Tarifa de 25% amplia pressão comercial sobre o Brasil, enquanto governo Lula negocia e busca novos mercados
por José Reinaldo no Brasil 247
A tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos a determinados produtos brasileiros passou a valer à 1h01 desta quarta-feira (22), ampliando a pressão comercial sobre o Brasil. Diante da nova cobrança, o governo Lula pretende manter as negociações com Washington, apoiar os setores afetados e acelerar a abertura de mercados, sem recorrer de imediato a medidas de reciprocidade.
A sobretaxa foi formalizada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) na sexta-feira (17). A decisão decorre de uma investigação conduzida pelo órgão norte-americano sobre políticas brasileiras consideradas prejudiciais às empresas dos EUA.
A alíquota incide sobre uma parcela dos produtos exportados pelo Brasil, embora a relação completa das mercadorias atingidas não tenha sido detalhada nas informações divulgadas. O novo encargo se soma ao ambiente de tensão aberto pelo primeiro tarifaço anunciado pelo presidente Donald Trump, que estabeleceu uma cobrança de 50% em julho de 2025.
No início de junho, o USTR já havia proposto a tarifa adicional de 25% com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos. O dispositivo permite ao governo norte-americano investigar práticas estrangeiras classificadas como injustas e adotar sanções comerciais em resposta.
Após realizar audiências públicas, nas quais representantes da sociedade civil se manifestaram contra a medida, o órgão concluiu que determinadas políticas brasileiras provocariam insegurança jurídica e condições desfavoráveis aos agentes econômicos norte-americanos.
A investigação abrangeu temas como comércio digital, tarifas preferenciais, mecanismos de combate à corrupção, processamento de patentes, pirataria, mercado de etanol e ações contra o desmatamento ilegal. Esses pontos foram usados pelo USTR para justificar a imposição da nova alíquota.
Negociações enfrentam impasse
O processo de negociação foi marcado por acusações dos dois lados, aponta reportagem da CNN. Representantes dos Estados Unidos questionaram o nível de participação do Brasil nas tratativas, enquanto negociadores brasileiros classificaram as exigências apresentadas por Washington como “muito ruim e desvantajosa” para a indústria e a agricultura nacionais.
Segundo os relatos, parte das conversas também ficou paralisada porque o governo norte-americano não teria esclarecido de maneira suficiente quais mudanças esperava do Brasil.
Ao reagir à decisão, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que 15 de julho “passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável”. Na ocasião, o Palácio do Planalto também sinalizou que poderia acionar os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica.
Apesar da declaração inicial, o Executivo passou a adotar um discurso mais cauteloso. A estratégia definida até agora combina a continuidade das negociações, o diálogo com empresas e entidades produtivas, a procura por compradores em outros países e a preparação de uma resposta fundamentada em critérios técnicos.
Governo promete apoio aos setores atingidos
O vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Marcio Elias Rosa, reforçaram na terça-feira (21) que o Brasil permanecerá na mesa de negociação. Paralelamente, o governo trabalha em medidas destinadas a reduzir os prejuízos dos exportadores atingidos.
“Continuar negociando, essa é a orientação. E, mais do que isso, continuar dialogando internamente com o setor produtivo, de modo a assimilar essa decisão do governo norte-americano, que não deixa de ser injusta, indevida, descabida”, afirmou Elias Rosa.
O ministro disse ainda que a manutenção do diálogo não impedirá o Executivo de prestar auxílio aos segmentos prejudicados e de atuar para tentar reverter a medida.
“Mas o fato de ser injusta, descabida, indevida, não significa que o governo brasileiro não vá adotar todas as medidas para, primeiro, socorrer quem precisa do governo brasileiro, ao mesmo tempo, tentar reverter a decisão”, declarou.
A diversificação dos destinos das exportações aparece entre as alternativas analisadas. A intenção é diminuir a dependência do mercado norte-americano para os produtos alcançados pela tarifa e preservar a atividade das empresas que podem perder competitividade nos Estados Unidos.
Lula pede cautela sobre reciprocidade
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, havia avaliado como provável a retomada dos procedimentos relacionados à Lei da Reciprocidade caso a tarifa entrasse efetivamente em vigor. Ele também declarou que “o país vai se proteger, vai se fazer respeitar”.
“A reciprocidade é: ‘Olha, nós estamos sendo injustiçados e nós queremos corrigir isso’. Nós temos instrumentos para fazê-lo, no momento oportuno, da forma adequada”, declarou.
A entrada em vigor da alíquota abre uma nova etapa da disputa comercial. Enquanto avalia os efeitos sobre a indústria e o agronegócio, o governo brasileiro tenta preservar os canais diplomáticos com Washington e preparar medidas de proteção aos exportadores sem alimentar uma sequência de retaliações.
foto acima: Lula – Donald Trump
Crédito: Ricardo Stuckert / PR / REUTERS/Nathan Howard
