CURITIBA, A CIDADE BRANCA QUE TEM ALERGIA A PRETO COM MANDATO

Por João Guató — Pasquim Cuiabano ----------------- O The Guardian, jornalão britânico que não se vende por um café com pão de queijo no gabinete do governador, publicou nesta quarta (13) uma matéria que fez Curitiba engasgar com seu capuccino gourmet: o deputado estadual Renato Freitas é, para a “capital europeia” do Brasil, o que o alho é para o vampiro — presença insuportável e cheiro de perigo. Renato não é só deputado. É negro, periférico, advogado, mestre em Direito e, o que mais irrita a aristocracia curitibana, tem cabelo black power erguido como torre de resistência, usa camiseta de Malcolm X, bermuda, tênis e deixa o rap berrar nos fones como quem grita “tô aqui” no plenário. No Guardian, resumiu o incômodo da elite com a delicadeza de um soco na boca: “Eu entro com tudo — e isso incomoda muita gente.” --------------- A CURITIBA QUE ADORA UM BOI DE PINHÃO, MAS NÃO SUPORTA UM NEGRO DE PALANQUE --------------- O Guardian abriu o baú: em 2016, Renato foi preso por ouvir rap alto. A PM, fiel à sua tradição de confundir cultura com contravenção, o espancou, humilhou e deixou nu no corredor da delegacia. Desde então, já foram 16 prisões. Nenhuma por roubo, corrupção ou estelionato — crimes preferidos de certos políticos “respeitáveis” da província —, mas por contrariar o dress code não escrito da cidade: branco, alinhado e calado. ---------- PROCESSO, MEU AMOR ------- Na Assembleia Legislativa do Paraná, Renato coleciona tentativas de expulsão como político de centrão coleciona cargo comissionado. A última foi uma suspensão de 30 dias que durou menos que pastel de feira: a Justiça derrubou no mesmo dia, chamando a decisão de “equivocada”. Ainda assim, os colegas insistem no esporte olímpico local: caçar negro falante. ------------ A DEMOCRACIA DE JARDIM BOTÂNICO ------------- Curitiba adora posar de Londres tropical: ônibus pontual, jardim florido, feira orgânica e música clássica no parque. Mas basta um negro ocupar espaço de destaque pra cidade mostrar que, no fundo, é só mais uma metrópole com manual de etiqueta colonial. Querem progresso, mas sem misturar o salão com a senzala. Renato não aceita o script e lembra: “É mais fácil ser presidente do Brasil do que prefeito de Curitiba.” E, olhando o histórico da cidade, não é exagero — é estatística. No fim das contas, o The Guardian fez o que boa parte da imprensa local não tem coragem (ou patrocinador que permita): mostrou que, atrás do cartão postal e do pinhão assado, existe um muro invisível pintado com a frase que Curitiba não admite em voz alta: “Negro aqui só se for pra servir o café.”