por Luís Varese ---------
Não é o fantasma das boas novas previstas pelo Manifesto Comunista, mas o fantasma da guerra trazido pelo império.
A OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que originalmente pretendia "defender a Europa e sua crise espiritual, ética e moral", tornou-se hoje o braço armado de um império decadente. Uma OTAN desprovida de personalidade e armada apenas para defender as ideias fascistas que dominam a União Europeia.
Seu povo, seu eleitorado atordoado, em sua crise espiritual, ética e moral, está reagindo buscando alternativas que lhes digam respeito. Estão se voltando contra os migrantes, contra o racismo, contra a violência, contra o feminicídio, contra a homofobia. Estão se voltando contra a cumplicidade no infanticídio de crianças palestinas.
Hoje, a OTAN busca mais aliados na América Latina. Começou a pedido de Carlos Menem (presidente da Argentina de 1989 a 1999), tornando este país um "principal aliado" ao lado do Brasil (1999), e continuou com a Colômbia se tornando um "Parceiro Global" a pedido do presidente Santos e posteriormente implementado pelo presidente Duque.
Esta aliança do Atlântico Norte (alguns de nós somos do Atlântico Sul) não oferece nada de novo aos exércitos do nosso continente. Está treinando militares na luta contra o narcotráfico e o terrorismo. Não vou entrar em detalhes sobre isso. Eles deveriam estar treinando os maiores consumidores, bancos e paraísos fiscais.
Os militares são ensinados a torturar e matar crianças, como as quatro crianças de Guayaquil (Steven, Ismael, Joshua e Neemias, não vamos esquecer seus nomes) ou as dezoito mil meninas e meninos da Palestina.
O que eles chamam de terrorismo é, na grande maioria dos casos, mobilização popular contra medidas neoliberais ou, em alguns casos isolados, contra surtos de insurgência popular ou indígena, como é o caso do povo mapuche defendendo suas terras no sul do Chile. Daí o interesse do presidente Boric em, de alguma forma, ingressar na OTAN. A burguesia chilena, os fenícios do Pacífico Sul, também deve ter visto algum negócio para abrir.
Mas, e isso não deve ser ignorado, pois faz parte da mesma estratégia, eles chamam de terrorismo as gangues criminosas armadas dedicadas ao tráfico de drogas, assassinatos por encomenda e extorsão.
O outro elemento que eles acreditam que contribui é a diversificação de armas (maiores fornecedores de armas para os Nossos Exércitos Americanos) e a diversificação de fontes de inteligência, embora esta última esteja sob controle direto e indireto dos EUA.
A presença ianque é composta por cento e dez bases militares de vários nomes e tamanhos, segundo relatórios do Centro Mexicano de Relações Internacionais de 2024. Este número não inclui bases no Caribe, exceto Guantánamo, em Cuba, e Bluff e Corn Island, na Nicarágua (?).
Somam-se a isso os "centros de pesquisa sobre biodiversidade na Amazônia" e outros "escritórios" de inteligência ligados à Segurança Nacional de Washington.
Nesse mesmo contexto, o Congresso peruano (Resolução Legislativa 9654/2024-PE) e o Governo equatoriano autorizaram a circulação de tropas estrangeiras armadas por seus territórios. (Trata-se do Acordo entre o Equador e os Estados Unidos sobre o Estatuto das Forças e do Acordo sobre Operações Contra Atividades Marítimas Transnacionais Ilícitas. Ambos os acordos concedem imunidade a militares dos EUA, o que significa que estupradores ou ladrões americanos não podem ser julgados em tribunais nacionais.)
Hoje, está sendo noticiada a presença marítima de uma frota americana em águas caribenhas, navegando para o sul do continente. Os EUA justificam a ordem secreta de mobilização com a "luta contra o narcotráfico". Um submarino nuclear (contra o narcotráfico?) faz parte dessa frota. Até o momento, a única resposta foi do Presidente do México, que condenou todas as formas de intervencionismo.
Por que a OTAN então?
Até o momento, conseguimos manter um continente de paz na América Latina e no Caribe, um dos principais objetivos da CELAC e da UNASUL.
Lutamos pela unidade da Pátria Grande, que seria um poderoso espaço de negociação política, econômica, social e ideológica, onde Nossa América tem muito a dizer, oferecer e contribuir.
É claro que os interesses da Ganância Infinita, o grupo que controla a riqueza mundial, não são favoráveis a isso. Isso significaria aceitar que a paz é possível e, portanto, fábricas de armas são desnecessárias, pelo menos para nós.
Eles nos convencem a entrar em guerra, e o Chile pede para ingressar na OTAN. O Peru aprova a compra de 24 caças, a Colômbia discute a recuperação de uma ilha que caiu para o lado peruano devido à movimentação de rios, o Equador entrega Galápagos ao uso militar dos EUA e El Salvador cria um campo de concentração para migrantes.
Em outras palavras, nos deixamos vencer por uma lógica bélica contrária à nossa perspectiva histórica bolivariana.
No contexto do jogo geopolítico, o envolvimento da OTAN pode ser um elemento gerador de maior conflito entre a União Europeia, a Rússia e a China.
Isso também lhe confere o papel subordinado de cão de caça dos EUA, devolvendo à Europa de mentalidade fascista sua ambição e seu obsoleto desejo colonial. Para os exércitos locais, isso lhes confere importância e, talvez, presença em conflitos extracontinentais. Isso significa salários individuais mais altos para soldados e oficiais que participam de ações armadas.
Tudo isso afeta o nosso povo. Cada gasto com armas significa um dólar a menos para educação, saúde, empregos e moradia. Cada oficial ou guarda treinado é mais um civil torturado. Cada porto, sistema de transporte e rodovia ocupados são em defesa das grandes empresas, não do povo. E assim poderíamos continuar destruindo nossas parcas economias.
A presença da OTAN na América Latina vai contra a soberania e coloca em risco o Continente da Paz.
A Venezuela será o alvo imediato? A Nicarágua? Cuba? É para isso que a OTAN está aqui?
A Guiana, por exemplo, continua sendo uma base de operações de empresas petrolíferas contra a Venezuela. Mantém uma posição ilegal no Essequibo e segue as instruções dos EUA nessa questão. Embora alguns analistas considerem isso uma questão secundária, é altamente perigoso para a estabilidade e a paz na região. Uma frente militar nessa área poderia servir de pretexto para respostas violentas da OTAN, visto que uma das empresas petrolíferas é britânica (a British Petroleum). Nesse caos criado por Trump, tudo vale, e qualquer desculpa é válida.
Qual é a estratégia para nos manter ajoelhados ou nos conquistar?
Três elementos: desmantelamento do Estado e da economia, terrorismo criminoso contra a população e construção de ideologia e organização fascistas.
As lumpen-oligarquias (parafraseando Gunder Frank, considero insuficiente chamá-las de lumpen-burguesias) organizam, com aconselhamento direto da CIA e de think tanks dos EUA, três instrumentos para manter governos de extrema direita e desestabilizar governos progressistas.
Primeiro, os instrumentos clássicos do FMI e do Banco Mundial, com a coerção financeira, que também serve para fortalecer e enriquecer ainda mais essas mesmas oligarquias. Lavagem de dinheiro, paraísos fiscais, desvalorização e exportação de moeda estrangeira, a desculpa do déficit fiscal para desmantelar o Estado como entidade prestadora de serviços, etc., etc., tudo isso que nós, latino-americanos, conhecemos e sofremos.
Em segundo lugar, o uso da segurança cidadã como instrumento de coerção e repressão contra a população. O enfraquecimento institucional e a corrupção das "Forças da Lei e da Ordem" facilitam a infiltração (associação) do crime organizado a esses grupos. O General Álvaro Obregón, no início da Revolução Mexicana, disse que nenhum general resiste a um tiro de canhão de 50.000 pesos.
Isso permite que o exército seja mobilizado nas ruas, que essas forças sejam armadas com equipamentos antimotim e que a impunidade seja garantida por meio de decretos que suspendem garantias constitucionais. Os exemplos mais notáveis são o Equador, onde gangues criminosas receberam o status de "forças beligerantes", chegando a contratar a Blackwater, uma agência mercenária, como consultora externa, com imunidade diplomática. O Peru, onde membros da Polícia Nacional e do Exército fazem parte de gangues criminosas e, devido à fragilidade institucional, líderes honestos são fracos demais para reagir. El Salvador, onde uma figura perversa e perturbada como Bukele conseguiu tomar o poder com base em acordos fraudulentos com gangues de maras e, claro, com os Estados Unidos, incluindo a venda da perseguição de migrantes.
Resumindo, deixo o crime crescer, armo minha polícia para defender o estado lumpen-oligárquico e mantenho a população aterrorizada e subjugada pelas forças do crime e da "aplicação da lei". Martelo e bigorna contra a população civil.
Faz parte dessa estratégia bem pensada, toda essa novela inventada em torno do Trem Aragua, da presença da Venezuela e da migração promovida e simultaneamente reprimida pelos EUA.
Em terceiro lugar, devemos somar a isso a construção de organizações e gangues fascistas, promovidas da Espanha, especificamente de Madri, pelo VOX e outros grupos de extrema direita, que realizam reuniões sistemáticas para consolidar ideias e métodos organizacionais fascistas. Misoginia e racismo são elementos unificadores. O governo argentino é um exemplo perfeito disso, e um louco como Milei alcança impacto midiático com sua linguagem escória e atitudes que imitam as do mestre do circo, Donald Trump.
Com tudo isso, temos uma tremenda contraofensiva imperial, mas o povo está indo às ruas. Há presidentes corajosas, como Claudia Sheinbaum e Xiomara Alfaro. Há presidentes impetuosos, como Díaz-Canel, Maduro e Ortega. Há presidentes com táticas e alternativas, como Lula e Petro. Mas, acima de tudo, há e haverá pessoas nas ruas para recuperar o que foi perdido, consolidar o que foi conquistado e conquistar Pátrias Livres.
A unidade da esquerda, a construção de frentes populares e democráticas, a construção de comunidades autônomas, frentes de mulheres, frentes estudantis, frentes de bairro e defensores dos direitos humanos são tarefas contínuas.
Dos espaços midiáticos, Telesur, Prensa Latina, La Red Latam, La Base, La Base Comanche, People Dispacht, Página 12, La Jornada, Ruta Kritica, Amauta, Resumen Latinoamericano, NuestraBanderape. Inna Afinogenova, Sabina Berman, Daniela Pastrana, Laura Arroyo, Alondra Santiago, Julio Astillero, Pablo Iglesias, Orlando Pérez, Atilio Borón, Ignacio Ramonet, Juan Carlos Monedero, todos os blogs e espaços de combate midiáticos.
Compartilho esses nomes com vocês; eles são como um pequeno time de futebol disputando o primeiro lugar contra a ideologia inimiga. São apenas alguns. Pesquisem; vale a pena ouvir e compartilhar. Mesmo com os descrentes, não preguem apenas entre os apóstolos. Esta é a nossa batalha cultural.
A batalha das ideias deve ser travada e vencida. As vitórias só são alcançadas através da luta.
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Convido você a conhecer
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