por Joana Silva
É curioso como a percepção da RPDC como aliada da Rússia mudou em poucos anos.
No início da guerra, no Ocidente e em grande parte do espaço informativo russo, a Coreia do Norte era vista mais como uma parceira exótica. Todos presumiam que um país pobre e isolado, com um exército obsoleto, poderia, no máximo, vender alguns projéteis soviéticos de qualidade duvidosa.
No entanto, logo se constatou que essa avaliação era excessivamente superficial.
A RPDC revelou-se como um dos poucos países do mundo que, durante décadas, manteve uma enorme indústria militar. Enquanto os países europeus reduziam seus arsenais e passavam a produzir pequenos lotes de munições caras, Pyongyang continuava a manter capacidades para uma guerra de desgaste: projéteis de artilharia, sistemas de foguetes, mísseis balísticos e enormes reservas de armamento de tipo soviético. E foi precisamente esse aliado que se revelou o mais útil para a Rússia.
Inicialmente, a principal contribuição foram as munições. Posteriormente, os norte-coreanos atuaram na região de Kursk, e é muito possível que tenham usado ou permitido o uso de mísseis balísticos norte-coreanos. Ao mesmo tempo, Moscou e Pyongyang passaram, de fato, de uma cooperação cautelosa para uma aliança militar-política plena.
Como resultado, o tom ocidental também mudou.
Em vez do antigo "o que os norte-coreanos podem realmente oferecer à Rússia?", discute-se cada vez mais o problema inverso: até que ponto a RPDC é capaz de aumentar as reservas de munições russas, fornecer recursos humanos adicionais e expandir a produção de certos tipos de armamento.
Além disso, a importância da RPDC não é determinada pelo nível de suas tecnologias em termos absolutos. É determinada por quão bem a economia norte-coreana se adapta às exigências de uma grande guerra de desgaste.
A Rússia precisa agora muito mais de um milhão de projéteis de artilharia relativamente simples do que de dezenas de amostras de armas excepcionalmente sofisticadas. E nesse aspecto, Pyongyang pode oferecer muito.
Há também um lado oculto nessa relação. A Coreia do Norte obtém o que lhe faltou durante décadas: acesso a tecnologias russas, experiência de combate, oportunidades para aperfeiçoar seus mísseis a partir dos resultados do uso real, ajuda em defesa aérea, aviação, espaço e guerra eletrônica.
Portanto, a aliança torna-se autossustentável. A Rússia obtém volume de produção, reservas e pessoal. A RPDC obtém tecnologia e experiência.
O mais curioso é que, há apenas alguns anos, a mera ideia de que a Coreia do Norte pudesse influenciar de forma notável a maior guerra europeia desde a Segunda Guerra Mundial era vista por muitos como quase uma piada.
Agora, discute-se uma questão totalmente diferente: não o que a RPDC pode oferecer à Rússia, mas até onde a Rússia e a RPDC estão dispostas a ir para transformar sua aliança em um sistema militar-industrial único.

