O bolsonarismo lambe-botas e a ameaça de Trump às eleições brasileiras

Alinhados a Marco Rubio, patriotas atuam como agentes da Doutrina Monroe nos EUA enquanto semeiam desconfiança sobre o sistema eleitoral no Brasil. por João Filho no Intercept Brasil Não é mais uma questão de “se” nem de “quando", mas como será a intervenção de Washington nas eleições presidenciais brasileiras. Os ataques do governo norte-americano contra o brasileiro se intensificaram nos últimos meses, culminando com o plano de enviar dois funcionários do alto escalão da Casa Branca ao Brasil para atacar as urnas eletrônicas antes das eleições de outubro, como apurou o jornal "The Washington Post". Soma-se a isso os encontros que o consulado dos EUA tem promovido com influenciadores bolsonaristas às vésperas da campanha eleitoral. É esse o nível de intimidação que nossas eleições já estão sofrendo da maior potência bélica e econômica do mundo. Nesta semana, o tamanho do apetite imperialista ficou ainda mais claro. O Departamento de Estado dos EUA, chefiado por Marco Rubio, divulgou um vídeo em que afirma que o domínio norte-americano sobre as Américas “nunca mais será questionado", em uma referência à Doutrina Monroe. A intervenção militar na Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro mostram que Trump está disposto a todo tipo de agressão à soberania de qualquer país do continente. As armas já foram colocadas sobre a mesa. Prioridade Impedir a reeleição do presidente de esquerda do maior país da América do Sul é crucial para a releitura da Doutrina Monroe. Certamente está entre as prioridades de Rubio para este ano. Com as facções criminosas brasileiras classificadas como grupos narcoterroristas, o caminho para uma intervenção militar no Brasil já foi pavimentado. É quase o mesmo roteiro usado para justificar o sequestro do ex-presidente venezuelano, que foi acusado sem provas de liderar um cartel de drogas. Mas o Brasil não é Venezuela e Lula não é Maduro. O custo de uma operação similar aqui seria maior — o que não significa que Trump não esteja disposto a pagá-lo. Nós temos uma economia robusta e diversificada, nossas instituições democráticas são consolidadas e resilientes, e nosso presidente não é considerado um ditador pela comunidade internacional. Uma intervenção mais dura por aqui pode se tornar um desgaste grande para o presidente norte-americano. Ocorre que Trump é imprevisível, não opera no campo da razão e já demonstrou não ter o menor pudor em violar qualquer direito internacional. Nossa soberania está sob a ameaça de um chimpanzé bêbado com uma metralhadora na mão. Vassalagem bolsonarista A campanha eleitoral começa oficialmente amanhã, mas o bolsonarismo já está preparando o terreno para a contestação do resultado eleitoral. No mês passado, Flávio Bolsonaro reuniu diplomatas e representantes de quase 50 países para dizer que as urnas eletrônicas brasileiras são fabricadas pela mesma empresa que, segundo um relatório da CIA, ajudou a fraudar as eleições da Venezuela em 2012. Trata-se de informação absolutamente falsa, uma mentira velha que já foi desmentida várias vezes e agora está sendo revivida pelo golpismo para essa eleição. O projeto da urna eletrônica e do sistema eletrônico de votação brasileira foi concebido e é gerido pela Justiça Eleitoral brasileira. O governo brasileiro já entendeu que a escalada de hostilidades dos últimos meses foi provocada artificialmente pelos EUA e tem como objetivo final interferir nas eleições. Após o cancelamento do visto da embaixadora do Brasil em Washington, a Presidência da República afirmou em nota que é “óbvio” que existe “interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente”. Aqui os EUA contam com o apoio da vassalagem bolsonarista, que talvez seja a fração da extrema direita mundial mais capacha e subserviente aos interesses do imperialismo. Os patriotas, que batem continência à bandeira dos EUA e prometem entregar a Amazônia aos yankees, trabalham ativamente como agentes facilitadores da Doutrina Monroe no Brasil. Não restam dúvidas de que a campanha de Flávio Bolsonaro atuará como extensão do Departamento de Estado de Marco Rubio. Aos olhos do bolsonarismo, o destino do Brasil é ser um puxadinho dos EUA. Mais que isso: uma intervenção americana, que impeça a eleição de Lula, pode ser o único caminho para tirar a família Bolsonaro do caminho da cadeia. Essa é a verdadeira preocupação dos nossos patriotas. Golpismo batendo à porta Semear a dúvida sobre o sistema eleitoral brasileiro faz parte da guerra híbrida que está sendo desenhada para desestabilizar a democracia brasileira. Um Brasil soberano, articulador do Sul Global, que dialoga com o Brics e defende a multipolaridade é um obstáculo para a nova Doutrina Monroe. Um dos motivos pelo qual a tentativa de golpe de Jair Bolsonaro não vingou foi justamente a falta de apoio de Washington, que sinalizou aos militares brasileiros que não participaria de uma aventura golpista. Agora o cenário é outro. O atual presidente norte-americano é o homem que liderou a invasão do Capitólio — o 8 de Janeiro dos EUA. Uma nova tentativa de golpe de estado já está desenhada. Se Lula vencer as eleições, o governo de Trump acusará fraude e fará o que for necessário para empossar sua v.assalagem. Haverá pouco ou quase nada a se fazer. Nosso ministro da Defesa já até avisou que vai “ter que abrir o portão”. Parece absurdo imaginar que, poucos anos após ter colocado os líderes golpistas na cadeia, a democracia brasileira esteja sob séria ameaça de uma potência estrangeira. Mas, na era dos absurdos, a possibilidade é real e o golpismo já está batendo à porta.