por Thomas de Toledo
Estava num barco navegando pelo sagrado lago Titicaca e subi no convés para pegar umas imagens. Um trio de pessoas loiras com sotaque nova-iorquino conversava em inglês entre si.
Como estava gravando, me perguntaram se eu era influencer. Disse que não, que sou apenas um professor tentando me adaptar aos novos tempos. A conversa foi ficando divertida até que fiz a besteira de perguntar o país deles, achando que diriam Estados Unidos.
Mas não. A resposta foi como um soco: Israel.
Eu sei que jovens naquela faixa etária são obrigados a prestar serviço militar. Tanto homens, quanto mulheres. Então sim, eram soldados israelenses curtindo as férias de um ano muito cansativo segundo eles. O que será que fizeram nesse tempo?
Não me aguentei e disse:
– Não existe Israel. Existem territórios palestinos ocupados por imigrantes estrangeiros.
Obviamente o clima pesou e uma das loiras perguntou o que eu acharia se dissessem que o Brasil não existe. Respondi:
– O Brasil é um fato. Israel é uma invenção.
Aí o machão estufou o peito e disse que eu teria que ir lá pra ver a verdade e não acreditar na versão do Hamas. Respondi:
– Já fui sim, senhor, e o que vi foram muros separando famílias dos palestinos, um regime de apartheid, roubo de terras, demolição de casas e destruição de bairros inteiros para criar assentamentos para estrangeiros morarem lá.
Antes que ele terminasse de dizer "this is antissemitism", já emendei:
– Judeus são bem vindos em todos os lugares, mas sionistas são os novos nazistas.
O loirão logo ficou vermelho com cara de camarão, mostrando sua genética de "povo eleito" do leste europeu migrado pros Estados Unidos e emigrado para Israel. Ele disse:
– Saia daqui, nós estávamos aqui antes de você, esse lugar é nosso.
Respondi:
– Até aqui vocês querem tomar pra vocês? Não saio, não! Aliás, espero que vocês não tenham matado crianças quando serviram no exército.
As duas loiras falaram: "no, i don't" e o loiro enfesado me perguntou se eu tinha como provar. Finalizei dizendo:
– Vocês sabem que é verdade, ninguém precisa provar o que vocês veem e participam. Por isso o mundo odeia Israel.
Fiquei um bom tempo filmando enquanto eles permaneceram em silêncio. Logo, comecei a conversar com um chileno que disse que os israelenses estão fazendo uma ofensiva pela América Latina, especialmente na Argentina, onde incendeiam áreas de preservação para comprarem terras abaixo do preço de mercado.
Dois casais colombianos entraram na conversa dizendo que Israel compra e vende armas pro país e tem presença nas decisões políticas.
Perguntei a um dos colombianos o que ele achou do governo Petro e ele disse que foi um governo excelente. Ele era uribista e tinha votado no outro candidato, mas se surpreendeu positivamente com o presidente de esquerda.
Na conversa, tanto os colombianos quanto o chileno disseram que seus países estão divididos, exatamente como aconteceu aqui no Peru. A diferença entre o eleito e o derrotado foi de muito pouco. Disse que o mesmo ocorre no Brasil. Depois, falamos sobre lugares para conhecer em cada país e a conversa ficou mais leve.
Os israelenses com sotaque nova-iorquino sempre que me viam, abaixavam a cabeça. Até que o barco aportou e cada grupo tomou seu rumo.
