26 de outubro de 1990 em 179 capítulos. A frase "Vou botar essa prédio na chon!" marcou a novela e foi pronunciada no dia a dia como expressão popular de revolta. A personagem foi uma das raras oportunidades no Brasil para chamar atenção para este país, a Armênia, que sofreu um monstruoso genocídio praticado pelos turcos no começo do século passado.
A primeira vez que ouvi falar com detalhes deste genocídio foi através do jornalista Gabriel Papazian, que era armênio e amigo do fotógrafo Ubirajara Dettmar. Ele trabalhou comigo na Agência Folhas. O genocídio armênio foi uma campanha sistemática do Império Otomano (atual Turquia) de assassinatos, deportações e violências diversas contra o povo armênio durante a Primeira Guerra Mundial (1914 a 1918) e depois nos anos 20 (1920 a 1923). Massacre e atrocidades em massa. “As jovens armênias eram vendidas como escravas e as crianças encaixotadas vivas e atiradas no Mar Negro", relata o escritor Nubar Kerimian, no livro “Massacres de Armênios”.
“Os padres também eram queimados amarrados em cruzes, como Jesus, e os fetos, arrancados dos ventres das mães, jogados para o ar e aparados na espada”, diz Kerimian. O massacre armênio é um holocausto como a matança de judeus pelos nazistas na segunda guerra mundial. A diferença é que se fala mais do holocausto judeu do que do genocídio armênio. Foram 5 milhões de mortos. Dois em cada três armênios morreram. Em 1923, a população armênia na Turquia estava restrita a comunidade que morava em Constantinopla.
Os turcos até hoje se negam a reconhecer o genocídio. Acho que a melhor forma de honrar a memória desta grande atriz é recordar a saga e a agonia de seus ancestrais que, se dependessem dos turcos, não deixariam descendentes como Aracy Balabanian. E não estaríamos falando de Dona Armênia. A atriz. E a nação.
