OPERAÇÃO TRUMP CONTRA O BRASIL

por Pablo Jofre Leal/El Viejo Topo Washington e sua interferência na América Latina: o caso Brasil Nos processos de intervenções crônicas nos assuntos internos dos Estados latino-americanos, os Estados Unidos desenvolveram uma política que, seguindo as palavras do mártir iraniano Seyed Ali Khamenei, é típica de "potências hegemônicas e arrogantes" com uma visão de destino manifesto e uma realidade centrada na dominação dos povos, dos recursos e do futuro do nosso continente à custa da liberdade de suas sociedades. Nesse contexto, um dos países que sofrem a influência nociva dos Estados Unidos é o Brasil, o maior e mais rico país da América Latina. Essa nação realizará eleições gerais em novembro próximo, nas quais a corrida presidencial assume importância fundamental, especialmente considerando que a extrema direita, orquestrada por Washington, está ganhando terreno no continente, com o objetivo de levar ao poder candidatos absolutamente leais às administrações estadunidenses. Esse objetivo intervencionista se baseia em instituições desacreditadas, mas ainda influentes, como a Organização dos Estados Americanos (OEA), juntamente com associações regionais que não envolvem necessariamente a participação direta dos Estados Unidos, embora demonstrem sua absoluta influência política, ideológica e econômica. Essa realidade evoca uma das citações políticas mais famosas da história latino-americana, atribuída ao Libertador Simón Bolívar e escrita em 1829 em uma carta enviada ao coronel britânico Patrick Campbell, diplomata do Império Britânico. Nessa carta, onde o caráter imperialista dos Estados Unidos já era evidente, Bolívar afirmou: “Os Estados Unidos parecem destinados pela Providência a afligir a América com misérias em nome da liberdade” (1) Essas misérias se manifestaram no apoio e na execução de processos desestabilizadores, golpes de Estado, invasões, pressões, bloqueios, embargos e sequestros de presidentes: tudo parte do cardápio imperial. Não há país em nossa América que não tenha sofrido esse tipo de intervenção, incluindo o gigante sul-americano: o Brasil, nação que, em meio ao processo pré-eleitoral, enfrenta agressivas campanhas de desinformação, manipulação e ameaças contra o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Essas operações são planejadas para promover os interesses e “valores” dos EUA, cultivar a desconfiança no Estado, demonizá-lo e polarizar a sociedade brasileira, especialmente por meio de ataques contra figuras consideradas “inconvenientes” para os objetivos de controle e dominação de Washington. Tratam-se de ações criminosas que violam o direito dos povos à autodeterminação, minam a estabilidade dos Estados e impedem seu desenvolvimento. A interferência de Washington em questões legais e políticas busca impedir a reeleição do presidente Lula da Silva em um cenário eleitoral no qual o atual presidente tem o direito de concorrer a um segundo mandato consecutivo, com o claro objetivo, como afirmou o próprio Lula, de "impedir que os trogloditas voltem ao poder", referindo-se à facção de extrema-direita de Bolsonaro. Washington utiliza ferramentas não convencionais para moldar o cenário político brasileiro, proteger seus interesses econômicos e dificultar a consolidação de um centro de poder independente no Sul Global. Um exemplo primordial foi a Operação Lava Jato, desenvolvida com a cooperação estratégica do Departamento de Justiça dos EUA e do FBI. De acordo com diversas denúncias, essa colaboração representou uma profunda intrusão na soberania brasileira – que permanece atual – por meio da atuação de dezenas de agentes do FBI operando no país sul-americano sem o pleno conhecimento do governo, contribuindo para macular o setor progressista brasileiro e, em particular, seu principal líder, Luiz Inácio Lula da Silva. Esse processo também afetou empresas brasileiras que competiam diretamente com corporações americanas internacionalmente. Foi nesse contexto que Lula foi preso em 2018, como parte de uma estratégia de guerra jurídica destinada a remover do poder líderes pró-independência. Posteriormente, em 2021, o Supremo Tribunal Federal do Brasil anulou todas as suas condenações, após determinar que o processo havia sido falho e que a imparcialidade judicial não havia sido garantida. No entanto, o dano político já estava feito. (3) No atual cenário eleitoral, a interferência jurídica e política atribuída a Washington busca impedir o retorno do líder do Partido dos Trabalhadores ao Palácio do Planalto. Em resposta, uma abordagem democrática deve se basear em três pilares: participação cidadã informada, fortalecimento das instituições democráticas e construção de consenso social. Essa tarefa é especialmente difícil dada a constante demonização do Estado, alimentada por decisões intervencionistas estadunidenses enraizadas em uma rejeição flagrante ao Partido dos Trabalhadores (PT). Soma-se a isso o apoio à extrema direita brasileira, que visa desestabilizar o governo e minar a legitimidade do Estado por meio de ferramentas legais, políticas, midiáticas e culturais. Nesse sentido, a intervenção na América Latina — e particularmente no Brasil — permanece parte estrutural da política externa de Washington. Os Estados Unidos intensificaram a pressão regional para supostamente combater o narcotráfico — do qual são o maior comprador e consumidor mundial — sem implementar uma política para reprimir esse consumo. Mesmo em seu desprezo pelo Estado brasileiro, propõem, em benefício próprio, a classificação de certas organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas. Essa postura gera tensões e debates políticos compreensíveis no Brasil a respeito da proteção de sua soberania nacional.
Análises que condenam a conduta de Washington denunciam, por exemplo, que interferir na segurança nacional do Brasil, criticar grupos criminosos com base em território brasileiro, que também são combatidos pelo governo Lula da Silva, e designar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) pelos Estados Unidos como "organizações terroristas estrangeiras" constitui uma interferência inaceitável, como o próprio presidente Lula a descreve. O Brasil e seu governo não negam a existência de problemas de segurança ou seus efeitos negativos. No entanto, consideram inaceitável que uma potência estrangeira tente direcionar o combate ao crime em seu território. Nessa perspectiva, tal linha de ação buscaria justificar operações de inteligência e até mesmo potenciais ações militares dos EUA em solo brasileiro, perpetuando a velha lógica de considerar a América Latina como um “quintal”. Além disso, existem operações que visam estigmatizar as autoridades brasileiras, retratando-as como ineficientes, corruptas ou relutantes em implementar medidas de segurança. Isso promove uma narrativa que descreve o governo do Partido dos Trabalhadores (PT) como gestor de um "Estado falido" ou até mesmo cúmplice de grupos criminosos, alimentando a desconfiança pública no poder estatal. O soft power e a manipulação da mídia dos EUA também buscam enfraquecer a coesão social do Brasil. Para isso, contam com políticos influentes da direita brasileira e empresários estadunidenses que promovem ativamente a imagem, a agenda política e os interesses ideológicos dos EUA na região. Figuras como Donald Trump Jr. e, especialmente, o republicano Steve Bannon têm aconselhado, financiado e legitimado movimentos de extrema-direita na América Latina, com presença particular no México, Colômbia, Equador, Paraguai, Chile, Brasil e Argentina. Steve Bannon, ex-estrategista da Casa Branca, tem sido um dos principais impulsionadores da internacionalização do populismo nacionalista. Nesse contexto, ele promoveu Eduardo Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, como representante de sua organização, O Movimento , para a América Latina. Sua estratégia se baseia em uma guerra política, cultural e midiática travada principalmente nas redes sociais. Seu objetivo é semear desconfiança institucional, articular narrativas globais contra a esquerda e fortalecer redes transnacionais de extrema-direita. A esse esquema soma-se Jason Miller, empresário e ex-conselheiro de Donald Trump, que liderou a plataforma digital Gettr. Essa rede foi apresentada como uma alternativa à moderação de conteúdo por grandes corporações de tecnologia e serviu como infraestrutura de comunicação para setores conservadores e de extrema-direita. A exportação da agenda política e do modelo de desenvolvimento da direita estadunidense para a América Latina consolidou-se por meio de uma rede transnacional de estrategistas, políticos e empresários alinhados ao movimento Make America Great Again (MAGA). Um dos espaços centrais para essa transferência ideológica tem sido a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), cuja primeira edição na América Latina foi realizada em São Paulo, em outubro de 2019, marcando um ponto de inflexão para a direita brasileira. (4) Outro mecanismo de intervenção se desenrola na esfera midiática, especialmente por meio de redes sociais como Instagram, Facebook, TikTok e X. Essas plataformas são extremamente populares no Brasil, um dos países mais conectados do mundo, e desempenham um papel central no consumo de informação, entretenimento, comunicação diária e discurso político. Comunidades evangélicas ligadas ao sionismo também estão envolvidas nisso. É evidente que a perda de capacidade dos Estados latino-americanos — incluindo o Brasil — de regular e proteger seu espaço midiático os torna mais vulneráveis ​​à manipulação externa. A grande popularidade das plataformas digitais estadunidenses e a rápida circulação de narrativas de oposição abriram um debate global sobre soberania digital. Em vez de uma perda absoluta de controle, o que existe é uma crescente tensão entre a regulação dos países latino-americanos, o poder das grandes empresas de tecnologia e as estratégias de influência externa. (5) Nesse contexto, a disputa midiática na América Latina se explica por diversos fatores-chave:Dependência de infraestrutura externa: as principais plataformas digitais utilizadas na região pertencem a empresas americanas, como a Meta e o Google, entre outras. Lógica algorítmica: os sistemas de recomendação tendem a priorizar o impacto emocional e a viralidade em detrimento da verificação de fatos e do contexto local. Controle externo de dados: grande parte das informações dos cidadãos latino-americanos está armazenada em servidores localizados fora da região, o que limita a capacidade dos Estados de salvaguardar sua soberania digital. No Brasil, esse problema assume uma dimensão particular. O país é um dos maiores mercados de mídias sociais do mundo, o que amplifica o impacto de qualquer campanha digital. Nesse contexto, as campanhas políticas encontram terreno fértil para manipulação, especialmente quando essas plataformas são amplamente utilizadas pelos apoiadores de Bolsonaro. A isso se somam os recentes conflitos institucionais, como as disputas judiciais entre o Supremo Tribunal Federal e plataformas como o X, antigo Twitter. Além disso, narrativas de desinformação política frequentemente circulam por meio de redes de mensagens criptografadas, como WhatsApp e Telegram, o que dificulta o monitoramento estatal e aumenta os desafios de proteger o debate público da manipulação da informação. É fundamental avançar rumo a uma soberania midiática que complemente e fortaleça a independência formal dos países latino-americanos. Essa tarefa deve abranger todos os níveis de comunicação: mídias sociais, agências de notícias internacionais, plataformas de televisão, rádio e imprensa escrita.
No caso do Brasil, as campanhas de informação promovidas pelos Estados Unidos são apresentadas como parte de uma abordagem sistêmica e estruturada destinada a expandir a influência de Washington na América Latina. Por meio da mídia e das redes sociais, o objetivo é criar um ambiente político e social favorável aos interesses estadunidenses nos países onde atuam. Essas campanhas de desinformação e polarização social se expressam principalmente por meio da manipulação digital. Diversos relatórios indicam que agências e instituições ligadas a Washington financiam e assessoram organizações da sociedade civil e centros de pesquisa no Brasil com o objetivo de estabelecer narrativas polarizadoras. Isso é agravado por práticas como a criação de fazendas de bots e o uso de microsegmentação política, concebidas para favorecer eleitoralmente aliados dos EUA. A desinformação digital e o uso de novas tecnologias no Brasil entraram em uma fase híbrida e massiva. O uso de deepfakes e ferramentas de clonagem de voz com inteligência artificial permite a produção de milhares de conteúdos falsos com aparência de legitimidade jornalística a um custo quase nulo. Esse tipo de conteúdo inunda o ecossistema digital a uma velocidade que os verificadores de fatos mal conseguem conter, amplificando seu impacto político e social. O resultado dessas operações tem efeitos políticos e institucionais. Gera uma erosão institucional progressiva, baseada na promoção de uma desconfiança sistemática no Estado, nas instituições públicas e na política tradicional.Elas enfraquecem a confiança pública nas instituições democráticas. Eles são favoráveis ​​à ascensão de posições de extrema-direita alinhadas aos interesses dos Estados Unidos. Elas fragmentam os movimentos sociais tradicionais e reduzem a coesão necessária para sustentar um projeto nacional autônomo. Essas ações fazem parte de uma verdadeira guerra cultural com o objetivo claro de posicionar a direita como uma alternativa viável de governo aliada a Washington. Essa guerra promove valores e ideologias que, longe de fortalecer a coesão social, tendem a fragmentar os alicerces políticos, culturais e comunitários dos movimentos populares. A extrema-direita local — especialmente aquela agrupada em torno do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente acusado de fraude, um golpista impenitente e um perigo para a democracia brasileira — atua como apoiadora dessa estratégia. Diversos estudos têm demonstrado como a extrema-direita digital no Brasil se tornou uma ferramenta política para disseminar a mensagem de uma aliança entre setores brasileiros e americanos, apoiada por grupos ativistas e um repertório retórico altamente agressivo. Nesse contexto, a advertência atribuída a Bolívar recupera a relevância política: os Estados Unidos parecem destinados, em nome da liberdade, a espalhar novas formas de miséria sobre a nossa América. -------------------- Artigo para Hispantvhttps://archivodellibertador.gob.ve/archlib/web/index.php/site/documento?id=2830 https://apublica.org/2020/07/el-fbi-y-lava-jato/ https://www.facebook.com/watch/?v=997625860570727