Doutor em filosofia de Portugal avalia obra de Antoun Saadeh

Dr. J. M. de Barros Dias* ------------- Universidade de Évora. CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa. ------------------------- Lutando com as ideias a partir de um firme ideal de Justiça, Youssef Mousmar veio a meu encontro, certo dia, na curitibana Boca Maldita, com um volume prenhe de alma. Era o manuscrito de Antoun Saadeh – O Sociólogo e o Filósofo.
Presumo que, para o leitor do Trópico, não muito dado à mais radical das atividades teóricas humanas, a Filosofia, há alguma estranhação ante o nome do autor que é objeto desta obra: Antoun Saadeh. Devo afirmar, em abono da Verdade mas, também, do Bem, que Saadeh, hoje esquecido por muitos – e não somente no Brasil –, é um autor que, com sua obra prematuramente interrompida, esculpiu em mármore pentélico o amor que, ao longo da vida, nutriu pela Pátria que desejava grande e, a um tempo, futurante: a Síria. Nascido em Beirute, em 1 de Março de 1904, e executado pelas autoridades libanesas, afetas aos interesses da antiga potência colonial do Monte Líbano, a França, no dia 8 de Julho de 1949, Saadeh é, atualmente, referência teórica pela sua obra maior, Gênese das Nações, da qual se publicou unicamente o primeiro volume. O fundador do Partido Nacional Socialista Sírio teve presente, ao longo da vida, a pugna pelo ideal da Grande Síria, não a da Pequena Síria, ou Síria geográfica – aquela que os avatares da História, ao longo do século XX, fizeram chegar até nós. O que pretendia, então, Saadeh? O que pretende, então, Mousmar? Ambos, cronologicamente separados – Saadeh, uma vítima das sequelas do Liberalismo do século XIX que terminou na tragédia que culminou na II Guerra Mundial; Mousmar, um crítico da pós-modernidade convulsiva em que vivemos –, têm ante si um desafio civilizacional. Neles grita, numa dor de alma, numa dor sem fim, a problemática da Pátria. Se é certo que, quem da pátria sai de si mesmo escapa, então, quer Saadeh, quer Mousmar estarão, para sempre, unidos por um comum ideal de transterridade . Com efeito, eles não saíram da terra que lhes serviu de berço por motivos econômicos, como não o fizeram por razões religiosas. Ambos, um dia, tiveram que partir. Com eles levaram a Síria e, lá onde Saadeh viveu – em São Paulo –, onde Mousmar vive – em Curitiba –, ambos tiveram a arte de construir suas Sírias ideais, com a alma posta na terra-Mãe, lá, onde os homens são mais do que homens e Deus, esse, é pouco menos do que Deus. Terra Mágica, portanto, a terra do exílio se transformou, para eles, em promessa de um tempo venturoso, o do futuro que Saadeh e Mousmar tudo fizeram para que, um dia, se tornasse possível. Antoun Saadeh e Youssef Mousmar jamais renegaram, portanto, a tradição que lhes nutriu o ser. Devo sublinhar que as raízes do pensamento de Saadeh radicam em terra fecundante, milenar, orgulhosa. Nela, a tradição, do latim tradere, é algo que equivale a “entrega”, é aquilo que se passa de um a outro, trans, um conceito que é irmão dos de transmissão e de transladação. Nesta hoje tão martirizada Síria, não pode ter esperança quem não tem recordações: é o caminho percorrido que dá forças para percorrer o que falta. Aquela Pátria de antiga idade pode, contudo, rejeitar a herança; pode aceitá-la, criticando-a; pode, ainda, aceitá-la sem qualquer tipo de crítica. Não concebo, contudo, que aquele povo seja uma tábua rasa que, sem memória de nada, crie tudo a cada momento do seu existir. Se a Pátria é passado – ela é, no dizer de Maurice Barrès, la terre et les morts – a Pátria é, fundamentalmente, como declarou Claudel, la mer et les vivants. Melhor: a Pátria é a terra, o mar, os mortos, os vivos e os ainda não nascidos. Em tensão entre o passado e o devir, a Pátria será, no futuro de cada um, conosco, mas com aqueles que, hoje, ainda não são. A Síria, será, portanto, naqueles que hoje tiverem a arte de viver o seu Espírito mas será no tempo ainda por haver, no tempo em que todos nós já não seremos no plano material da existência. A Síria de Alexandre III, da Macedônia, de Septímia Zenôbia, de Antoun Saadeh, de Youssef Mousmar merece ser conhecida por todos quantos temos, acerca do ser humano e do seu destino, uma concepção que ultrapasse a dimensão orgânica da existência. Podemos, e devemos, se for o caso, discordar do posicionamento de cada um deles. Mas, antes da crítica, estará, sempre, o conhecimento das propostas acalentadas por cada um deles. Só do conhecimento nascerá, pois, essa obra cordial que é a crítica. Antoun Saadeh: O Sociólogo e o Filósofo é, verdadeiramente, uma polifonia. Sob a batuta de Youssef Mousmar, os onze autores que contribuíram para que esta obra visse a luz do dia são, na verdade, intérpretes exímios da vontade nacionalista a que Saadeh deu corpo em 16 de Novembro de 1932. Luis Fernando Lopes Pereira, Haidar Haj Ismael, Fabio Bacila Sahd, Alia Haddad, Elias Mattar Assad, Jamil Iskandar, José Gil de Almeida, a Dr.ª Elisangela, Moutih Ibrahim, Marta Teresa Tjara, Roberto Katlab são os extraordinários intérpretes do pensamento de Antoun Saadeh que, a partir do sopro daimônico de Mousmar, construíram este livro que, em boa hora, acaba de ver a luz do dia. ---------------- J. M. de Barros Dias - Universidade de Évora - CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa