por Thomas de Toledo ----------
Um dos maiores farsantes do mundo atual acaba de falecer. O nome do picareta é Erich von Däniken, que escreveu um livro chamado “Eram os Deuses Astronautas”. Um amontoado de besteiras que surfa na pseudociência para promover desinformação e ignorância.
Vale deixar claro desde o início: as ideias de Daniken nunca foram levadas a sério pela Arqueologia, pela História ou por qualquer área científica. Desde os anos 1960, suas teses foram amplamente refutadas por especialistas, apontando erros factuais básicos, uso seletivo de fontes, distorções iconográficas e interpretações completamente fora de contexto. Isso não é uma “polêmica em aberto”. É um assunto encerrado academicamente há décadas.
Ora, não vou negar que esse livro foi importante quando eu era criança e até me ajudou a me interessar por arqueologia. Mas, depois de fazer uma graduação em História e um doutorado em Arqueologia, e de ter conhecido pessoalmente boa parte dos sítios mencionados no livro, hoje posso dizer com toda tranquilidade que aquilo tudo é uma baboseira sem fundamento algum.
Não existe prova alguma de que seres de outro planeta visitaram a Terra no passado, muito menos que atravessaram a galáxia para vir pra cá só para empilhar pedras. O que existe é um fenômeno de nome feio chamado pareidolia, que significa que nosso cérebro associa imagens desconhecidas às referências que formamos anteriormente. Em outras palavras, quem gosta de ficção científica, vê cenas marcantes no cinema, mas nunca estudou culturas antigas, projeta nelas a referência que já tem na cabeça.
Ciência não funciona por achismo nem por “isso me parece estranho”. Funciona por hipóteses testáveis, evidências materiais, datações, estratigrafia, contexto cultural, comparação etnográfica e possibilidade de refutação. A pseudoarqueologia ignora tudo isso e opera como teoria da conspiração: parte da conclusão e força os dados a se encaixarem nela.
Então, se uma pessoa não sabe que determinado povo desenhava um sol de forma achatada, vai dizer que isso se tratava de um disco voador. Se vê um desenho de uma cabeça alongada, acha que é um ser de outro mundo. Nessas maluquices, Daniken interpretou uma árvore da vida maia como uma espaçonave. E muitos trouxas desinformados compraram a ideia.
O detalhe inconveniente para esse pessoal é que todas as construções citadas por essa literatura sensacionalista têm explicações arqueológicas bem documentadas: técnicas construtivas conhecidas, ferramentas compatíveis com a época, restos de canteiros de obra, marcas claras de trabalho humano, organização social identificável e continuidade cultural. Nada aparece “do nada” e nada exige tecnologia extraterrestre.
Mas vamos jogar a real. Se nosso mundo desaparecer e tudo o que sobrar for um gibi do Homem-Aranha, será que no futuro vão acreditar que as pessoas do nosso tempo soltavam teias pelos punhos? É exatamente nesse nível de imbecilidade que se enquadra a suposta teoria dos alienígenas do passado. Uma ideia que não se fundamenta em nenhum achado real que a confirme.
E tem mais: essa besteira é, além de tudo, racista. Ela credita a extraterrestres a construção das pirâmides do Egito, do México e do Peru, mas não o Coliseu de Roma ou o Partenon da Grécia. Ou seja, indígena e africano não sabem construir coisas grandes e precisam de ajuda de outro planeta, enquanto o branco europeu seria naturalmente genial.
Esse discurso não é novo. Ele repete, em versão pop e pseudocientífica, o velho racismo colonial do século XIX. Antes eram “atlantes”, “arianos primordiais” ou “raças perdidas”. Hoje são alienígenas. O preconceito é o mesmo, só mudou a fantasia.
E não adianta dizer que é “só imaginação”. Ficção científica é ótima como entretenimento. O problema começa quando isso é vendido como explicação histórica real, enganando pessoas e minando a confiança no conhecimento produzido com método, estudo e evidência.
Bom, não poderia deixar de dizer que, graças a esse besteirol sem fim, nós, que trabalhamos com educação e divulgação científica, somos obrigados a perder um tempo imenso explicando o que não é, quando deveríamos estar explicando o que aconteceu de verdade.
Cansa ter que explicar que o Dr. Spock, o Jabba the Hutt, o Predador, o Cocoon e o Oitavo Passageiro são personagens fictícios e não existem. Pois é, sinto dizer, mas não existem Hobbits, Ewoks ou Godzilla. Todos eles são ficção, exatamente como essa bobagem dos alienígenas do passado.
O estrago desse discurso não é só intelectual. Ele alimenta o negacionismo científico, o desprezo pelo conhecimento e a ideia de que especialistas são inúteis. É o mesmo terreno fértil que produz terraplanismo, antivacina, cloroquina e curas milagrosas. Não é coincidência.
Mas tem gente que prefere acreditar num maluco de cabelo arrepiado e ser negacionista da ciência. Fazer o quê? Tome cloroquina até cair da Terra plana. É verdade esse bilete.
