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Em Brasília, na terça-feira, 11 de setembro de 1973, por volta das 13h50, um carro encostou na L2 Norte, em frente ao Colégio Madre Carmen Sallés.
De dentro do veículo, os pais de Ana Lídia Braga, uma menina de apenas 7 anos, viram a filha caminhar em direção à entrada. Confiantes de que a garota havia entrado em segurança na escola, eles deram partida no veículo e foram embora.
O que os pais não viram foi o movimento metros adiante. Testemunhas observaram quando um rapaz jovem, alto e de cabelos loiros aproximou-se de Ana Lídia.
Com extrema naturalidade — revelando a familiaridade de quem parecia conhecer bem aquele jovem —, a menina segurou na mão dele sem relutar.
Logo em seguida, os dois se juntaram a um segundo rapaz e os três caminharam juntos até sumirem completamente de vista.
Por volta das 17h, o desespero começou a se desenhar. A empregada da família chegou ao colégio para buscar a garota e foi surpreendida pela notícia das freiras: Ana Lídia não havia assistido às aulas naquele dia.
O pânico tomou conta dos pais. À noite, a família recebeu uma ligação assustadora exigindo 2 milhões de cruzeiros de resgate. Ao fundo da linha, ouvia-se o choro desesperado da criança, reforçado por um bilhete com as mesmas exigências.
Na manhã do dia seguinte, 12 de setembro, a busca terminou da forma mais trágica possível. O corpo de Ana Lídia foi encontrado em uma vala rasa, num matagal entre a Avenida das Nações e o campus da Universidade de Brasília (UnB).
A cena do crime chocou os peritos. O corpo da menina apresentava sinais extremos de tortura: esfoliações por todo o tronco, queimaduras de cigarro e o cabelo cortado de forma rústica e grotesca, rente ao couro cabeludo.
O laudo confirmaria que ela fora abusada sexualmente e morta por asfixia por volta das 6h da manhã. No local, a perícia observou marcas de pneus e recolheu camisinhas com sêmen de pelo menos dois rapazes.
Brasília era uma capital recém-inaugurada, planejada para ser um símbolo de modernidade e paz, sem qualquer histórico de crimes violentos dessa magnitude.
A brutalidade do assassinato de Ana Lídia mudou para sempre a percepção de segurança na cidade, destruindo a sensação de que a nova capital era um lugar intocável.
As investigações da Polícia Civil logo recaíram sobre duas figuras centrais do convívio próximo da vítima: Álvaro Henrique Braga (18 anos), irmão e padrinho de Ana Lídia, e Raimundo Lacerda Duque, amigo da família e funcionário público com histórico de dependência química e conhecida atração por menores.
Álvaro tornou-se o principal suspeito de ter retirado a menina da escola por um motivo físico direto: sua aparência, loiro, alto e jovem, batia com precisão absoluta com o relato das testemunhas.
Ao escarafunchar a rotina do rapaz, os investigadores mapearam a dinâmica social da elite brasiliense na época:
Álvaro frequentava o Colégio Unidade de Ensino do Distrito Federal (UEDF), instituição de classe média alta onde estudavam os filhos das figuras mais poderosas da República.
Nos bastidores do colégio, jovens da alta sociedade mantinham uma rede fechada de fornecimento e consumo de drogas. Filhos de autoridades políticas eram os principais distribuidores nessa engrenagem.
No grupo, Álvaro ocupava uma posição vulnerável. Descrito como um jovem facilmente manipulável e profundamente submisso aos rapazes mais abastados e influentes da turma, ele buscava aceitação constante.
Para manter seu lugar naquele círculo, começou a consumir e comprar drogas com eles, acumulando dívidas financeiras vultosas que não tinha como pagar.
A principal teoria construída pela polícia apontava que, pressionado pelas dívidas e agindo com total submissão a esse grupo, Álvaro pegou a própria irmã na porta da escola.
Ele não previa o desfecho fatal: a intenção inicial seria entregá-la e simular um sequestro para extorquir o próprio pai. Raimundo Duque teria ajudado no suporte logístico.
A menina teria sido levada para uma chácara em Sobradinho pertencente à família de um político influente, local usado pela elite jovem para festas com sexo e drogas.
Contudo, a situação fugiu do controle, resultando na violência extrema e no assassinato da criança. Entre os nomes ligados às apurações estavam Alfredo Buzaid Júnior ("Buzaidinho"), filho do então Ministro da Justiça, e Eduardo Ribeiro Resende ("Resendinho"), filho do líder do governo no Senado.
Buscando proteger o único filho que lhes restava do escândalo e da cadeia, os pais de Ana Lídia deram depoimentos alinhados para criar um falso álibi para Álvaro, sustentando que ele estivera em casa durante o horário do desaparecimento da irmã.
Pressionados pelos investigadores sobre a proteção desmedida ao jovem apesar das evidências, os pais expressaram o desespero que movia aquele ato: se já haviam perdido uma filha de forma tão trágica, não aceitariam perder também o filho.
Diante do cerco policial e do julgamento público, em 1974 a família enviou Álvaro para o Rio de Janeiro para tirá-lo do foco dos holofotes em Brasília.
Com o envolvimento de sobrenomes ligados à cúpula do regime militar, a engrenagem do Estado agiu para abafar o caso:
O sêmen e as camisinhas recolhidas no local do crime sumiram dos arquivos periciais sem jamais passarem por exames de compatibilidade ou análises aprofundadas. Prova por prova, o inquérito foi sendo sistematicamente esvaziado por mãos invisíveis dentro do aparelho estatal.
Conforme o assassinato ganhava as capas dos jornais, a comoção pública ameaçava expor o envolvimento de herdeiros da alta cúpula política da capital.
Temendo o impacto desgastante de um escândalo desse porte, o regime militar agiu com força total. O regime decretou censura prévia e irrestrita à imprensa, proibindo jornais, rádios e emissoras de televisão de publicarem qualquer informação, avanço ou investigação paralela sobre o caso Ana Lídia, sufocando o debate público e garantindo que o crime caísse no silêncio forçado.
Por falta de provas materiais consistentes nos autos — destruídas ou ignoradas —, Álvaro e Raimundo Duque acabaram absolvidos pela Justiça.
Ao longo dos anos, cerca de 14 pessoas ligadas a testemunhas, pequenos traficantes e informantes do caso morreram em circunstâncias altamente suspeitas e nunca esclarecidas.
Alfredo Buzaid Júnior ("Buzaidinho"), filho do então Ministro da Justiça Alfredo Buzaid, morreu em 1975 em um acidente de carro mal explicado. Anos depois, ao exumarem seu corpo para tentar colher material pericial, descobriu-se que a ossada no túmulo não possuía nenhum dente — um detalhe que levantou suspeitas de manipulação do cadáver para inviabilizar a identificação por odontologia legal e alimentou teorias de que ele sequer teria morrido ali.
Os demais nomes associados ao caso também tiveram fins trágicos ou obscuros: Eduardo Ribeiro Resende ("Resendinho"), filho do líder do governo no Senado, Eurico Resende, cometeu suicídio anos mais tarde. Já Raimundo Lacerda Duque, o funcionário público apontado como cúmplice no início das investigações, afundou no vício e morreu em decorrência do alcoolismo.
O caso prescreveu formalmente na Justiça em 1993 e a impunidade selou o desfecho de um dos crimes mais sombrios do país. Com o passar do tempo, quase todos os personagens centrais dessa tragédia faleceram.
Atualmente, o irmão de Ana Lídia, Álvaro Henrique Braga é o único sobrevivente de todos os suspeitos centrais envolvidos nas investigações do assassinato de sua irmã.
Enquanto os outros nomes apontados pela polícia tiveram fins trágicos, Álvaro seguiu um rumo completamente diferente.
Ele deixou Brasília para trás, reconstruiu a vida no Rio de Janeiro e ingressou na faculdade de Medicina. Formou-se e atua até hoje como médico na capital fluminense, mantendo uma rotina extremamente discreta.
Em 2023, quando o crime completou 50 anos, veículos de imprensa o procuraram no Rio de Janeiro para que finalmente falasse sobre a tragédia. Álvaro, no entanto, recusou-se categoricamente a dar qualquer entrevista, mantendo o silêncio absoluto que adotou durante cinco décadas sobre o caso.
