Marcos Coimbra: “pesquisas erram muito”
Cientista político critica excesso de pesquisas e alerta para limites dos levantamentos eleitorais
por Dafne Ashton no Brasil 247
O cientista político e especialista em pesquisas de opinião Marcos Coimbra fez uma dura crítica à proliferação de levantamentos eleitorais no Brasil e alertou para os riscos de transformar sondagens feitas meses antes do pleito em retratos definitivos da disputa.
Segundo ele, o volume excessivo de pesquisas, associado à divulgação pouco criteriosa de resultados, contribui para confundir o eleitor e criar uma percepção de precisão que os próprios levantamentos não podem oferecer.
As declarações foram dadas em entrevista ao programa Boa Noite 247. Durante a conversa, Coimbra questionou especialmente a presença crescente de bancos e empresas ligadas ao mercado financeiro no financiamento de pesquisas destinadas à divulgação pública.
“Só no Brasil existe pesquisa para divulgação pública em veículos de comunicação de massa contratada por banco. Nenhum outro lugar do mundo tem”, afirmou.
Para Coimbra, a particularidade brasileira merece ser discutida com mais profundidade. Ele observou que bancos e instituições financeiras obtêm enorme exposição pública ao associar suas marcas a pesquisas que ocupam manchetes, repercutem nas redes sociais e alimentam o debate político durante vários dias.
O cientista político disse não saber qual é a razão definitiva para tamanho interesse do setor financeiro no acompanhamento eleitoral, mas classificou o fenômeno como, no mínimo, incomum.
“Eu não sei exatamente por que é que nós temos essa particularidade, que o nosso sistema político e as nossas eleições despertam um interesse extraordinário dos bancos, das empresas do setor financeiro. E isso, no mínimo, é curioso”, declarou.
Modelo dos Estados Unidos
Coimbra comparou o sistema brasileiro ao norte-americano. Segundo ele, grandes veículos de comunicação dos Estados Unidos normalmente trabalham com pesquisas próprias, muitas vezes realizadas em parceria com universidades ou centros acadêmicos.
Ele citou como exemplo a parceria do The New York Times com o Siena College. Nesse modelo, argumentou, pesquisas voltadas à divulgação pública ficam vinculadas a instituições acadêmicas, enquanto levantamentos contratados por empresas, partidos ou interessados permanecem destinados a seus respectivos clientes.
Para Coimbra, o Brasil poderia discutir mecanismos que aproximassem a produção e a divulgação de pesquisas eleitorais de universidades e centros de pesquisa independentes.
“Eu acho que nós podíamos pensar por que aqui não temos algo assim, porque pesquisa é banco que paga e não universidade, centro de pesquisa, grupos acadêmicos, que têm muitos no Brasil e de muita qualidade”, disse.
‘Nenhuma pesquisa’ distante da eleição antecipou o resultado
Um dos principais alertas de Coimbra foi dirigido à interpretação de pesquisas realizadas muitos meses antes do dia da votação.
Segundo ele, desde a eleição presidencial de 1989, levantamentos feitos a grande distância do pleito frequentemente fracassaram em antecipar a configuração final da disputa.
“Só tem uma coisa que dá para falar com segurança a respeito desses números todos: no Brasil moderno, desde a eleição de 1989, nenhuma pesquisa feita a esta distância em que estamos da eleição conseguiu identificar o que terminou por acontecer”, afirmou.
A avaliação de Coimbra não significa que os institutos necessariamente façam pesquisas tecnicamente ruins. O problema, segundo ele, está em tratar um levantamento que registra determinado momento da opinião pública como uma previsão do resultado eleitoral.
Pesquisas de intenção de voto medem preferências declaradas no momento da entrevista. Durante uma campanha, porém, essas preferências podem sofrer alterações significativas à medida que aumenta a exposição dos candidatos, começa a propaganda eleitoral e cresce o envolvimento dos cidadãos com a disputa.
O exemplo de 2022
Coimbra utilizou a eleição presidencial de 2022 como exemplo das dificuldades de interpretar levantamentos distantes da votação.
Ele lembrou que, antes do início mais intenso da campanha eleitoral, pesquisas indicavam uma vantagem muito maior de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Jair Bolsonaro do que aquela registrada posteriormente nas urnas.
Com o avanço da propaganda eleitoral no rádio, na televisão e na internet, a distância entre os dois candidatos diminuiu.
No primeiro turno de 2022, Lula terminou à frente de Bolsonaro por pouco mais de cinco pontos percentuais. Já no segundo turno, a disputa terminou com margem inferior a dois pontos percentuais.
“O que parecia que era uma vitória folgada que o presidente Lula iria ter sobre Bolsonaro não foi o que aconteceu. Ao contrário, foi uma aproximação cada vez maior entre os dois”, recordou Coimbra.
Para ele, o caso deveria provocar uma discussão metodológica mais ampla entre institutos de pesquisa, cientistas políticos e veículos de comunicação.
Em vez de simplesmente publicar novos levantamentos em alta frequência, argumentou, seria importante tentar compreender por que pesquisas feitas semanas ou meses antes da votação podem apresentar cenários tão diferentes daquele que acaba sendo registrado nas urnas.
“Nós deveríamos estar pensando por que a pesquisa feita em agosto de 2022 apontava um resultado tão diferente do que aconteceu na urna. O que acontece nessa reta final que muda todos os prognósticos que as pesquisas estavam fazendo?”, questionou.
Eleitor só começa a decidir perto da votação
Na avaliação de Coimbra, uma das explicações está no baixo nível de envolvimento de grande parcela da população com a política durante períodos não eleitorais.
O pesquisador argumenta que uma minoria acompanha diariamente declarações de candidatos, articulações partidárias, pesquisas, negociações eleitorais e movimentos regionais.
Para grande parte dos brasileiros, segundo ele, a decisão sobre em quem votar somente começa a adquirir importância efetiva quando a eleição se aproxima.
“Uma parte majoritária da sociedade brasileira tem uma relação muito distante com a vida política nacional”, afirmou.
Esse comportamento produziria uma consequência importante para as pesquisas feitas muito cedo: entrevistados que ainda não refletiram sobre a eleição são pressionados pelo próprio questionário a declarar uma preferência.
Coimbra fez uma distinção entre o eleitor “independente”, conceito frequentemente utilizado em análises políticas, e o eleitor que simplesmente está “indiferente” à eleição naquele momento.
“Não é um eleitor independente, é um eleitor indiferente”, resumiu.
‘uma opinião que não existe’
O cientista político foi além ao questionar a forma como determinados questionários podem produzir respostas de pessoas que ainda não desenvolveram uma posição eleitoral.
“Hoje nós estamos fazendo uma pesquisa e forçando cidadãos que não têm nenhuma motivação, nenhum interesse, nenhuma informação a dizer em quem votariam se a eleição fosse hoje. Mas a eleição não é hoje”, afirmou.
Coimbra argumenta que um entrevistado desinteressado ou pouco informado poderia simplesmente responder que ainda não sabe em quem votar. Em determinadas metodologias, entretanto, a insistência por uma escolha pode gerar uma resposta que representa mais uma reação momentânea ao questionário do que uma preferência consolidada.
“Nós fabricamos, pelo modo de aplicar a pesquisa, uma opinião que não existe”, declarou.
O pesquisador também destacou um paradoxo conhecido pelos cientistas sociais: cidadãos mais interessados em política tendem a consumir mais informações, mas justamente por já possuírem preferências mais consolidadas são menos suscetíveis a mudar de posição.
O contrário ocorre entre os menos envolvidos. Como acompanham menos o debate durante a maior parte do período eleitoral, podem alterar suas decisões de maneira mais intensa quando finalmente passam a prestar atenção à campanha.
Coimbra rejeita ‘selo de qualidade’ simples para institutos
Questionado sobre a possibilidade de estabelecer algum tipo de selo de qualidade para pesquisas eleitorais, Coimbra demonstrou ceticismo.
O problema, segundo ele, é determinar qual seria o critério objetivo para classificar um instituto como melhor ou pior.
Uma pesquisa realizada dois meses antes da eleição deve ser julgada pela proximidade com o resultado final? Ou apenas aquela divulgada na véspera do pleito? E como avaliar institutos que publicam levantamentos semanais ou mesmo diários?
“Não existe uma maneira objetiva de você avaliar performance de instituto. Não existe no Brasil, não existe em lugar nenhum do mundo”, afirmou.
Coimbra ressaltou ainda que institutos de pesquisa não deveriam ser avaliados apenas por sua capacidade de “acertar” uma eleição, porque uma pesquisa não é, tecnicamente, uma previsão.
“Os institutos não fazem previsão. O que eles fazem é um acompanhamento de como está mudando, ou não está mudando, o processo de tomada de decisão do eleitor”, explicou.
A distinção é fundamental. Uma pesquisa pode retratar corretamente a opinião pública em determinado momento e, ainda assim, divergir do resultado eleitoral semanas depois, caso os eleitores mudem de posição durante a campanha.
Responsabilidade da imprensa
Se Coimbra demonstra reservas em relação a uma intervenção direta da Justiça Eleitoral na classificação dos institutos, ele atribui à imprensa uma responsabilidade central na filtragem dos levantamentos.
O especialista afirmou que veículos de comunicação deveriam estabelecer critérios mais rigorosos para decidir quais pesquisas merecem divulgação.
“Tem que haver uma filtragem na hora da divulgação. Os responsáveis pela divulgação têm uma responsabilidade significativa”, disse.
Na avaliação de Coimbra, parte do “hiperpesquisismo” brasileiro decorre justamente do enfraquecimento dos critérios editoriais adotados por veículos tradicionais.
“Nós temos um hiperpesquisismo em grande parte porque a imprensa, chamada ou autochamada profissional no Brasil, abrandou muito seus critérios de qualidade técnica na divulgação de pesquisa”, afirmou.
Ele defendeu que a resposta ao problema deveria vir principalmente da sociedade, dos institutos e dos próprios meios de comunicação, e não de uma autoridade eleitoral encarregada de determinar quais pesquisas seriam consideradas aceitáveis.
‘Oscilação para cima’ e ‘para baixo’ é conceito enganoso
Outro alvo das críticas de Coimbra é a linguagem utilizada para divulgar pesquisas eleitorais.
Ele contestou especialmente expressões como “oscilou para cima” ou “oscilou para baixo” quando a variação permanece dentro da margem de erro.
“É uma coisa simplesmente ridícula. Não existe em lugar nenhum, em qualquer manual de estatística, o conceito de oscilação”, afirmou.
Segundo ele, quando um candidato aparece com 10% em uma pesquisa e 11% na seguinte, por exemplo, não é possível afirmar automaticamente que houve crescimento real.
A margem de erro representa justamente um intervalo de incerteza da estimativa. Pequenas diferenças entre levantamentos podem decorrer da própria variabilidade estatística da amostra, e não de uma alteração efetiva na preferência dos eleitores.
“Não existe oscilação em pesquisa, existe margem de erro”, resumiu.
Eleição pode exigir novo pacto
Coimbra concluiu a entrevista defendendo uma reflexão coletiva sobre o papel das pesquisas no debate público brasileiro.
Para ele, a quantidade de levantamentos não é, isoladamente, o principal problema. A questão está na combinação entre excesso de pesquisas, metodologias diferentes, interpretações exageradas e divulgação sem contexto suficiente sobre as limitações estatísticas e políticas desses dados.
O cientista político defendeu um novo entendimento entre quem produz pesquisas e quem decide divulgá-las.
“Eu acho que nós vamos ter que repensar. Esta eleição está sendo muito sugestiva. Nós deveríamos aprender com o que aconteceu agora e tentar fazer com que a próxima já tenha um outro pacto de quem faz, quem divulga”, afirmou.
A advertência de Coimbra toca em uma questão central para campanhas eleitorais cada vez mais orientadas por números: pesquisas podem ajudar a compreender tendências e mudanças na opinião pública, mas transformá-las em previsões definitivas — sobretudo meses antes da votação — significa exigir dos dados uma precisão que eles não foram concebidos para oferecer.
