Pátria Latina
Por: Wagner França
O dia 26 de junho de 2024 não foi apenas o fim de uma batalha judicial de 14 anos. Foi o retrato mais límpido e brutal da verdadeira face do poder imperial. Ao aterrissar em Canberra, na Austrália, um homem de 52 anos, de cabelos grisalhos e o andar trôpego de quem foi mantido em confinamento solitário por anos, ajoelhou-se no asfalto para beijar a terra. Aquele homem, Julian Assange, não era um terrorista, um espião ou um assassino. Seu crime foi ter ousado, por meio do jornalismo, revelar as vísceras do monstro. A cena de um homem destruído beijando o chão de sua pátria, após selar um pacto com o sistema que o perseguiu, é uma metáfora de uma vitória amarga, uma liberdade condicionada que serve como um alerta para jornalistas e editores em todo o mundo.
Quem é o Homem que o Império Tentou Silenciar?
Para entender a dimensão do caso, é preciso voltar ao cerne da questão. Julian Paul Assange, um hacker e programador australiano de mente brilhante e espírito anárquico, fundou em 2006 o WikiLeaks, uma plataforma que revolucionou a prática jornalística ao utilizar a criptografia para proteger fontes anônimas de denúncias. Sua filosofia era simples e devastadora para os poderes constituídos: a transparência radical como arma contra os abusos de governos e corporações.
Mas o que transformou Assange de um ativista da transparência em um inimigo de estado número um do Ocidente foram os vazamentos de 2010. Em parceria com veículos como The Guardian, The New York Times e Der Spiegel, o WikiLeaks publicou uma série de documentos militares e diplomáticos dos EUA que expuseram, sem retoques, a máquina de guerra imperial. Entre eles, o vídeo “Collateral Murder”, onde um helicóptero Apache americano executa civis desarmados e dois funcionários da Reuters em Bagdá, enquanto os pilotos riem, é um libelo visual contra a alegada “guerra humanitária”. Vieram depois os Diários de Guerra do Afeganistão e do Iraque, com mais de 400 mil relatórios que detalharam execuções extrajudiciais, tortura e a morte de milhares de civis, e os Cabos Diplomáticos, que escancararam a diplomacia americana como uma teia de espionagem, chantagem e intervencionismo, inclusive contra aliados e a ONU.
A resposta do império foi imediata. A então Secretária de Estado, Hillary Clinton, cogitou assassinar Assange com um drone. Figuras proeminentes da direita americana pediam publicamente sua execução. O recado era claro: expor os crimes do estado profundo americano é um crime capital, uma nova forma de “pena de morte por editor”.
A Cronologia de uma Caçada Imperial: Da Embaixada a Belmarsh
O que se seguiu não foi um processo legal, mas uma operação de guerra jurídica e psicológica (lawfare) sem precedentes. Acusações de crimes sexuais na Suécia, arquivadas e reabertas de forma suspeita, serviram como o estopim para um cerco que durou mais de uma década. Em 2012, diante da iminente extradição para os EUA, onde um Grande Júri secretamente o havia indiciado, Assange pediu e obteve asilo político na Embaixada do Equador em Londres. O princípio era claro: ele não fugia de uma acusação de estupro, mas de uma armadilha que o levaria a uma masmorra americana.
Por 2.487 dias, Assange viveu confinado em um apartamento minúsculo no bairro de Knightsbridge, sem luz solar direta, com sua saúde se deteriorando rapidamente sob um regime de vigilância 24 horas por 7 dias. A empresa de segurança espanhola UC Global, contratada pela embaixada, estava a serviço da CIA. Documentos de tribunais espanhóis revelaram que as câmeras capturavam cada movimento, inclusive suas consultas com advogados – uma violação flagrante do direito de defesa –, e as informações eram repassadas diretamente à inteligência americana. Planejou-se até mesmo envenená-lo ou sequestrá-lo.
A farsa ruiu quando o governo de Lenín Moreno, alinhado a Washington, retirou o asilo e a cidadania equatoriana de Assange em abril de 2019. Numa cena medieval, ele foi arrastado para fora da embaixada por policiais britânicos, com o rosto envelhecido décadas. Seu destino, a partir dali, foi a prisão de segurança máxima de Belmarsh, conhecida como a “Guantánamo britânica”.
Ali, aguardando a extradição, o jornalista enfrentou o que a Relatoria Especial da ONU sobre Tortura classificou como “tortura psicológica”. O confinamento solitário prolongado, a negação de visitas, as condições degradantes e a perspectiva de uma sentença de 175 anos numa prisão americana o levaram a uma depressão profunda. Nesse período, sofreu um mini-AVC na corte. O mundo assistiu, impassível ou cúmplice, à destruição metódica de um homem por um único motivo: ele havia contado a verdade.
Como Assange Está Hoje: A Liberdade Vigiada e a Lenta Reconstrução
Foto: Justin TALLIS/AFP
Por: Wagner França
O dia 26 de junho de 2024 não foi apenas o fim de uma batalha judicial de 14 anos. Foi o retrato mais límpido e brutal da verdadeira face do poder imperial. Ao aterrissar em Canberra, na Austrália, um homem de 52 anos, de cabelos grisalhos e o andar trôpego de quem foi mantido em confinamento solitário por anos, ajoelhou-se no asfalto para beijar a terra. Aquele homem, Julian Assange, não era um terrorista, um espião ou um assassino. Seu crime foi ter ousado, por meio do jornalismo, revelar as vísceras do monstro. A cena de um homem destruído beijando o chão de sua pátria, após selar um pacto com o sistema que o perseguiu, é uma metáfora de uma vitória amarga, uma liberdade condicionada que serve como um alerta para jornalistas e editores em todo o mundo.
Quem é o Homem que o Império Tentou Silenciar?
Para entender a dimensão do caso, é preciso voltar ao cerne da questão. Julian Paul Assange, um hacker e programador australiano de mente brilhante e espírito anárquico, fundou em 2006 o WikiLeaks, uma plataforma que revolucionou a prática jornalística ao utilizar a criptografia para proteger fontes anônimas de denúncias. Sua filosofia era simples e devastadora para os poderes constituídos: a transparência radical como arma contra os abusos de governos e corporações.
Mas o que transformou Assange de um ativista da transparência em um inimigo de estado número um do Ocidente foram os vazamentos de 2010. Em parceria com veículos como The Guardian, The New York Times e Der Spiegel, o WikiLeaks publicou uma série de documentos militares e diplomáticos dos EUA que expuseram, sem retoques, a máquina de guerra imperial. Entre eles, o vídeo “Collateral Murder”, onde um helicóptero Apache americano executa civis desarmados e dois funcionários da Reuters em Bagdá, enquanto os pilotos riem, é um libelo visual contra a alegada “guerra humanitária”. Vieram depois os Diários de Guerra do Afeganistão e do Iraque, com mais de 400 mil relatórios que detalharam execuções extrajudiciais, tortura e a morte de milhares de civis, e os Cabos Diplomáticos, que escancararam a diplomacia americana como uma teia de espionagem, chantagem e intervencionismo, inclusive contra aliados e a ONU.
A resposta do império foi imediata. A então Secretária de Estado, Hillary Clinton, cogitou assassinar Assange com um drone. Figuras proeminentes da direita americana pediam publicamente sua execução. O recado era claro: expor os crimes do estado profundo americano é um crime capital, uma nova forma de “pena de morte por editor”.
A Cronologia de uma Caçada Imperial: Da Embaixada a Belmarsh
O que se seguiu não foi um processo legal, mas uma operação de guerra jurídica e psicológica (lawfare) sem precedentes. Acusações de crimes sexuais na Suécia, arquivadas e reabertas de forma suspeita, serviram como o estopim para um cerco que durou mais de uma década. Em 2012, diante da iminente extradição para os EUA, onde um Grande Júri secretamente o havia indiciado, Assange pediu e obteve asilo político na Embaixada do Equador em Londres. O princípio era claro: ele não fugia de uma acusação de estupro, mas de uma armadilha que o levaria a uma masmorra americana.
Por 2.487 dias, Assange viveu confinado em um apartamento minúsculo no bairro de Knightsbridge, sem luz solar direta, com sua saúde se deteriorando rapidamente sob um regime de vigilância 24 horas por 7 dias. A empresa de segurança espanhola UC Global, contratada pela embaixada, estava a serviço da CIA. Documentos de tribunais espanhóis revelaram que as câmeras capturavam cada movimento, inclusive suas consultas com advogados – uma violação flagrante do direito de defesa –, e as informações eram repassadas diretamente à inteligência americana. Planejou-se até mesmo envenená-lo ou sequestrá-lo.
A farsa ruiu quando o governo de Lenín Moreno, alinhado a Washington, retirou o asilo e a cidadania equatoriana de Assange em abril de 2019. Numa cena medieval, ele foi arrastado para fora da embaixada por policiais britânicos, com o rosto envelhecido décadas. Seu destino, a partir dali, foi a prisão de segurança máxima de Belmarsh, conhecida como a “Guantánamo britânica”.
Ali, aguardando a extradição, o jornalista enfrentou o que a Relatoria Especial da ONU sobre Tortura classificou como “tortura psicológica”. O confinamento solitário prolongado, a negação de visitas, as condições degradantes e a perspectiva de uma sentença de 175 anos numa prisão americana o levaram a uma depressão profunda. Nesse período, sofreu um mini-AVC na corte. O mundo assistiu, impassível ou cúmplice, à destruição metódica de um homem por um único motivo: ele havia contado a verdade.
Como Assange Está Hoje: A Liberdade Vigiada e a Lenta Reconstrução
Ao desembarcar na Austrália, após um acordo judicial em Saipan (território americano), Assange estava tecnicamente livre. A sentença de 62 meses de prisão foi considerada já cumprida. Mas a liberdade de Julian Assange é, na prática, uma longa e dolorosa convalescença sob o olhar atento do mundo e, sem dúvida, dos mesmos serviços de inteligência que o perseguiram.
Segundo sua esposa, Stella Assange, advogada de direitos humanos que o conheceu dentro da embaixada e com quem teve dois filhos em segredo, Julian não é o homem que entrou naquele prédio em 2012. As notícias mais recentes da imprensa australiana e britânica, nos meses finais de 2024 e início de 2026, pintam o quadro de um indivíduo em severo estado de fragilidade física e neurológica, necessitando de reabilitação intensiva. Ele precisa literalmente reaprender a viver em sociedade, a andar livremente em espaços abertos e a conviver com sua família sem as grades invisíveis do trauma. O Ministro da Justiça australiano, numa declaração que ecoa o cinismo dos cúmplices, apressou-se a dizer que Assange “não é um mártir”. Mas a sua condição atual – resultado direto da perseguição estatal – contradiz esse esforço vil de minimizar seu sacrifício.
O acordo judicial que o libertou é, em si, uma monstruosidade jurídica. Para sair da prisão, Assange foi forçado a se declarar culpado de uma única acusação de “conspiração para obter e divulgar informações de defesa nacional”, nos termos da Lei de Espionagem americana. Embora seus apoiadores celebrem sua liberdade, o movimento revolucionário e os defensores da liberdade de imprensa encaram este fato com calafrios. Pela primeira vez na história dos EUA, um editor e jornalista foi condenado criminalmente por publicar informações verdadeiras de interesse público. O precedente está criado. O império, com sua paciência estratégica, conseguiu o que queria: criminalizar o jornalismo de revelação. A liberdade de Assange custou a capitulação de um princípio fundamental.
Hoje, Julian Assange está em sua casa, na Austrália, longe dos holofotes, cercado pelo afeto de Stella e seus filhos Gabriel e Max, que por anos só conheceram o pai através de uma tela. Ele pede privacidade para se curar. Seu pai, John Shipton, e seu irmão, Gabriel Shipton, que lideraram uma incansável campanha global, agora atuam como seus guardiões, pedindo tempo e paciência para a recuperação de um homem que foi moído pelas engrenagens do poder.
A luta não acabou. Uma campanha por um indulto presidencial nos EUA, para limpar totalmente seu nome, ainda ecoa, embora pareça um apelo a um imperador sem clemência. Em sua primeira declaração pública após a libertação, no Conselho da Europa, Stella foi categórica: “A perseguição a Julian termina, mas o precedente que cria é uma ameaça permanente para todos vocês”.
O Legado Insubmisso
Assange está vivo e livre, e essa é uma derrota tática do imperialismo. Ele não foi morto numa cela, como pretendiam. Mas seu corpo e sua mente são o testemunho ambulante da brutalidade de um sistema que se diz democrático. Sua saga revela uma verdade revolucionária essencial: o Estado imperialista e suas redes de inteligência não toleram o jornalismo que não serve ao poder. Eles o esmagam, o isolam, o torturam e, se possível, o matam.
Enquanto Julian busca reconstruir as ruínas de sua psique sob o sol australiano, o mundo deve se lembrar de que a Guerra ao Terror não foi contra um método, mas contra a verdade. E que a liberdade de um homem, conquistada a um preço tão devastador, é um alerta. A sombra do império continua pairando sobre cada redação, cada fonte anônima, cada ato de coragem para revelar o que nos é escondido. A história não o absolveu apenas; ela o entronizou como o mártir vivo da era da informação sitiada. Cabe a nós não deixar seu alerta morrer no silêncio de uma sala de reabilitação.
