A FARSA DO CONSELHO DE TRUMP: EXCLUI A PALESTINA E RECOMPENSA ISRAEL

Por Emir Mourad* ------------------------- Criado para “pacificar” Gaza, o órgão nasce sem representação palestina, dá assento ao agressor e tenta substituir a ONU por um clube de poder e impunidade. Trump batizou de “Conselho de Paz” aquilo que, na prática, é uma usurpação do direito internacional travestida de governança. O nome é uma fraude: não é um instrumento de paz, é um instrumento de mando. Não nasce para mediar — nasce para substituir, atropelar, contornar, impor. E a primeira prova de que o projeto é moralmente podre e politicamente criminoso é simples, brutal e incontornável: não há palestinos à mesa. O desenho do Conselho para tratar Gaza foi anunciado sem a participação palestina institucional. A Autoridade Nacional Palestina não foi convidada. Israel, ao contrário, foi chamado e aceitou. Isso não é “falha protocolar”. É o DNA do projeto: o povo destruído vira objeto administrativo; o Estado que destruiu vira “parceiro” de reconstrução. A vítima é silenciada; o agressor é premiado com cadeira. Chamam isso de “paz” para tentar embalar como diplomacia o que, no fundo, é colonialismo com gravata. ----------------- UMA ONU DE PEDÁGIO: PAGUE, SENTE-SE, OBEDEÇA ----------- O Conselho não se limita a Gaza. Ele vem com a ambição explícita de ser uma espécie de ONU paralela — só que sem Carta, sem regras, sem compromisso real com direitos humanos e, sobretudo, sem o inconveniente da igualdade formal entre Estados. Em vez disso, apresenta-se como um clube de “membros relevantes”, com a lógica do dinheiro e do alinhamento político. O simbolismo é revelador: assento permanente mediante contribuição bilionária. Isso transforma a política internacional em condomínio de luxo: quem paga entra, quem não paga assiste. O multilateralismo, que já sofre com a desigualdade estrutural, vira oficialmente uma vitrine de compra e venda de influência. E o que sustenta esse edifício é uma ideia antiga, reembalada com brutalidade contemporânea: a paz como produto, administrada por quem tem poder militar e financeiro para impor condições. Não é mediação. É tutela. ------------------------ GAZA COMO “NEGÓCIO”: RUÍNAS COMO ATIVO, CORPOS COMO DETALHE --------- A “paz” de Trump para Gaza veio acompanhada do que realmente importa para esse projeto: um imaginário imobiliário. Fala-se em “reconstrução” como se fosse uma página em branco para designers e investidores — com megaempreendimentos, zonas turísticas, arranha-céus, porto, aeroporto, corredores logísticos, parques industriais. A linguagem é de prospecto: “oportunidade”, “modernização”, “revitalização”. A tragédia humana vira rodapé. Mas Gaza não é um lote à disposição do capital. Gaza é um território massacrado, uma sociedade pulverizada por bombardeios, cerco e fome. E aqui está o ponto moral que o Conselho tenta enterrar: reconstrução sem justiça é continuação da violência por outros meios. Você não “reconstrói” um povo sob o mesmo sistema que o destruiu. Você não “planeja” um futuro apagando quem vive ali. A reconstrução apresentada como vitrine global — sem soberania palestina, sem autodeterminação, sem garantias concretas — é, na melhor hipótese, um protetorado. Na pior, é a institucionalização do saque: transformar a catástrofe em projeto e o projeto em lucro. --------------------- PAZ SEM PALESTINOS: O CRIME POLÍTICO QUE REVELA O FASCÍNIO AUTORITÁRIO -------------- A ausência palestina não é detalhe técnico; é a confissão do objetivo. Um Conselho que pretende “resolver” Gaza sem palestinos não quer construir paz — quer administrar a submissão. Quer produzir um resultado conveniente aos patrocinadores do poder: um território “estável” para negócios e segurança, com população domesticada, dependente, tutelada, sem voz, sem veto, sem direito real de decidir. Esse é o ponto em que o impulso autoritário de Trump aparece sem disfarce: a tentativa de substituir a ONU não é “inovação”, é repulsa a limites. A ONU, com todas as suas contradições, ainda carrega uma ideia perigosa para autocratas: a de que existem regras, direitos, responsabilidades, obrigações humanitárias, constrangimentos morais e jurídicos. Trump detesta isso. O que ele quer é o mundo como sala de negociações onde ele preside, define, ameaça, premia e pune. E quando esse método se projeta para o planeta, ele adquire forma: um autoritarismo internacional, uma diplomacia de “homem forte”, em que a legitimidade não vem do direito — vem do porrete e do cheque. --------------------- ISRAEL: O AGRESSOR RECOMPENSADO, O GENOCÍDIO EMBRULHADO COMO “PAZ” ------------ Nenhuma palavra sobre esse Conselho é honesta se não encarar o essencial: o que Israel fez em Gaza é genocídio — uma campanha de destruição que esmagou a vida civil, tratou a população como alvo coletivo. E isso não é só um veredito moral: está sob investigação no Tribunal Penal Internacional que apura o crime de genocídio. Diante disso, o “homem da paz” não aparece como mediador: aparece como fiador político da impunidade, tentando rebatizar a catástrofe como “reconstrução” e transformar o genocídio em vitrine diplomática. E Trump — agora fantasiado de “homem da paz” — foi peça decisiva na blindagem política desse massacre. O Conselho surge como o próximo estágio da impunidade: depois da devastação, vem a “administração” do pós-devastação. Depois da destruição, vem a propaganda. Depois do terror, vem a legitimação: o agressor sentado à mesa e o agredido mantido do lado de fora. A presença de Israel e a exclusão palestina não são apenas imorais: são uma declaração de guerra à própria ideia de justiça. É como propor um “conselho de paz” para uma casa incendiada convidando o incendiário para decidir a reforma — e proibindo os moradores de entrar na reunião. Se isso é paz, então a palavra perdeu o sentido. ----------------------- A “NOVA FASE” DO IMPERIALISMO: MAIS DESESPERADA, MAIS BRUTA, MAIS CÍNICA ---------- Esse Conselho não é um episódio isolado. Ele se conecta a um padrão: quando o império perde capacidade de liderança por consenso e legitimidade, ele tenta liderar por coerção, chantagem e espetáculo. A política externa vira show de força, ameaça tarifária, imposição de “soluções” feitas sob medida para aliados estratégicos e interesses corporativos. É a diplomacia do pedágio e do ultimato. É a substituição do diálogo por pressões. É a normalização do cinismo como método de governo global. E isso, paradoxalmente, revela decadência. Um poder seguro de si não precisa transformar a ordem internacional em franquia pessoal. Não precisa vender cadeira. Não precisa criar estruturas paralelas para escapar de regras. Esse tipo de brutalidade é sintoma de quem já não consegue sustentar hegemonia pela autoridade moral — e tenta sustentar pela força nua. -------------------- O QUE ESSE CONSELHO REALMENTE É -------------- O “Conselho de Paz” de Trump é: • Uma tentativa de privatizar a diplomacia e colocar a governança internacional em regime de assinatura. • Uma operação de apagamento palestino, transformando o povo palestino em problema logístico, não em sujeito de direitos. • Uma recompensa a Israel, que sai do massacre não com sanção e responsabilização, mas com convite e protagonismo. • Um ataque à ONU e ao que resta de freios multilaterais, para substituir regras por vontade presidencial. • Um retrato do imperialismo em fase mais agressiva, porque mais inseguro, mais contestado, mais incapaz de liderar sem violência política. Paz de verdade começa pelo óbvio: palestinos com voz, veto e soberania sobre o próprio destino; fim do cerco e da ocupação; responsabilização por crimes; reconstrução sob direitos — não sob tutela; vida civil protegida, não tratada como dano colateral aceitável. O resto é propaganda. E propaganda, quando vem acompanhada de exclusão, impunidade e prêmio ao agressor, não é só mentira: é cumplicidade. ----------------------
*Emir Mourad – Secretário Geral da Confederação Palestina Latino-americana e do Caribe (COPLAC), ex-Secretário Geral da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), ex-Conselheiro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR)