A HISTÓRIA PROIBIDA DO LATIFÚNDIO BRASILEIRO

Em novembro de 1963, nas cabeceiras do Rio Aripuanã, na divisa entre Mato Grosso e Rondônia, pistoleiros armados atacaram uma aldeia do povo Cinta Larga. A ordem partiu de Antônio Mascarenhas Junqueira, dono de seringais na região, que queria os indígenas fora de suas terras. Ele disse, segundo registros do inquérito, que aqueles índios eram parasitas e que era hora de liquidá-los. Primeiro veio o avião. Junqueira contratou o piloto Toschio Katô para sobrevoar a aldeia e lançar dinamite sobre ela. Depois, uma expedição terrestre de 68 dias, liderada pelo pistoleiro Francisco Luiz de Souza, conhecido como Chico Luiz, cruzou mais de dois mil quilômetros de mata para alcançar os sobreviventes. Chegaram de manhã e abriram fogo com metralhadoras enquanto os Cinta Larga começavam o dia. Trinta pessoas foram mortas. Duas sobreviveram. O caso ficou conhecido como o Massacre do Paralelo 11. O motivo era dinheiro. A empresa de Junqueira, Arruda Junqueira & Cia., explorava borracha na região e, segundo o Ministério Público Federal, também negociava a venda de parte da terra indígena a uma empresa norte-americana interessada em minerar cassiterita, um minério usado na produção de estanho. Os Cinta Larga não eram obstáculo por serem diferentes. Eram obstáculo porque estavam em cima do que se queria extrair. O massacre só virou caso de polícia porque um dos pistoleiros, Ataíde Pereira dos Santos, não recebeu o pagamento combinado e decidiu contar tudo. Sua confissão foi gravada pelo padre jesuíta Edgar Schmidt. A fita chegou ao Serviço de Proteção ao Índio em Cuiabá e, a partir daí, as investigações revelaram uma rede muito maior de crimes. Em 1967, o procurador Jáder de Figueiredo Correia entregou ao governo federal um relatório de mais de sete mil páginas documentando assassinatos, torturas, escravização, envenenamento e roubo de terras cometidos contra povos indígenas em todo o Brasil, entre os anos 1940 e 1960. O documento ficou conhecido como Relatório Figueiredo. Sua consequência direta foi a extinção do SPI, que deveria proteger os indígenas e em vez disso participava dos crimes, e a criação da FUNAI em 1967. Depois disso, o relatório desapareceu. Por mais de quarenta anos, ninguém sabia onde estava. Só foi reencontrado em 2012, no acervo do Museu do Índio, no Rio de Janeiro, a tempo de ser usado pela Comissão Nacional da Verdade. Os mandantes do Massacre do Paralelo 11 morreram livres. O piloto que jogou a dinamite negou tudo, disse que havia lançado sacos de arroz e feijão, e morreu em 2015 sem condenação. Nenhum dos responsáveis foi punido pelo crime. O caso não foi um incidente isolado de violência. Foi o funcionamento normal de um sistema em que terra indígena, recurso natural, pistoleiro, empresa e silêncio do Estado operavam juntos. A borracha no século XIX, a cassiterita nos anos 1960, o garimpo nos anos 1980, o desmatamento hoje: muda o produto, o mecanismo permanece. FONTE: Comissão Nacional da Verdade. Relatório Final, vol. II: "Violações de direitos humanos dos povos indígenas." Brasília, 2014. Ministério Público Federal (6ª Câmara). Ação sobre reparação histórica ao povo Cinta Larga, 2023.