Seleção Brasileira posa para foto oficial antes da partida contra a Escócia, na quarta-feira (24/6), pela Copa do Mundo
Crédito: Reuters
O avião da seleção voltou vazio. Estranho seria se voltasse cheio
por Alexandre Machado Rosa no Brasil 247
A notícia de que o avião da seleção brasileira retornou ao Brasil, após o fracasso na Copa do Mundo, transportando apenas dois jogadores, ganhou espaço nos noticiários esportivos. Confesso que estranhei a surpresa. Estranho seria se tivesse voltado com todos.
Afinal, para onde voltariam? A maioria dos jogadores vive na Europa. Suas casas, suas famílias, seus filhos e sua rotina estão do outro lado do Atlântico. Muitos sequer jogaram profissionalmente no Brasil por tempo suficiente para construir uma relação duradoura com os torcedores. Se olharmos com atenção, sequer atuaram pelos maiores clubes do país. Se resolvessem caminhar pelas ruas de uma grande cidade brasileira, talvez alguns pudessem até ser reconhecidos. Outros, provavelmente, passariam despercebidos.
Esse detalhe aparentemente banal ajuda a compreender uma transformação muito mais profunda: a seleção brasileira deixou de ser, há muito tempo, a seleção dos brasileiros. Tornou-se, na prática, o time da CBF.
edifício administrativo está localizado na Barra da Tijuca, na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, protegido por grades e seguranças.
Pouco a pouco, a seleção foi deixando de ser uma experiência compartilhada pela população brasileira para tornar-se uma marca internacional administrada por uma confederação privada. Esse processo também revela uma das características mais persistentes da formação política brasileira: o patrimonialismo.
Pensadores como Raymundo Faoro buscaram mostrar, como em Os Donos do Poder, como as elites brasileiras desenvolveram uma notável capacidade de tratar aquilo que pertence ao conjunto da sociedade como extensão de seus próprios interesses. A fronteira entre o público e o privado sempre foi uma linha quase inexistente no Brasil. O futebol não escapou dessa lógica.
A CBF exerce uma espécie de concessão informal sobre símbolos que pertencem à identidade nacional. Administra a camisa, o escudo, a memória e o imaginário do futebol brasileiro sem mecanismos efetivos de controle social, embora esses símbolos transcendam, em muito, a própria entidade.
Talvez isso explique por que o retorno da delegação tenha provocado tão pouca mobilização popular. Não houve multidões esperando no aeroporto para protestar. Não houve comoção nacional. Não houve sequer curiosidade em acompanhar a chegada da maior parte dos jogadores. O avião voltou praticamente vazio porque a seleção já não volta para casa, não pertence ao Brasil. Na verdade, ela saiu de casa há muito tempo.
O que desembarcou no Brasil foi apenas a delegação da CBF. A seleção brasileira, entendida como patrimônio afetivo, cultural e político do povo, vem sendo rapidamente substituída por uma marca global administrada segundo interesses privados pelos dirigentes da CBF. O fracasso desta Copa não foi dentro das quatro linhas.
Ele começou quando naturalizamos a ideia de que um dos mais poderosos símbolos da identidade nacional pudesse deixar de pertencer, simbolicamente, aos brasileiros para tornar-se patrimônio exclusivo de uma entidade privada.
É preciso refundar o futebol brasileiro. Reconectá-lo ao povo.
* Alexandre Machado Rosa, o autor, é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.
