Como já era esperado, Donald Trump intensifica seus ataques ao Brasil na tentativa de favorecer seu fantoche aliado ideológico. A cada novo episódio, a disputa diplomática ganha contornos mais agressivos e transforma uma divergência política em um conflito entre governos.
A decisão de revogar o visto da embaixadora brasileira representa mais um degrau nessa escalada. A justificativa apresentada por Washington soa desproporcional diante do contexto. A demora do Brasil em conceder o agrément ao indicado americano, Daniel Perez, não configura ilegalidade nem rompe qualquer protocolo diplomático. Pelo contrário: trata-se de um procedimento soberano, sem prazo obrigatório para conclusão. Além disso, os Estados Unidos mantêm o cargo de embaixador em Brasília vago desde 2025 e somente indicaram um nome às vésperas das eleições brasileiras, rompendo inclusive com a prática tradicional de consultar previamente o país anfitrião antes do anúncio público da indicação.
Também pesa sobre esse cenário o desgaste provocado por episódios recentes envolvendo diplomatas americanos e pelas preocupações do governo brasileiro com possíveis interferências externas em um ano eleitoral. Nesse ambiente, é compreensível que Brasília adote cautela antes de dar o aval definitivo ao novo embaixador.
Ao mesmo tempo, Trump conta com o apoio do presidente argentino Javier Milei, que voltou a atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com declarações ofensivas. A reação brasileira foi elevar o tom diplomático, convocando seu embaixador em Buenos Aires e manifestando oficialmente repúdio às declarações do mandatário argentino.
Na minha avaliação, porém, toda essa guerra diplomática dificilmente alterará o cenário eleitoral brasileiro. A maior parte do eleitorado já consolidou sua escolha, e o contingente de indecisos tende a observar muito mais a situação econômica, o emprego, a renda e o custo de vida do que os embates entre Brasília, Washington e Buenos Aires.
Isso significa que a economia está imune? Evidentemente não. O governo tem fôlego para segurar qualquer turbulência econômica que acontecer até outubro. Uma escalada nas tensões entre dois importantes parceiros comerciais pode gerar incertezas e produzir impactos de curto prazo. Ainda assim, em período eleitoral, governos costumam lançar mão de instrumentos econômicos e fiscais para reduzir turbulências e evitar que elas contaminem o ambiente interno.
Quando as urnas finalmente falarem, seja qual for o vencedor, a realidade da diplomacia provavelmente voltará a se impor. Brasil e Estados Unidos têm interesses econômicos, comerciais e estratégicos grandes demais para permanecer indefinidamente em um ciclo de confrontos. As cartas serão embaralhadas novamente, porque governos passam, mas as relações entre Estados permanecem.
