por René Ruschel -----‐------
Renato Freitas é o tipo de político que incomoda e muito. Negro, vindo da miséria, carrega no corpo e na fala a memória de uma vida inteira enfrentando um sistema que o queria calado.
Mas ele não cala. E é justamente essa coragem que o torna alvo de perseguições, manobras e tentativas constantes de silenciamento.
Nesta quarta-feira, 13, o desembargador Jorge de Oliveira Vargas, do Tribunal de Justiça do Paraná, suspendeu a punição imposta pela Comissão de Ética da Assembleia Legislativa do Paraná que havia retirado suas prerrogativas parlamentares por 30 dias.
Foi acusado de ajudar a organizar a ocupação da Alep por professores, em junho do ano passado. O caso ecoou além das fronteiras brasileiras, chegando às páginas do jornal britânico The Guardian.
A trajetória de Renato é por si só uma denúncia contra o Brasil desigual. Filho de uma nordestina paraibana que trabalhou quase a vida toda como empregada doméstica e um presidiário, cresceu em Almirante Tamandaré, município da região metropolitana de Curitiba, num bairro marcado pela pobreza, violência e abandono do Estado.
Não tinha nem registro civil ao chegar ao Paraná. Em 2005, venceu as estatísticas e ingressou na Universidade Federal do Paraná. Escolheu o curso de Direito para combater a injustiça que o acompanhava desde a infância.
Advogado, mestre em Direito Penal, deputado eleito em 2022 com 57.880 votos, ele não hesita em denunciar crimes, assassinatos, corrupção e desmandos. “Carrego na pele as cicatrizes desses crimes”.
Suas palavras não são retórica vazia, mas memória viva de quem sentiu o racismo e a exclusão de forma brutal.
Tornou-se vítima do preconceito de classe. “Vivi e senti não somente a miséria, mas o racismo e o preconceito. Sempre quis fazer alguma coisa pelos meus iguais”, desabafa.
A elite branca não tolera ver um homem negro, vindo de baixo, ocupando espaço de poder com autonomia e altivez.
Não tolera que ele desafie privilégios históricos, que exponha a podridão dos bastidores, que recuse a docilidade esperada de quem ousa atravessar o muro social erguido há séculos.
Renato Freitas não teme. E é por isso que tentam contê-lo. Mas cada ataque só reforça sua imagem de resistência.
Sua trajetória prova que, no Brasil, lutar por justiça é sempre um ato de coragem e, para alguns, um crime imperdoável.
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