Hugo Motta apoia Lula e enfraquece Flávio e Moro no Paraná

Este é Hugo Motta, presidente da Câmara. Foto: Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados por Esmael Morais em seu blog O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), declarou apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na segunda-feira (10), seis dias depois de o Republicanos aprovar neutralidade na eleição presidencial. A decisão impede Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de contar com uma aliança nacional formal da legenda e tem efeito imediato no Paraná, onde o Republicanos integra o palanque de Sandro Alex (PSD) e Alexandre Curi (Republicanos), no grupo político do governador Ratinho Junior (PSD). Motta disse que aguardava a definição nacional do partido para anunciar sua posição. Com a neutralidade aprovada, afirmou que o Republicanos da Paraíba caminhará com Lula, em sintonia com a direção estadual e com a estratégia eleitoral local. A convenção nacional do Republicanos, realizada em 4 de agosto, decidiu liberar diretórios e filiados para escolherem seus candidatos à Presidência. Segundo o presidente nacional da legenda, Marcos Pereira (SP), 17 diretórios defenderam a neutralidade, nove se posicionaram pela aliança nacional com o PL e apenas um declarou preferência por Lula. A decisão representa um revés para Flávio Bolsonaro, que buscava transformar o Republicanos em uma das principais pontes entre o PL e o centro político. Antes da convenção, Tarcísio de Freitas (Republicanos) dizia que trabalharia pelo apoio da legenda ao senador, enquanto Marcos Pereira condicionava uma eventual aliança a acordos estaduais favoráveis ao Republicanos. A negociação não avançou. O Republicanos preferiu preservar sua autonomia nacional e suas alianças nos Estados, estratégia que reduz a possibilidade de Flávio formar uma frente partidária ampla no primeiro turno. Republicanos preserva palanque de Ratinho Junior no Paraná No Paraná, a neutralidade nacional tem uma consequência própria. O Republicanos permanece associado ao projeto de sucessão de Ratinho Junior, com Sandro Alex na disputa pelo governo e Alexandre Curi na corrida ao Senado. A convenção do PSD consolidou Sandro Alex como candidato ao Palácio Iguaçu e Alexandre Curi como candidato ao Senado. O movimento preservou a participação do Republicanos na coalizão que sustenta o projeto político de continuidade do governador. A estrutura partidária é um dos principais ativos de Sandro Alex. Em análise sobre as convenções, Murilo Hidalgo destacou que Ratinho Junior conseguiu reunir em torno do sucessor uma estrutura política ampla, praticamente repetindo a coalizão que o sustentou em 2022, com exceção do PL, que lançou candidatura própria. O Republicanos, portanto, não precisa escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro para continuar aliado ao grupo de Ratinho Junior. A neutralidade nacional permite ao partido manter a composição estadual e, ao mesmo tempo, deixar suas lideranças livres para assumir posições diferentes na disputa presidencial. É o que acontece na Paraíba. Hugo Motta está com Lula, enquanto o Republicanos paranaense permanece na aliança de Sandro Alex e Alexandre Curi. A divisão também alcança São Paulo. Tarcísio de Freitas tentou levar o partido para o palanque de Flávio, mas a direção nacional optou pela neutralidade. A mesma legenda, portanto, abriga estratégias presidenciais distintas conforme o Estado. Esse desenho enfraquece a pretensão de Flávio Bolsonaro de transformar o campo da direita em uma frente partidária nacional. O Republicanos continua disponível para alianças estaduais, mas não entrega sua estrutura nacional ao candidato do PL. Neutralidade também atinge Sergio Moro no Paraná O efeito chega a Sergio Moro (PL) porque o ex-juiz da Lava Jato apostou na conexão com o bolsonarismo para disputar o Palácio Iguaçu. A estratégia aproxima sua candidatura estadual de Flávio Bolsonaro e, por consequência, depende da capacidade do PL de ampliar sua coalizão para além da estrutura própria. O Republicanos não acompanhou esse movimento. Ao permanecer no grupo de Ratinho Junior, a legenda reforça Sandro Alex e Alexandre Curi e deixa Moro sem o partido que poderia ampliar seu palanque paranaense. Murilo Hidalgo também apontou essa diferença ao avaliar a disputa. Segundo o analista, Ratinho Junior entregou a Sandro Alex uma estrutura política ampla, enquanto Moro aposta principalmente no próprio nome e numa coligação menor. Essa estrutura tem importância porque a eleição estadual não acontece isolada da disputa presidencial. Os mesmos partidos precisam montar palanques para governador, dois senadores, deputado federal e deputado estadual, distribuindo recursos, tempo de propaganda e capacidade de mobilização. Moro esperava que a força de Flávio Bolsonaro ajudasse a ampliar esse campo no Paraná. A neutralidade do Republicanos impede que essa aproximação produza automaticamente uma aliança partidária estadual. O resultado é uma divisão mais nítida da direita paranaense. Sandro Alex disputa como candidato do grupo de Ratinho Junior, com uma coalizão ampla; Moro apresenta uma candidatura própria do PL, vinculada ao eleitorado bolsonarista. O próprio material de análise eleitoral do Blog aponta que a grande vantagem de Sandro Alex após as convenções foi a estrutura política entregue por Ratinho Junior, enquanto Moro permaneceu com uma coalizão menor. A neutralidade do Republicanos, nesse contexto, não é apenas uma decisão sobre a eleição presidencial. Ela preserva uma engrenagem partidária no Paraná que ajuda a candidatura de Sandro Alex e reduz a possibilidade de Moro ampliar sua frente pela centro-direita. O movimento também mostra por que a eleição presidencial não poderá ser simplesmente reproduzida nos Estados. Lula terá aliados do Republicanos em alguns lugares; Flávio poderá receber apoio de setores estaduais da legenda em outros; e o partido continuará em alianças próprias nas disputas para governador e Senado. No Paraná, a escolha está feita no plano estadual. Republicanos, PSD e seus aliados trabalham pela sucessão de Ratinho Junior, com Sandro Alex no governo e Alexandre Curi no Senado. Para Flávio Bolsonaro, a perda é nacional. Para Sergio Moro, o efeito é paranaense. O candidato do PL precisava transformar a aproximação com o clã Bolsonaro em uma coalizão eleitoral maior. A permanência do Republicanos no grupo de Ratinho Junior impossibilitou esse movimento porque mantém uma legenda relevante dentro do campo adversário. Nesse rigoroso inverno paranaense, o Republicanos preferiu se agasalhar debaixo da japona zaul de Ratinho Junior. A imagem traduz uma escolha política concreta: enquanto Flávio Bolsonaro tenta reunir uma oposição nacional a Lula, o Republicanos preserva no Paraná a aliança que mantém Alexandre Curi na disputa majoritária e Sandro Alex como candidato do grupo governista. Moro fica fora dessa composição. Não porque o Republicanos tenha anunciado uma campanha contra ele, mas porque o partido escolheu outro palanque para a disputa pelo Palácio Iguaçu. Na prática, a neutralidade que esvaziou a aliança nacional de Flávio também retirou de Moro uma possível ponte partidária no Paraná. A direita chega à eleição de 2026, portanto, dividida entre diferentes projetos de poder. O Republicanos é uma das melhores demonstrações dessa fragmentação: Motta apoia Lula na Paraíba, Tarcísio tentou aproximar a legenda de Flávio em São Paulo e, no Paraná, Alexandre Curi disputa o Senado no palanque de Sandro Alex. Para Ratinho Junior, a neutralidade preserva a coalizão estadual. Para Sandro Alex e Alexandre Curi, mantém uma legenda importante na chapa. Para Flávio Bolsonaro, representa mais uma dificuldade para construir uma frente nacional. Para Sergio Moro, estreita o espaço de expansão do palanque do PL no Paraná. O Paraná virou a política do “quem ama quem” O Paraná talvez seja o Estado mais sui generis da eleição de 2026. As alianças estaduais e nacionais não apenas caminham em direções diferentes; em alguns casos, parecem formar uma roda de amores políticos em que ninguém sabe exatamente quem termina com quem em 4 de outubro. O Republicanos disse não a Flávio Bolsonaro na disputa presidencial e preferiu preservar, no Paraná, a aliança com Ratinho Junior, Sandro Alex e Alexandre Curi. Ratinho Junior, por sua vez, desistiu da corrida presidencial e passou a apoiar Ronaldo Caiado (PSD), enquanto preserva seu próprio projeto de sucessão no Palácio Iguaçu. Sergio Moro jurou fidelidade ao projeto presidencial de Flávio Bolsonaro. O PL lançou Moro para o governo paranaense justamente como palanque do candidato do partido ao Planalto. Em março, Moro declarou apoio ao projeto de Flávio e, em maio, os dois voltaram a dividir o palanque em Curitiba. Mas Moro também mantém uma aliança com o Novo no Paraná, partido que apresenta Romeu Zema à Presidência. Deltan Dallagnol (Novo) integra a chapa estadual de Moro, enquanto o próprio Novo paranaense já precisou desautorizar críticas de Zema a Flávio para preservar a aliança local com o PL. É uma eleição em que o amor nacional nem sempre corresponde ao casamento estadual. E aí cabe o trocadilho inspirado em Drummond: No Paraná, Republicanos ama Ratinho, que ama Caiado; Moro ama Flávio, mas flerta com Zema; Zema disputa contra Flávio, enquanto seu partido no Paraná caminha com Moro. E Flávio, que precisava do Republicanos, ficou sem o partido. A diferença é que, nesta versão paranaense, ninguém sabe ainda quem vai aparecer ao lado de quem na fotografia definitiva de 4 de outubro.