Desmentindo o mentiroso profissional Rafael Rozenszajn

O papel do porta-voz em português do exército israelense é enganar os brasileiros e justificar os crimes contra a humanidade perpetrados durante o genocídio em Gaza
Rafael Rozenszajn, major do exército israelense (à esquerda); mãe e filho esfomeados devido ao genocídio cometido pelo exército israelense em Gaza (à direita) ------------------------- Por Eduardo Vasco* ------- Rafael Rozenszajn é porta-voz das Forças de “Defesa” de “israel” desde o início do genocídio cometido por seu exército em Gaza, no final de 2023. Nasceu no Brasil, mas, ainda jovem, foi morar em “israel”, onde cursou Direito e passou a trabalhar como advogado das forças armadas – onde atua há 17 anos. Ele foi promotor militar na Cisjordânia, atuando em prisões administrativas de palestinos acusados de terrorismo. Em declaração ao jornal O Globo, em 2012, o hoje major das FDI já apresentava suas qualidades de mentiroso: “posso atestar que todos os palestinos detidos têm os mesmos direitos que os israelenses. Nenhum é preso sem representação de advogados e um julgamento justo.” Mas as detenções administrativas consistem exatamente em prisão por tempo indeterminado sem acusação formal ou julgamento, dentro de um sistema em que é aplicada a lei militar contra os palestinos, e não a civil. É o tribunal da ocupação. Segundo o historiador estadunidense Ussama Makdisi, entre 1967 e 2005 cerca de 650 mil palestinos foram detidos por “israel” (Makdisi, Faith Misplaced: The Broken Promise of U.S. – Arab Relations, 1820-2001). Eles são julgados por juízes judeus israelenses e, pelo sistema de tribunais militares vigente na Cisjordânia ocupada, os palestinos são submetidos a detenções prolongadas sem comunicação, não têm acesso a advogados, são alvo de interrogatórios coercitivos e as provas apresentadas contra eles são “secretas” (Lisa Hajjar, Courting Conflict: The Israeli Military Court System in the West Bank and Gaza). O regime de prisões administrativas para o qual Rozenszajn trabalhou é denunciado pelos próprios israelenses, como a advogada Tamar Pelleg-Sryck e os acadêmicos Esther Rosalind Cohen e Michael Goldstein, que o chamou, já em 1978, de “uma aberração da justiça criminal” (Israeli Security Measures in the Occupied Territories: Administrative Detention). Em 2017, a Anistia Internacional denunciou que centenas de palestinos, inclusive crianças, líderes comunitários e ativistas de ONGs, continuavam sendo alvo dessa prática. O sistema militar de prisões administrativas em que Rozenszajn atuou como promotor é reconhecido internacionalmente pela prática de torturas e as mais diversas violações de direitos humanos há décadas. Em A História Oculta do Sionismo, o autor israelense Ralph Schoenman documenta as barbaridades cometidas contra palestinos dentro do sistema defendido por Rozenszajn. Os palestinos detidos dormem em tapetes finos de borracha, enquanto 70% dos judeus dormem em camas ou colchões, os palestinos passam fome, privação de sono, são torturados com as mãos algemadas, arrastados, espancados e sofrem humilhações como cuspes ou urina dentro da boca. Rafael Rozenszajn, portanto, foi promotor em um sistema de torturas e violações dos direitos humanos de palestinos, amplamente documentado durante décadas. E, depois disso, continua seu trabalho de cumplicidade com o terror sionista, agora no papel de mentiroso profissional para justificar o extermínio de homens, mulheres e crianças em Gaza. ------------------ Diz que a dizimação de palestinos é pura mentira ------------ A sua tarefa essencial como porta-voz das FDI é dissimular o genocídio cometido por “israel” em Gaza. Para isso, ele repete o que o chefão do aparato fascista israelense, Benjamin Netanyahu, tem dito desde o começo da carnificina de palestinos: o Hamas mente sobre o número de mortes. “Todos os dias chegam informações falsas ao Brasil. Por exemplo, os números de mortos em Gaza. São informações do grupo terrorista Hamas, que não tem nenhum compromisso com a verdade”, disse Rozenszajn em entrevista de outubro de 2024 a Roberto Cabrini, da Record, e repetiu há um mês em entrevista ao Poder 360. O propagandista do regime israelense também costuma deslegitimar a ONU, embora tenha sido ela quem pariu o próprio “estado” de “israel”. Tudo bem. Vamos ignorar o Hamas e a ONU, só porque “israel” quer. Mas o que dizer do próprio governo dos Estados Unidos, o maior financiador e armador da máquina de guerra israelense? Ao primeiro mês do genocídio, o brigadeiro-general Patrick Ryder, porta-voz do Departamento de Defesa do governo dos EUA, declarou, sobre as mortes civis em Gaza: “nós sabemos que os números estão na casa dos milhares.” Poucos dias depois, foi a vez de John Kirby, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, reconhecer que já eram “muitas, muitas milhares de pessoas inocentes mortas” em Gaza. Essas admissões, por parte do governo que mais protege “israel” das críticas internacionais, foram feitas no primeiro mês de genocídio. Até o governo dos EUA admitia que, em um mês, “israel” havia matado “milhares” ou mesmo “muitos milhares” de civis em Gaza. Já estamos no 23º mês de genocídio. Acadêmicos e pesquisadores ocidentais também realizaram suas próprias investigações independentes, ignorando em seus cálculos os números disponibilizados pelo Ministério de Saúde em Gaza. O estudo mais abrangente é o de Michael Spagat, especialista mundial em mortalidade em conflitos da Universidade de Londres, que, com uma equipe de pesquisadores, visitou 2 mil domicílios em Gaza e entrevistou 10 mil habitantes. A equipe chegou à conclusão de que, até o dia 5 de janeiro de 2025, entre 60 mil e 90 mil pessoas haviam morrido de forma violenta em Gaza durante o genocídio – mais da metade sendo mulheres, crianças ou homens idosos. Já o professor israelense Yaakov Garb, da Universidade Ben-Gurion, com base em dados e mapeamento espacial das próprias forças armadas de “israel”, publicou estudo no repositório de dados da Universidade de Harvard que estima em até 177 mil pessoas desaparecidas em Gaza durante o genocídio. Todos esses números são bem maiores do que as 63 mil mortes oficiais em Gaza, embora tenham sido coletados meses atrás. -------------------- Garante que “israel” não ataca civis --------------- Na mesma entrevista à Record, Rozenszajn afirmou que outra mentira contada mundo afora é a de que “israel” ataca civis. Em outras entrevistas, ele também garante que “antes de qualquer ataque, o exército israelense faz todo o possível para minimizar os danos a civis”. O porta-voz das FDI, cujo ganha-pão é mentir diariamente para justificar as atrocidades de “israel”, ignora os inúmeros massacres comprovadamente cometidos pelas forças israelenses. As próprias FDI admitiram a responsabilidade pelo massacre de Jabalia (em 31 de outubro de 2023, com a morte de 126 civis), pelo assassinato de sete funcionários da World Central Chicken (abril de 2024), pelo ataque ao campo de refugiados do noroeste de Rafah (maio de 2024, 35 mortos), pela morte de pessoas buscando comida em Rafah (início de junho de 2025, com 27 mortos), pelo assassinato de crianças que buscavam água no centro de Gaza (julho de 2025, ao menos oito mortos) e pelo ataque mortal a uma instalação da ONU em março de 2025, por exemplo. Além dos reconhecimentos oficiais das FDI, incontáveis soldados e oficiais também admitem a existência de ataques deliberados a civis. O jornal israelense Haaretz entrevistou membros das FDI sobre os ataques contra civis que buscavam ajuda humanitária em junho e eles admitiram que os comandantes ordenaram abrir fogo contra as multidões de forma deliberada, mesmo sem uma ameaça clara aos soldados. “É um campo de extermínio”, disse um soldado. “Onde eu estava alocado, entre uma e cinco pessoas eram mortas todos os dias. Elas são tratadas como uma força hostil – sem medidas de controle de multidões, sem gás lacrimogêneo – apenas fogo real com tudo o que se possa imaginar: metralhadoras pesadas, lançadores de granadas, morteiros. Então, assim que o centro se abre, os tiros param e eles sabem que podem se aproximar. Nossa forma de comunicação é o fogo cruzado.” E acrescentou: “abrimos fogo de manhã cedo se alguém tentar entrar na linha a algumas centenas de metros de distância, e às vezes simplesmente atacamos de perto. Mas não há perigo para as forças.” Segundo ele, “não tenho conhecimento de um único caso de fogo de retorno. Não há inimigo, nem armas.” Em um incidente, um outro soldado recebeu instruções para disparar um projétil contra uma multidão reunida perto da costa. “Tecnicamente, o objetivo é disparar um tiro de advertência — seja para repelir as pessoas ou impedi-las de avançar”, disse. “Mas, ultimamente, disparar projéteis se tornou prática padrão. Toda vez que atiramos, há baixas e mortes, e quando alguém pergunta por que um projétil é necessário, nunca há uma boa resposta. Às vezes, o simples fato de fazer a pergunta irrita os comandantes.” Um oficial experiente da reserva, comandante das suas forças na área do centro de Gaza, que esteve envolvido na escolta de ajuda humanitária, também relatou o tiroteio deliberado contra pessoas na fila de comida. “Pelo que ouvimos, mais de dez pessoas foram mortas lá”, disse. “Quando perguntamos por que eles abriram fogo, nos disseram que era uma ordem superior e que os civis representavam uma ameaça às tropas. Posso dizer com certeza que as pessoas não estavam próximas das forças e não as colocaram em perigo. Foi inútil – elas foram simplesmente mortas, por nada. Essa coisa chamada matar pessoas inocentes – se tornou normal. Nos disseram constantemente que não há não combatentes em Gaza, e aparentemente essa mensagem foi absorvida pelas tropas.” “Eles falam sobre usar artilharia em um cruzamento cheio de civis como se fosse normal”, disse ao Haaretz uma fonte militar que participou de discussões do Comando Sul das FDI sobre esses ataques. “Uma conversa inteira sobre se é certo ou errado usar artilharia, sem sequer perguntar por que essa arma era necessária. O que preocupa a todos é se isso prejudicará nossa legitimidade de continuar operando em Gaza. O aspecto moral é praticamente inexistente. Ninguém se pergunta por que dezenas de civis em busca de comida são mortos todos os dias.” Uma fonte ligada ao Gabinete do Procurador-Geral Militar também rejeitou a desculpa de que trata-se de casos isolados. “A alegação de que se trata de casos isolados não condiz com os incidentes em que granadas foram lançadas do ar e morteiros e artilharia foram disparados contra civis“, disse o oficial de justiça à mesma reportagem. “Não se trata da morte de algumas pessoas — estamos falando de dezenas de vítimas todos os dias.” Em Beit Hanoun, oficiais das FDI disseram a outra reportagem do Haaretz que eles primeiro matam o suspeito de ser membro do Hamas, para depois verificar a identidade. Os suspeitos sequer atacam ou se aproximam dos soldados, e são alvejados por drones. ---------------------- Acusa o Hamas de roubar ajuda humanitária ----------------- Como um repetidor dos mantras ensinados por seus superiores, Rafael Rozenszajn diz em suas entrevistas que o Hamas rouba a ajuda humanitária que é enviada a Gaza – e por isso os palestinos estariam passando fome, não devido ao cerco imposto por “israel”, ao impedimento de fornecimento sistemático de ajuda e, como descrito acima, aos massacres contra os esfomeados que se aglomeram para buscar comida. É claro que ele não apresenta nenhum indício e muito menos prova do que fala. Provavelmente porque elas não existem. Em julho, a porta-voz da Comissão Europeia, indagada sobre as acusações israelenses, declarou: “nós não temos nenhum informe sobre o Hamas estar roubando a ajuda.” Também no mês passado, a USAID – organização do Estado Profundo dos EUA, aquele que banca “israel” – divulgou uma análise de casos documentados e concluiu que não existe nenhum esquema de desvio de ajuda humanitária pelo Hamas. Finalmente, os próprios oficiais das FDI admitiram ao New York Times que, realmente, o Hamas não rouba ajuda humanitária. Contudo, diante de tantas acusações sem fundamento vindas da propaganda sionista, veículos de imprensa ocidentais – que compraram boa parte dessa propaganda e, por exemplo, também chamam o Hamas de terrorista – foram investigar essas alegações. Uma extensa investigação do The Guardian “analisando evidências visuais, balas, dados médicos e padrões de ferimentos de dois hospitais, bem como entrevistas com organizações médicas e cirurgiões, ao longo de aproximadamente 50 dias de distribuição de alimentos, parece mostrar um padrão israelense sustentado de atirar em palestinos que buscam comida”. E nenhuma prova que sustente as acusações falsas de Rozenszajn e sua laia. Apenas o óbvio: as forças israelenses massacram civis palestinos até mesmo quando estão à beira da morte pela fome imposta por “israel”. ----------------------- “israel” faz ataques cirúrgicos ----------------- Ao Poder 360, Rozenszajn chegou a dizer que os soldados israelenses usam equipamentos precisos, informações cirúrgicas e abortam ataques quando civis aparecem inesperadamente, assegurando a sua proteção. Ainda afirmou que os soldados “imploram” para que os palestinos abandonem as suas casas, mas o Hamas (claro!) faz todo o possível para trazê-los para a zona de combate. Todos os fatos relatados até agora refutam a ladainha de que as FDI efetuam ataques cirúrgicos contra alvos exclusivamente “terroristas”. Na verdade, fica claro que os ataques podem até mesmo ser precisos, mas seu alvo não são os combatentes, e sim os civis. Em dezembro de 2024, soldados israelenses relataram ao Haaretz que foram autorizados por seus superiores a considerar civis que entrassem em prédios como combatentes. “Estamos matando civis que depois são contados como ‘terroristas’”, disse um militar. As instruções eram para alvejar “qualquer um que entrasse no edifício, não importa quem fosse, mesmo se estivessem apenas procurando um abrigo [para se proteger] da chuva”, declarou outro. A National Public Radio dos Estados Unidos também entrevistou mais de uma dezena de palestinos de Gaza, que relataram o uso de drones snipers (os quadricópteros), que foram vistos atirando em civis em diferentes pontos da cidade. Médicos estrangeiros que trabalharam em Gaza durante o genocídio testemunham há tempos que trataram civis com marcas de tiros de snipers. Alguns não puderam ser tratados, pois chegaram mortos ao hospital. O doutor Mark Perlmutter, voluntário no Hospital Nasser, em Khan Yunis, escreveu no New York Times: Trabalhei como cirurgião de trauma em Gaza de 25 de março a 8 de abril [de 2024]. Fui voluntário na Ucrânia e no Haiti, e cresci em Flint, Michigan. Vi violência e trabalhei em zonas de conflito. Mas das muitas coisas que se destacaram sobre trabalhar em um hospital em Gaza, uma me pegou: quase todos os dias que estive lá, vi uma nova criança que tinha levado um tiro na cabeça ou no peito, e praticamente todas morreram. Treze no total. Na época, presumi que isso tinha que ser o trabalho de um soldado particularmente sádico localizado nas proximidades. Mas depois de voltar para casa, conheci um médico de medicina de emergência que havia trabalhado em um hospital diferente em Gaza dois meses antes de mim. “Eu não conseguia acreditar na quantidade de crianças que vi levando tiros na cabeça“, eu disse a ele. Para minha surpresa, ele respondeu: “Sim, eu também. Todos os dias.” Ele compilou, em outubro de 2024, depoimentos de 65 médicos que serviram em Gaza e testemunharam cenas parecidas com as que ele e seu amigo viram. No mês seguinte, o doutor Nazim Mamode testemunhou diante do Parlamento Britânico: em Gaza, tratou diversos pacientes atingidos por drones snipers. “Os drones desciam e abatiam civis, crianças. E nós recebíamos relato após relato. Isso não era, sabe, algo ocasional”, disse ele aos deputados. “Isso acontecia dia após dia, após dia, operando crianças que diziam: ‘eu estava deitada no chão depois que uma bomba caiu, e esse quadricóptero desceu, pairou sobre mim e atirou em mim’.” Existe uma documentação extremamente farta, de fontes que não têm nenhuma relação com o Hamas, com a ONU ou mesmo com os palestinos, que demonstra de forma inequívoca o caráter do genocídio imposto por “israel” a Gaza. Diante de todas essas evidências, não é nem mesmo necessário refutar a acusação repetida cansativamente por Rozenszajn de que o Hamas utiliza civis como escudos humanos. Na verdade, nenhuma única alegação do major das FDI consegue se sustentar. Mas ele não precisa provar nada do que diz. Afinal, não passa de um propagandista. E um propagandista da escola de Joseph Goebbels: repete mil vezes as suas mentiras, até que as pessoas pensem que são verdade. Nada inesperado, vindo de um representante de um regime que segue não apenas a escola de Goebbels, mas também a de Hitler. -------------------- * Jornalista especializado em política internacional, autor dos livros-reportagem “O povo esquecido: uma história de genocídio e resistência no Donbass” e “Bloqueio: a guerra silenciosa contra Cuba”. Assista: https://www.instagram.com/reel/DNBmC8XxuHB/?igsh=a2NmOTVxdTZ5Zjg1