CARLOS LAMARCA: O CAPITÃO DO EXÉRCITO QUE ABANDONOU A FARDA PARA PEGAR EM ARMAS CONTRA A DITADURA

Mistérios no mundo 🇧🇷 Carlos Lamarca (1937–1971) talvez seja um dos personagens mais controversos da história da luta armada brasileira. Capitão do Exército, excelente atirador, pai de família e oficial formado pela Academia Militar das Agulhas Negras, Lamarca tomou uma decisão que mudaria completamente sua vida: abandonou a carreira militar, entrou na clandestinidade e tornou-se um dos principais comandantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização que defendia a luta armada contra o regime militar. Para seus admiradores, tornou-se símbolo da resistência à ditadura. Para o regime militar, foi um desertor e guerrilheiro procurado em todo o país. Sua trajetória, porém, é muito mais complexa do que essas duas definições. 📜 A ORIGEM DE CARLOS LAMARCA Carlos Lamarca nasceu em 27 de outubro de 1937, no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro. Era filho do sapateiro Antônio Lamarca e de Gertrudes da Conceição Lamarca. Passou parte da infância e adolescência no Morro de São Carlos, convivendo com uma realidade social muito diferente daquela encontrada nos círculos militares que frequentaria posteriormente. Ainda adolescente, participou de manifestações da campanha nacionalista “O Petróleo é Nosso”, movimento que defendia o controle brasileiro sobre os recursos petrolíferos. Em 1955, ingressou na Escola Preparatória de Cadetes de Porto Alegre. Dois anos depois, entrou na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende, no Rio de Janeiro. Em 1960, tornou-se aspirante a oficial. A partir daí, começaria sua carreira no Exército Brasileiro. 🎖️ UM OFICIAL DO EXÉRCITO Lamarca serviu no 4º Regimento de Infantaria, em Quitaúna, Osasco, São Paulo. Era considerado um excelente atirador e destacou-se tecnicamente dentro da instituição. Em 1962, participou do contingente brasileiro das Forças de Paz da ONU no Oriente Médio, na região de Gaza, durante a missão relacionada à crise de Suez. A experiência no exterior teria importância significativa em sua formação política. Ao entrar em contato com a pobreza e as desigualdades sociais observadas no Oriente Médio, Lamarca passou a desenvolver uma visão cada vez mais crítica da realidade social. Também começou a se aproximar de ideias socialistas e de literatura marxista. Em 1967, foi promovido a capitão. Poucos anos antes, porém, o Brasil havia atravessado uma ruptura que mudaria sua trajetória. ⚠️ 1964: O GOLPE MILITAR Em 31 de março e 1º de abril de 1964, o presidente João Goulart foi deposto e iniciou-se o regime militar. Lamarca permaneceu inicialmente no Exército. Mas, com o endurecimento político do regime e especialmente após a decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em dezembro de 1968, suas posições políticas tornaram-se cada vez mais incompatíveis com a instituição à qual pertencia. Ele passou a manter contatos clandestinos com setores da esquerda que defendiam a luta armada. E então veio a ruptura definitiva. 💥 24 DE JANEIRO DE 1969: A FUGA DE QUITAÚNA Em janeiro de 1969, Lamarca liderou um grupo de militares que desertou do 4º Regimento de Infantaria de Quitaúna. Na fuga, foram retirados do quartel 63 fuzis e metralhadoras leves, além de munição, destinados à organização clandestina. A operação transformou o capitão do Exército em um dos homens mais procurados pelos órgãos de segurança. Lamarca passou à clandestinidade e ingressou na Vanguarda Popular Revolucionária — VPR. A partir daquele momento, deixou de ser apenas um opositor do regime. Passou a fazer parte da luta armada. 🔴 A VPR E A GUERRILHA URBANA A VPR defendia a derrubada do regime militar por meio da luta armada e da construção de uma revolução socialista. Lamarca participou da estruturação militar da organização e de diversas ações clandestinas. Entre elas estavam assaltos a bancos destinados à obtenção de recursos para a organização. A trajetória de Lamarca também se cruzou com outras organizações revolucionárias. A VPR chegou a se fundir com o COLINA, formando a VAR-Palmares, mas divergências internas levaram posteriormente à reorganização da VPR. Enquanto isso, a repressão aumentava. O antigo capitão transformara-se em um dos principais alvos dos órgãos de segurança. ⛰️ O VALE DO RIBEIRA Em 1970, Lamarca decidiu colocar em prática uma estratégia diferente: estabelecer um núcleo de treinamento guerrilheiro no Vale do Ribeira, no sul de São Paulo. Um pequeno grupo de militantes instalou-se na região. O objetivo era preparar combatentes e criar condições para uma guerrilha rural. Mas os órgãos de segurança descobriram o local. O Exército e a Polícia Militar organizaram uma grande operação de cerco. Foram 41 dias de perseguição e confrontos. Apesar da superioridade numérica das forças de segurança, Lamarca e seus companheiros conseguiram escapar e retornar à clandestinidade. ⚔️ O CASO ALBERTO MENDES JÚNIOR O episódio do Vale do Ribeira também envolveu um dos acontecimentos mais controversos ligados à trajetória de Lamarca. O então tenente da Polícia Militar paulista Alberto Mendes Júnior foi capturado durante os confrontos. Segundo os registros oficiais posteriormente utilizados pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, ele foi morto pelos guerrilheiros e seu corpo foi posteriormente localizado enterrado na região. O episódio transformou Alberto Mendes Júnior em símbolo para a Polícia Militar de São Paulo. Sua morte precisa ser mencionada quando se analisa historicamente a atuação de Lamarca e da VPR, porque demonstra que a luta armada não envolveu apenas confrontos entre organizações políticas e o Estado: também produziu mortes entre os próprios combatentes. 🇨🇭 O SEQUESTRO DO EMBAIXADOR SUÍÇO Em dezembro de 1970, Lamarca participou de uma das operações mais conhecidas da guerrilha urbana brasileira: o sequestro do embaixador da Suíça no Brasil, Giovanni Enrico Bucher. A ação foi utilizada para pressionar o governo militar pela libertação de presos políticos. O sequestro terminou com a libertação do diplomata e a saída de 70 presos políticos do país. A operação demonstrou a capacidade que as organizações armadas ainda possuíam naquele momento. Mas também provocou uma resposta cada vez mais intensa dos órgãos de repressão. 🏜️ A FUGA PARA A BAHIA Com a repressão aumentando e a VPR sofrendo sucessivas perdas, Lamarca deixou o eixo Rio-São Paulo e deslocou-se para a Bahia. Ali passou a viver clandestinamente ao lado de José Campos Barreto, o Zequinha, militante ligado à luta armada e posteriormente seu companheiro na fuga. Mas os órgãos de segurança estavam cada vez mais próximos. A perseguição chegaria ao interior do sertão baiano. ⚫ A OPERAÇÃO PAJUSSARA Em agosto de 1971, após a morte de Iara Iavelberg, companheira de Lamarca, os órgãos de repressão intensificaram a busca pelo guerrilheiro. Uma grande operação foi organizada na Bahia. Documentos posteriormente analisados pela Comissão Nacional da Verdade registram a existência de relatórios da chamada Operação Pajussara, produzidos pelos órgãos de segurança, descrevendo a perseguição que terminou com a morte de Lamarca e Zequinha. Lamarca e Zequinha passaram a percorrer longas distâncias pelo sertão, tentando escapar do cerco. A situação dos dois era extremamente precária. Até que, em setembro, foram localizados. 💀 17 DE SETEMBRO DE 1971 Carlos Lamarca foi morto em 17 de setembro de 1971, no interior da Bahia. Tinha apenas 33 anos. Ao seu lado estava José Campos Barreto, o Zequinha, também morto na operação. Durante décadas, a versão oficial sustentou que ambos haviam morrido em confronto com as forças de segurança. Mas essa narrativa foi posteriormente contestada e revista pelos trabalhos da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. A ficha oficial de Lamarca mantida pelo Ministério dos Direitos Humanos registra que ele foi executado sem condições de oferecer resistência à prisão. A documentação da Comissão Nacional da Verdade também registra que a Operação Pajussara localizou e matou Lamarca e Zequinha. 📂 O QUE OS ARQUIVOS REVELARAM? A história de Carlos Lamarca não pode ser contada apenas pelas versões produzidas durante a ditadura. Depois da redemocratização, documentos dos próprios órgãos de segurança foram reunidos, analisados e confrontados com depoimentos e outras evidências. A Lei nº 9.140/1995 criou a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, responsável por investigar mortes e desaparecimentos relacionados à repressão política. O acervo produzido pela Comissão foi posteriormente recolhido ao Arquivo Nacional e permanece disponível para pesquisa. Esse processo foi fundamental para revisar episódios como a morte de Lamarca. 🎭 HERÓI OU TRAIDOR? Talvez essa seja a pergunta mais difícil — e também a menos útil — quando estudamos Carlos Lamarca. Para o regime militar, ele foi um desertor e inimigo armado do Estado. Para setores da esquerda, tornou-se um símbolo da resistência à ditadura. Historicamente, porém, ele foi as duas coisas em dimensões diferentes: ➡️ oficial do Exército; ➡️ capitão; ➡️ pai de família; ➡️ militante revolucionário; ➡️ desertor; ➡️ dirigente da VPR; ➡️ participante da luta armada; ➡️ comandante de ações clandestinas; ➡️ perseguido pelos órgãos de repressão; ➡️ morto durante a perseguição no sertão baiano. Sua trajetória mostra uma das maiores contradições do período: um homem formado pelo próprio Exército Brasileiro acabou utilizando o conhecimento militar adquirido na instituição para combatê-la. 📌 O LEGADO DE CARLOS LAMARCA Lamarca tornou-se uma das figuras mais conhecidas da luta armada brasileira. Sua imagem passou a representar, para muitos, a ruptura radical com o regime militar. Mas sua história também envolve ações armadas, assaltos, sequestros, mortes e decisões políticas que continuam sendo objeto de intenso debate. Por isso, estudar Lamarca exige equilíbrio. Não é necessário transformá-lo em herói. Também não é correto apagar o contexto da repressão política e das graves violações de direitos humanos praticadas pelo Estado durante a ditadura. 📚 A história fica mais completa quando todas essas dimensões são colocadas diante dos documentos. Carlos Lamarca morreu aos 33 anos. Mas sua trajetória permanece como uma das histórias mais controversas da política brasileira do século XX. 🔥 E agora queremos saber sua opinião: Carlos Lamarca deve ser lembrado principalmente como um militar que rompeu com o regime e aderiu à resistência armada, como um guerrilheiro responsável por ações violentas, ou como um personagem histórico que precisa ser analisado considerando as duas dimensões? 👇 Comente sua opinião. 📌 Siga a página Mistérios No Mundo para acompanhar a nossa série sobre os personagens mais controversos da história política brasileira e mundial.