FALTA PÃO NA ARGENTINA

O pão, um dos alimentos mais básicos e tradicionais da mesa argentina, também passou a refletir a perda de poder de compra das famílias. Representantes do setor de panificação afirmam que as vendas estão cerca de 60% abaixo dos níveis registrados no fim de 2023, enquanto produtos como facturas, bolos e itens de confeitaria acumulam quedas que podem chegar a 80% ou 85%. Martín Pinto, secretário-geral da Câmara de Industriais Panadeiros da Província de Buenos Aires, afirma que aproximadamente 3 mil padarias fecharam nos últimos dois anos e cerca de 17 mil empregos foram perdidos. Os números são estimativas das entidades empresariais do setor, e não estatísticas oficiais do governo argentino. A mudança também aparece no balcão. Segundo os panadeiros, consumidores que antes compravam um quilo de pão agora chegam dizendo quanto dinheiro podem gastar e levam apenas a quantidade correspondente. Há relatos de clientes comprando duas ou quatro unidades por vez, priorizando o necessário para aquela refeição. Com menos vendas e custos elevados de aluguel, energia, gás e matérias-primas, parte dos estabelecimentos formais deixou de conseguir manter as portas abertas. E foi justamente nesse cenário que começou a crescer um fenômeno chamado na Argentina de “cuevas de pan”, algo como “tocas do pão”. São antigos padeiros ou pequenos comerciantes que fecharam seus estabelecimentos, mas continuam produzindo pão dentro de casas, garagens ou cozinhas improvisadas e vendendo diretamente para vizinhos, muitas vezes fora do circuito formal. Para algumas famílias, tornou-se uma alternativa para continuar trabalhando e obter renda; ao mesmo tempo, o crescimento dessa produção informal levanta questões sobre fiscalização e condições sanitárias. As padarias que permanecem abertas também procuram maneiras de sobreviver. Algumas reduziram a variedade de produtos, passaram a produzir determinados itens apenas por encomenda ou incorporaram cafeterias e entregas para tentar compensar a queda nas vendas.