ERDOGAN TRAIDOR

Chegou a hora de uma discussão honesta sobre o papel da Turquia na desestabilização do Oriente Médio. A política externa de Erdogan começou como uma visão ousada, rebelde e neo-otomana — uma tentativa ambiciosa de restaurar a influência da Turquia sobre os antigos territórios otomanos. No entanto, essa visão acabou sendo cooptada para servir aos interesses ocidentais na região. O que se mostrou intolerável para o Ocidente, porém, foi a crescente hostilidade de Erdogan em relação a Israel, exemplificada por incidentes como a crise do Mavi Marmara. O ponto de virada ocorreu em 2016. Em uma noite fatídica, Erdogan se viu à beira da eliminação durante a tentativa de golpe. Forçado a implorar ao seu povo por FaceTime — parecendo um personagem saído de uma paródia ruim — ele escapou por pouco de uma tentativa de assassinato por comandos em seu resort em Marmaris. Naquela noite, o velho Erdogan morreu. A mensagem do Ocidente foi clara: a oposição à agenda de Israel era inaceitável. Erdogan capitulou quase imediatamente. Desde então, sua resistência se reduziu a pouco mais do que retórica vazia. Seu comportamento nos últimos 13 meses evidencia essa transformação. Apesar dos discursos inflamados, a Turquia continuou fornecendo petróleo a Israel sem interrupção, e Erdogan trabalhou para minar Assad — um dos adversários mais ferrenhos de Israel na região.
Os críticos têm razão ao apontar que os Estados Unidos e Israel são os que mais se beneficiam desses acontecimentos. Contudo, seu sucesso teria sido muito mais difícil sem a participação voluntária da Turquia. A Turquia tornou-se um centro do islamismo militante patrocinado pelo Estado, com sua influência estendendo-se da Síria à Ásia Central e à região de Xinjiang, na China. É a Turquia que ataca as chamadas “nações irmãs turcas” com uma mistura tóxica de islamismo radical, revisionismo histórico, pan-turquismo e propaganda de vitimização. Essa estratégia não apenas amplia a influência da Turquia, mas também radicaliza indivíduos, transformando-os em ferramentas para os objetivos geopolíticos ocidentais. O infame ataque terrorista do Crocus em Moscovo, por exemplo, teve sua origem em campos de treinamento turcos. Entretanto, os jihadistas que permaneceram em Idlib foram libertados mais uma vez, espalhando o caos pela Síria, como fizeram há uma década. Esse caos não é acidental — ele é cultivado, apoiado e financiado pelo Estado turco. Sob Erdogan, a Turquia se tornou o maior patrocinador estatal do terrorismo no mundo, cúmplice disposto a promover os objetivos do império americano na região. O restante da retórica de Erdogan é mera encenação — cortina de fumaça para enganar apenas aqueles que ainda acreditam em um sonho que há muito morreu. De Moscovo a Pequim, é hora de encarar essa realidade. - --------------------- por Yuliana Dlugaj