Em 1552, o alemão Hans Staden, capturado pelos tupinambás, viu de perto o que estava por vir: o prisioneiro, já engordado e casado com uma mulher da aldeia, foi pintado de vermelho e preto, recebeu uma corda ceremonial no pescoço e, diante de centenas de pessoas que cantavam e dançavam, olhou nos olhos do homem que o mataria — e sorriu, desafiando-o a acertar o golpe com honra. Um único impacto da clava na nuca, o corpo desabando, e a aldeia inteira comemorando como se tivesse conquistado o mundo. Não era loucura. Era o coração da cultura tupinambá.
Os tupinambás eram o povo tupi mais temido do litoral brasileiro no século XVI, donos de aldeias grandes e fortificadas que abrigavam milhares de pessoas. Viviam da mandioca, da caça, da pesca e, acima de tudo, da guerra constante contra tribos vizinhas. Para eles, a guerra não era exceção — era a regra. Matar um inimigo em batalha dava prestígio; capturá-lo vivo dava glória eterna. O prisioneiro não era tratado como escravo: recebia comida farta, liberdade para andar pela aldeia, até mulher e filhos. Meses ou anos passavam assim, tempo suficiente para ele aprender a língua, entender os costumes e, paradoxalmente, ser incorporado à comunidade antes de ser sacrificado.
O ritual de execução era o ponto alto dessa lógica de vingança infinita. Chamado de "matar para vingar", ele fechava um ciclo e abria outro. O guerreiro escolhido para dar o golpe ganhava um novo nome — algo como "Jaguar que Mata" — e carregava para sempre a responsabilidade de que, um dia, alguém da tribo do morto viria cobrar o sangue. Após o golpe perfeito na nuca com a iwara pemã (clava de madeira pesada com bordas afiadas), as mulheres esquartejavam o corpo, coziam as partes em grandes panelas de cerâmica e distribuíam a carne entre todos. Comer o inimigo valente não era fome nem sadismo: era absorver sua coragem, sua força espiritual, impedir que ele fosse para o além com sua essência intacta e, ao mesmo tempo, honrá-lo como adversário digno.
Europeus como Hans Staden, Jean de Léry e André Thevet registraram essas cenas com horror misturado a fascínio, e gravuras como a de Theodor de Bry espalharam a imagem do "selvagem canibal" pela Europa, servindo de justificativa moral para a colonização. Mas os próprios tupinambás explicavam aos cronistas: "Nós o matamos e comemos para que ele não nos mate no mundo dos espíritos, e para que sua bravura viva em nós". Era uma guerra total, onde a morte física era apenas parte de uma disputa que atravessava gerações.
Com as doenças trazidas pelos portugueses e as guerras coloniais, os tupinambás praticamente desapareceram no século XVII, assimilados ou exterminados. O que resta são esses relatos e imagens — testemunhas de uma sociedade onde honra, vingança e ritual se entrelaçavam de forma tão profunda que, para eles, devorar o inimigo era o maior ato de respeito que se podia oferecer a um guerreiro de verdade.
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