O MISTÉRIO DE ITAIPU

por Kelly Maria Ferreira ----------- A usina de Itaipu Binacional começou a ser pensada nos anos 1960, quando Brasil e Paraguai passaram a negociar o uso do rio Paraná. Em 1966 foi assinada a Ata do Iguaçu. Em 1973, durante a ditadura militar brasileira e o regime autoritário do Paraguai, foi assinado o Tratado de Itaipu. Em 1974 a Itaipu Binacional foi criada oficialmente. As obras começaram em 1975 e terminaram em 1984. A usina entrou em operação em 1985. Toda a construção ocorreu sob regimes autoritários, sem imprensa livre, sem controle externo independente e sob sigilo militar. Itaipu se tornou a maior obra de engenharia do mundo à época. O custo total nunca foi totalmente esclarecido de forma consensual. Estimativas variam entre cerca de 18 bilhões e 27 bilhões de dólares. Houve milhares de contratos, aditivos e negociações com empresas nacionais e estrangeiras, além de financiamentos internacionais. Durante a construção, dezenas de trabalhadores morreram oficialmente e milhares sofreram acidentes. Há registros e denúncias históricas de que o número real de mortes pode ter sido maior, mas parte desses dados nunca foi completamente documentada ou divulgada. O ambiente da obra reunia três fatores centrais: ditadura, cifras bilionárias e sigilo. Esse contexto é reconhecido por pesquisadores, jornalistas e órgãos oficiais como propício a irregularidades administrativas, financeiras e violações de direitos humanos. É nesse cenário que surge o nome de **José Pinheiro Jobim**. José Jobim era diplomata de carreira, ex-embaixador e conhecedor profundo das relações entre Brasil e Paraguai. Teve acesso a informações estratégicas do Estado brasileiro e acompanhou de perto temas ligados a Itaipu. Não era militante político nem figura pública de oposição. Em março de 1979, José Jobim comentou com pessoas próximas que estava escrevendo um livro de memórias. Segundo familiares e relatos documentados posteriormente, o livro trataria de irregularidades econômicas e administrativas envolvendo a construção de Itaipu, incluindo suspeitas de superfaturamento e contratos obscuros. No dia 22 de março de 1979, José Jobim saiu de casa, no Rio de Janeiro, e desapareceu. Dois dias depois, em 24 de março de 1979, seu corpo foi encontrado pendurado em uma árvore na Barra da Tijuca. Na época, a versão oficial apresentada foi a de suicídio. Desde o início, familiares e pessoas próximas contestaram essa versão. O local, a posição do corpo, contradições nos registros policiais e falhas na investigação levantaram dúvidas consistentes. Além disso, documentos que José Jobim guardava em casa desapareceram após seu desaparecimento. O inquérito policial da época foi rápido, superficial e acabou arquivado. Durante a ditadura, casos semelhantes eram frequentemente encerrados como suicídio sem investigação aprofundada. Décadas depois, já no período democrático, o caso foi reavaliado por órgãos oficiais do Estado brasileiro. A Comissão Nacional da Verdade e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos analisaram documentos, depoimentos e o contexto histórico. Essas comissões concluíram que José Jobim foi sequestrado, torturado e morto por agentes do Estado brasileiro durante a ditadura militar. Em 2018, a certidão de óbito foi oficialmente retificada, deixando de constar suicídio e passando a registrar que ele foi vítima da repressão política. Até hoje, não há condenações criminais individuais pelo caso. Os responsáveis diretos e eventuais mandantes não foram identificados judicialmente. Os documentos que José Jobim teria reunido sobre Itaipu nunca reapareceram. O Estado brasileiro reconheceu a responsabilidade pela morte, mas não apresentou um dossiê completo que detalhe contratos, valores, empresas ou beneficiários das irregularidades que ele pretendia denunciar. O que é fato comprovado hoje: Itaipu foi construída sob ditadura, com sigilo e sem controle externo efetivo Houve mortes e violações durante a obra José Jobim tinha conhecimento estratégico sobre Itaipu Ele afirmou que faria denúncias Foi sequestrado e morto O Estado reconheceu que não foi suicídio O que permanece sem esclarecimento: Onde estão os documentos de José Jobim. Quais contratos específicos seriam denunciados. Quem ordenou sua morte. Quem se beneficiou das possíveis irregularidades.