A ofensiva contrarrevolucionária preventiva e a segurança como pauta central na farsa eleitoral

Editorial de A Nova Democracia Esgotada a via da intervenção militar passo a passo, o ACFA prepara seu “Plano B”: ampliar o emprego das Forças Armadas reacionárias na guerra contrassubversiva sob a bandeira do “narcoterrorismo”. por Redação de AND Está em curso uma operação de guerra psicológica. Não é exagero: o Glossário das Forças Armadas (FA) reacionárias define guerra psicológica como o emprego planejado da propaganda e da exploração de outras ações com o propósito de influenciar opiniões, emoções, atitudes e comportamentos de grupos adversos ou neutros. No caso, o objetivo é claro: “limpar” a imagem do Alto Comando das Forças Armadas (ACFA) da pecha de golpista, que lhe cabe perfeitamente. Isso se expressa numa enxurrada de pronunciamentos, de altos mandos militares da ativa e da reserva, para “recontar a história” do golpismo contemporâneo das FA. Em abril, questionada sobre o impacto da condenação de generais envolvidos na bolsonarada sobre a imagem das FA, a general Claudia Cacho respondeu destacando o caráter “estatal e apartidário do Exército” (hilário, não?). Em maio, novamente ela, afirmou que “a politização é ruim”, se referindo aos quartéis, e pretendeu distinguir “opiniões políticas individuais de militares” da posição institucional. Em junho, ao ser perguntada se o golpismo estava superado no Exército reacionário, voltou a definir a instituição como “permanente e apartidária” e afirmou que ela cumpria sua missão constitucional agora, “como sempre aconteceu” (mesmo quando, em 2022, alinhou-se com Bolsonaro para questionar a legitimidade das eleições?). As suas palavras têm uma carga involuntária de humor. Humor macabro, claro! Para dar verniz de credibilidade a essa lorota, a retórica não parou aí. Em agosto, talvez a peça mais importante da operação psicológica tenha sido o lançamento do livro “Eu disse não! – Uma trincheira antigolpista”, do ex-comandante da Aeronáutica Carlos Baptista Júnior. Sim, não houve lugar para a modéstia: seria, ele mesmo, uma trincheira antigolpista! Em sucessivas entrevistas, Baptista Júnior defendeu que ele e o então comandante do Exército em 2022, general Freire Gomes, haviam sido os responsáveis por evitar uma ruptura liderada por Bolsonaro. Em 19 de agosto, o general do Exército na reserva, Sérgio Etchegoyen, o “homem forte” no governo extemporâneo de Michel Temer naqueles idos de 2016-18, veio a público e afirmou ao monopólio de imprensa CNN: “não tivemos golpe porque as FA não aderiram”, acrescentando que a instituição estaria “pagando pelo que alguns militares fizeram”. Declarou, ainda, que “eu não acredito em trama golpista”. Aliás, notória a lógica: não houve nenhuma articulação golpista, mas não houve golpe porque as FA não aderiram; brilhante: as FA não aderiram a algo que não existia! São décadas e décadas em academias militares para se chegar a dominar raciocínio lógico de tão vasta envergadura. Para fechar, no dia seguinte, Hamilton Mourão afirmou que Freire Gomes – o general democrata, que disse não apenas no último momento – “procurou preservar a instituição, o Exército” e questionou se os atos investigados configurariam efetivamente uma articulação para o golpe. Em 19 de agosto, o general do Exército na reserva, Sérgio Etchegoyen, o “homem forte” no governo extemporâneo de Michel Temer naqueles idos de 2016-18, veio a público e afirmou ao monopólio de imprensa CNN: “não tivemos golpe porque as FA não aderiram”, acrescentando que a instituição estaria “pagando pelo que alguns militares fizeram”. Declarou, ainda, que “eu não acredito em trama golpista”. Aliás, notória a lógica: não houve nenhuma articulação golpista, mas não houve golpe porque as FA não aderiram; brilhante: as FA não aderiram a algo que não existia! São décadas e décadas em academias militares para se chegar a dominar raciocínio lógico de tão vasta envergadura. Para fechar, no dia seguinte, Hamilton Mourão afirmou que Freire Gomes – o general democrata, que disse não apenas no último momento – “procurou preservar a instituição, o Exército” e questionou se os atos investigados configurariam efetivamente uma articulação para o golpe. Tal operação psicológica, como se vê, tem muito a manipular. Ela, de forma direta, pretende recontar a história, que se torna simples e confortável. A coisa teria ocorrido assim: Jair Bolsonaro teria “perdido a linha” depois da derrota eleitoral em 2022. Cercado por alguns auxiliares irresponsáveis, militares desgarrados e fanáticos da extrema direita, tentariam convencer os comandantes a embarcarem numa aventura militar, que estaria “totalmente fora de questão” pelos comandantes militares, por “questões de princípio”! Estes, “fiéis” à Constituição, teriam respondido “não”, sem nenhuma hesitação ou consideração por aquela proposta. Uma aberração em si mesma, afinal, seriam todos ilibados democratas fardados, homens muito sérios! O Exército e a Aeronáutica, particularmente, teriam funcionado como praças fortes contra o golpe, como protetores imperturbáveis da Nação impotente, guardando sua sorte!!! A culpa caberia, portanto, a Bolsonaro e a uma coleção de indivíduos que, por infeliz coincidência, incluía generais, coronéis, majores, integrantes das Forças Especiais, um ex-comandante da Marinha, dois ex-ministros da Defesa, um ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional e o candidato a vice-presidente da República, além do próprio presidente ex-oficial do Exército – mas jamais às instituições militares das quais todos eles provinham, com posições de comando, da ativa e da reserva, inveterados membros da maçonaria e recalcitrantes conspiradores desta exótica entidade. Fosse verdade essa estória, seria o Brasil um país idílico, a própria Arcádia. Nada disto! Ficou patente que o sinistro não foi adiante porque o Tio Sam disse: negativo! Biden tinha problemas cabeludos mundo afora e não queria confusão a mais no seu quintal! E não foi um ou dois acenos contrários em cima da hora: o Departamento de Defesa ianque promoveu, em meio a essa crise, reunião no solo brasileiro com os seus pares da Defesa dos países do subcontinente para deixar claro o recado ianque de “compromisso” com “a estabilidade” e “a democracia”. Assim, singelamente. *** A realidade é que, a despeito de Bolsonaro, muito antes de sua eleição em 2018, uma ofensiva contrarrevolucionária preventiva já havia sido desatada, assustada que se viu a reação com as revoltas populares de 2013/14 e na forma de uma intervenção militar passo a passo, um golpe militar, mas de modo diverso de 1964. Cabe repisar. A ofensiva contrarrevolucionária preventiva, tal como essa tribuna a caracterizou desde 2017, foi desatada pelo ACFA e o núcleo duro do establishment (setores mais poderosos das classes dominantes locais e submissas ao poder imperialista norte-americano) ante ao perigo de “insurgência”, como consideravam, já em 2007-08, a Revolução Agrária e a Liga dos Camponeses Pobres (LCP). Eram três as tarefas reacionárias delineadas: 1) sair da crise econômica mediante a imposição de contrarreformas – como foram, de fato, encaminhadas, a saber, a “Reforma Trabalhista” com tanques nas ruas de Brasília e a “Reforma da Previdência” com Bolsonaro, além de outras tantas por impulsionar o capitalismo burocrático do País em crise geral; 2) reestruturar o velho Estado mediante operações de “moralização”, tais como a “Lava Jato”, e assunção crescente de funções pelo Executivo e centralização máxima de Poder nele e por altos mandos das FA reacionárias, como demonstrado nos governos Temer e Bolsonaro; e 3) conjurar a Revolução, ou, em seus termos, “insurgência”, “crise social”, “caos social”, através dessas medidas preventivas, e combatê-los pontualmente, como ficou evidente na generalização das GLO’s e decretos que permitiram o uso contínuo das FA reacionárias. Para tanto, sua linha preferencial não era – e nunca foi – simplesmente repetir 1964 (uma ruptura da ordem constitucional), mas impor uma intervenção militar passo a passo, pela coerção das instituições via dissuasões e chantagens, eficientes na medida em que todas as demais instituições se desmoralizassem ou fossem por eles desmoralizadas, assim como, através da ocupação do aparelho de Estado e pela imposição dos rumos fundamentais da ordem política e econômica. Nessa via, digamos, de intervenção militar passo a passo, as violações abertamente golpistas, quando urgentes para garantir a marcha da ofensiva, deveriam ser todas limitadas, pontuais, aplicando o princípio contrainsurgente preventivo de “uso mínimo da força”, fundamentado nos manuais ianques de contrainsurgência, para não despertar a resistência popular ao perigo golpista. Durante o impeachment de Dilma, ainda em 2015, se pôs em marcha a ofensiva. Já no comando do Exército golpista, iniciado em fevereiro de 2015, o general Villas Bôas disse que, diante daquela crise e dos pedidos de “intervenção militar”, o Exército elaborou diretrizes internas que “passaram a preencher espaço externamente”. Essas diretrizes se apoiavam nos três pilares que ele repetiria durante todo o período: “estabilidade, legalidade e legitimidade”. Em palestra de 2017, Villas Bôas, no pleno exercício do comando, formulou isso de maneira excepcionalmente clara: “Nossa proposta é que as FA sejam protagonistas silenciosos”. Não parou aí. Explicou que a sociedade deveria identificar os militares como garantia de que os problemas não ultrapassariam “determinados limites” (o que deveria ser evitado pela intervenção ativa, porém “silenciosa”, e limites além dos quais estaria justificada uma intervenção militar total diante de “caos social” de uma insurgência popular), preservando segurança e permitindo que o País “reencontrasse o desenvolvimento” (a saber, impulsionar novamente o capitalismo burocrático em crise). Nas suas memórias, Villas Bôas conta que as manifestações políticas (leia-se: chantagens, ameaças), a participação de militares da reserva e a situação do impeachment eram assuntos “intensamente discutidos com o Alto Comando”, com o propósito de manter os generais informados e “garantir o alinhamento até os escalões mais baixos e o pessoal da reserva”. Trata-se de admissão de que a cúpula militar atuou como partido político da reação, e utilizando-se “dos escalões mais baixos” e do “pessoal da reserva” como elemento de força, sua militância, além da base social direitista, fascista e de extrema direita que mobilizaram todo esse tempo, que chegou inclusive a ser acoitada pelo ACFA às portas dos quartéis em novembro-dezembro de 2022. Bolsonaro representava, sem dúvida, uma via contraditória daquela ofensiva contrarrevolucionária, sua versão extremista de direita, que passou a disputar sua direção, mas não era, de forma alguma, a única via de intervenção militar. A operação psicológica, como se vê, busca atribuir toda a responsabilidade golpista à extrema direita, liberando a direita militar do descrédito, sob a máxima de “profissionalismo” e “imparcialidade” das FA. Trata-se de preparativos para uma nova fase da ofensiva contrarrevolucionária. *** Por fim, seria muita ingenuidade – ou impostura – imaginar que um aparato assim constituído permanecerá confinado ao chamado “crime organizado” que exerce “controle territorial”. Aliás, “controle territorial”, essa fórmula abstrata, é exatamente o que caracteriza a luta revolucionária pela terra. “Terrorismo” e “narcoguerrilheiros” são exatamente epítetos empregados pela PM-RO contra a LCP desde 2007-08, tendo, mais recentemente, recrudescido tal palavrório. Os ianques, no subcontinente, declaram guerra às forças anti-imperialistas armadas, como é anti-imperialista a luta pela Revolução Agrária no País, especialmente na Amazônia. A contrainsurgência, estratégia que guia todo o acionar das FA desde 2015 e de sua ofensiva contrarrevolucionária, não se destina a combater o “narcotráfico” – afinal, ele existe há muito tempo, e se bem está aprofundando cada vez mais sua presença na totalidade do País, é inverossímil que não tenha já ultrapassado, há muito, o chamado “limite” que se desenha contra a luta revolucionária, não podendo, portanto, explicar-se a atual situação apenas pelo desenvolvimento desse vetor. A “insurgência” que buscam combater as FA reacionárias é a Revolução Democrática, Agrária e Anti-imperialista sob direção do proletariado revolucionário. É a guerra camponesa sob direção proletária, pela conquista do Poder, que não puderam impedir em seu início, o objetivo estratégico a ser aniquilado. Determinadas organizações vinculadas ao tráfico, sendo também alvos, são, em perspectiva estratégica, apenas o bode expiatório.