A esquizofrenia sionista contra as crianças palestinas

Quando a militarização de um brinquedo infantil justifica o genocídio. (por: Mohamad Ali) Oriente Médio em Revista No dia 22 de agosto de 2026, soldados israelenses encontraram pelo menos quatro pipas que haviam atravessado a fronteira de Gaza e caído nas proximidades do kibutz Nahal Oz. As pipas foram examinadas pelo próprio Exército israelense. Não carregavam explosivos. Não possuíam material incendiário. Não continham qualquer objeto suspeito. Segundo a conclusão divulgada pelos militares, em nenhum momento representaram perigo para a população. O episódio poderia ter terminado ali: algumas pipas levadas pelo vento para além de uma fronteira que as crianças talvez nem consigam enxergar do lugar onde brincam. Mas o governo de Benjamin Netanyahu decidiu transformar aquelas pipas em ameaça militar. O ministro da Defesa, Israel Katz, anunciou que balões seriam tratados como pipas e pipas como drones — carregassem explosivos ou não. Netanyahu ameaçou transformar os responsáveis pelos lançamentos em alvos de assassinato. O governo israelense também anunciou que poderia retirar moradores das áreas de Gaza consideradas locais de lançamento. Não foram encontrados explosivos, mas foram anunciadas retaliações. Não existia perigo para a população israelense, mas surgiu a ameaça de deslocar novamente a população palestina. Em 23 de agosto, ataques em Gaza mataram pelo menos duas pessoas e feriram outras sete. Entre os mortos estava Muhammad Abdel-Salam Taha, um menino de quatro anos atingido por estilhaços depois que um edifício foi bombardeado em Al-Zawayda. O governo israelense declarou: os lançamentos de pipas foram utilizados para ameaçar a intensificação dos ataques, assassinatos seletivos e novas evacuações forçadas. A pipa tornou-se parte da justificativa pública para a violência. A consequência mais reveladora apareceu em 25 de agosto. Comitês populares que administram abrigos e acampamentos de deslocados começaram a pedir aos pais que impedissem seus filhos de empinar pipas. Não porque as pipas fossem perigosas. Não porque carregassem explosivos. Mas porque as crianças poderiam ser mortas. Os organizadores explicaram que não desejavam retirar das crianças o pouco que ainda lhes restava da infância. Precisavam, entretanto, proteger suas vidas. Uma mãe de Gaza contou que o filho de dez anos sempre empinava pipas durante o verão para se divertir com as outras crianças da rua. Depois das ameaças israelenses, ela decidiu não permitir mais. É nesse momento que a militarização se completa. Primeiro, um brinquedo é classificado como arma. Depois, a criança que o utiliza passa a ser tratada como possível combatente. Em seguida, a família precisa proibir a brincadeira para impedir que o filho se transforme em alvo. Por fim, a infância desaparece não apenas sob os escombros dos bombardeios, mas também pelo medo do que poderá acontecer se uma criança tentar brincar sobre eles. O céu que já pertenceu às crianças Para compreender a dimensão simbólica dessa história, precisamos voltar quinze anos. Em 28 de julho de 2011, a praia de Al-Waha, no norte da Faixa de Gaza, foi coberta por crianças, cores e pipas. Cerca de treze mil crianças participaram de um evento organizado pela Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinos, a UNRWA. Elas tentavam recuperar um recorde mundial que havia sido conquistado meses antes por uma associação chinesa, com 10.465 pipas voando simultaneamente. O Guinness homologou em Gaza exatamente 12.350 pipas que permaneceram no ar ao mesmo tempo durante pelo menos trinta segundos. Outras 2.231 foram desclassificadas por não completarem o tempo necessário. As crianças de Gaza haviam recuperado o recorde mundial. Chris Gunness, então porta-voz da UNRWA, classificou o acontecimento como “simplesmente milagroso”. Na imagem utilizada por ele, o pequeno Davi de Gaza havia vencido o poderoso Golias da China. Mas aquelas pipas significavam muito mais do que uma disputa entre recordistas. Mostravam ao mundo a beleza, a criatividade e o potencial de crianças que já viviam submetidas ao bloqueio, à pobreza e à punição coletiva. Uma das meninas confeccionou sua pipa com as cores da bandeira palestina. Quando ela subia, a menina dizia sentir que também erguia seu país e sua bandeira em direção ao céu. Naquele dia, o céu de Gaza não pertencia aos aviões militares. Pertencia às crianças. Quinze anos depois, o mesmo objeto que representou criatividade, liberdade e resistência infantil passou a ser apresentado como ameaça militar. A militarização da infância Mais de 20 mil crianças foram genocidadas em Gaza. Entre as que permanecem vivas, milhares ficaram órfãs, amputadas, feridas ou doentes. Destruíram suas casas, escolas e os lugares onde guardavam suas primeiras lembranças. Crescem sob bombardeios, deslocamentos sucessivos, fome, sede e cerco — aprendendo cedo demais a distinguir o som de um drone, o estrondo de um míssil e o silêncio que antecede a morte. Como uma criança pode carregar tantos traumas? Como reconstruir uma infância depois de procurar os pais entre os escombros? Como voltar a dormir depois de sobreviver ao ataque que martirizou seus irmãos, seus pais, seus vizinhos? Como voltar a brincar quando até o céu foi transformado em território militar? Agora, até as pipas são apresentadas como ameaça. Um dos brinquedos mais simples e universais da infância passa a ser tratado como justificativa para novos ataques. O céu, que deveria representar liberdade, imaginação e brincadeira, torna-se mais uma fronteira vigiada. A criança que segura a linha deixa de ser vista como criança: passa a ser enquadrada pela lógica militar que transforma gestos cotidianos em suspeita e toda uma população em alvo. Quando até o brinquedo de uma criança passa a ser classificado como ameaça militar, mostra a esquizofrenia, as alucinações os delírios que sofrem os sionismos, que provavelmente nunca tiveram infância e muito menos sabem o valor da vida.