Bolívia: Rebelião popular avança e exige renúncia do governo neoliberal de Rodrigo Paz

Por Milton Alves* A rebelião popular na Bolívia ganhou amplitude e intensidade nas últimas vinte quatro horas: com greves de trabalhadores – fabris, mineiros, caminhoneiros e dos serviços públicos -, bloqueios nas principais estradas do país, barricadas em diversas sedes de órgãos federais e colunas de milhares que cercam o palácio presidencial, em La Paz. A onda de protestos é uma resposta ao draconiano programa de ajustes e privatizações do governo Paz. As medidas anunciadas implicaram na adoção de uma política de arrocho salarial, no fim do subsídio estatal aos combustíveis e nas privatizações de diversos serviços públicos. A situação transbordou quando o presidente anunciou a aprovação de uma Lei de Terras que abre caminho para grupos econômicos explorarem as terras dos pequenos agricultores e das áreas comunais indígenas, uma legislação histórica conquistada pela massa camponesa do país andino. Paz quer entregar essas terras a empresas do agronegócio, inclusive brasileiras, e para estrangeiras do setor da mineração. A resistência popular é a saída para derrotar os governos neoliberais Os protestos começaram no dia 1° de maio, quando a Central Operária Boliviana (COB) decretou uma greve geral por um reajuste salarial de 20%, que ganhou a adesão das organizações camponesas e indígenas. A tensão escalou nos últimos dias, e o embate entre o governo e as massas aponta para um impasse, apesar de Paz anunciar que vai revogar o decreto de Lei de Terras e voltar com o subsídio aos combustíveis. A COB, as federações camponesas e as organizações indígenas demandam a renúncia do presidente Rodrigo Paz. Um documento firmado por federações de moradores, sindicatos e organizações indígenas da região de La Paz exige a renúncia imediata de Paz como saída para a crise. “Exigimos a renúncia imediata do presidente Rodrigo Paz, a quem responsabilizamos pela crise econômica e social que atravessa o país. Rejeitamos qualquer tentativa de diálogo sem resultados concretos – o tempo da espera expirou e as bases não aceitarão mais mesas de negociação que sirvam apenas para ganhar tempo.”, afirma a declaração. Trump quer mais repressão O governo de Trump orienta abertamente para o incremento das medidas de repressão para tentar conter os protestos, que segundo ele é patrocinado por “socialistas e narcotraficantes”. Na mesma toada, o secretário de Estado, Marco Rubio, na rede X afirmou que “os Estados Unidos não permitirão que criminosos e traficantes de drogas derrubem líderes democraticamente eleitos”. O governo Trump sinaliza um intervencionismo nos assuntos internos da Bolívia. Rodrigo Paz, com base em mandado expedido pelo Ministério Público, ordenou a captura do secretário-executivo da COB, Mario Argollo, falsamente acusado de incitação pública de atos criminosos e terroristas. Por sua vez, o ex-presidente Evo Morales, também acusado de incitação, denunciou que paramilitares, com apoio do Exército, buscam realizar o seu sequestro, nos moldes do sequestro do presidente da Venezuela, Nicolas Maduro. No momento, ele se encontra em Chimoré, no departamento de Cochabamba, protegido por milícias de camponeses e indígenas. Evo sugeriu “que ele (Paz) assine um documento publicamente diante da população declarando que não privatizará eletricidade, telecomunicações ou água. Isso diminuirá a tensão” O governo de Paz, com apenas seis meses de existência, balança e tenta desesperadamente se segurar no chamado “Escudo das Américas”, um combo intervencionista e contra insurgente de Trump para brecar as lutas populares e anti-imperialistas na América Latina. Os desdobramentos da crise na Bolívia ainda são incertos, mas o governo de Rodrigo Paz só conseguirá sobreviver com auxílio da ingerência imperialista dos EUA e a custódia do Exército boliviano, de larga tradição golpista. *Colunista em diversos portais e sites da mídia progressista e de esquerda. Autor dos livros ‘Brasil Sem Máscara – o governo Bolsonaro e a destruição do país'[Kotter, 2022] e de ‘Lava Jato, uma conspiração contra o Brasil'[Kotter, 2021], entre outras obras. Integra o diretório estadual do Partido dos Trabalhadores (PT-PR).