Hardt é afastada pelo CNJ após ter processado o Blog do Esmael por usar a palavra “processo”

Esta é a juíza Gabriela Hardt. FOTO: Gil Ferreira/ agência CNJ por Esmael Morais em seu blog A juíza federal Gabriela Hardt, substituta de Sergio Moro na 13ª Vara Federal de Curitiba durante a Operação Lava Jato, foi afastada nesta terça-feira, 4 de agosto de 2026, pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A pena aplicada foi a de disponibilidade por dois anos, a segunda sanção mais severa prevista na Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman), com vencimentos proporcionais ao tempo de serviço e proibição de exercer qualquer outra atividade remunerada, inclusive advocacia. O julgamento reabre, para a magistrada, uma disputa que ela própria travou contra o Blog do Esmael em 2019 por uma única palavra. Uma execução para calar o blog Em 1º de agosto de 2019, o Blog do Esmael publicou que o CNJ havia aberto um “processo” contra Hardt. A magistrada contestou judicialmente a informação, alegando que se tratava de “meros procedimentos administrativos” e não de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) formalizado. A Justiça do Paraná deu ganho de causa a Hardt por essa distinção terminológica, condenando o blog por dano moral. Quatro anos depois, em maio de 2023, a disputa terminológica virou ofensiva financeira. Hardt requereu a penhora da monetização do Google vinculada ao Blog do Esmael para executar a indenização, medida que colocou em risco a viabilidade econômica do veículo. A deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR) chegou a denunciar publicamente a tentativa de silenciamento do jornalista Esmael Morais, e o então presidente estadual do PT, deputado Arilson Chiorato, classificou o episódio como ameaça à liberdade de imprensa. O PAD que a atingiu de verdade A apuração que hoje tira Hardt da magistratura foi aberta pelo CNJ em 2024, depois que a Corregedoria Nacional de Justiça identificou irregularidades na homologação, em 2019, de um acordo entre a força-tarefa da Lava Jato, o Ministério Público Federal e autoridades dos Estados Unidos. O acerto previa a criação de uma fundação privada para administrar recursos de multas aplicadas a empresas condenadas na operação, que poderiam somar cerca de R$ 2 bilhões, sob gestão dos próprios integrantes da força-tarefa. O conselheiro Rodrigo Badaró, relator do processo, defendeu a disponibilidade por dois anos e foi acompanhado por seis votos, incluindo o do corregedor nacional, ministro Mauro Campbell. Outros três conselheiros, Jaceguara Dantas da Silva, Paulo Regis Machado Botelho e Fabio Francisco Esteves, divergiram apenas quanto à duração, defendendo um ano de afastamento. O presidente do CNJ, ministro Edson Fachin, seguiu essa segunda posição, mas deixou clara a gravidade da conduta ao afirmar que “não se combate irregularidade cometendo irregularidade”. Com isso, a maioria pelo afastamento ficou formada independentemente do prazo final. Hardt, hoje juíza substituta na 23ª Vara Federal de Curitiba, deixa o cargo por dois anos num momento eleitoralmente sensível: Sergio Moro (PL) disputa o Governo do Paraná tendo a Lava Jato como principal ativo político de campanha. A punição de quem foi sua substituta direta na 13ª Vara reabre o debate sobre os métodos da força-tarefa justamente às vésperas do primeiro turno, em 4 de outubro de 2026. A ironia do caso está na inversão de papéis. A magistrada que usou o rigor da forma para punir o blog por chamar de “processo” uma apuração que, segundo ela, era mero “procedimento”, termina afastada por um Processo Administrativo Disciplinar incontestável, aberto, tramitado e julgado dentro do rito que ela própria cobrou da imprensa.