PIRATARIA E TERRORISMO DE ESTADO: TRUMP E A ESCALADA DO IMPERIALISMO NORTE-AMERICANO CONTRA A SOBERANIA NACIONAL DA VENEZUELA
Por Emir Mourad ---------------
A Venezuela foi colocada, mais uma vez, no alvo do imperialismo norte-americano — não com sutileza diplomática, mas com bandidagem institucional: primeiro o cerco econômico, depois a tentativa de impor “governo paralelo”, e por fim a força bruta.O que os EUA fizeram em 3 de janeiro de 2026 — bombardeios, operação especial e sequestro do presidente para anunciar que passariam a ‘administrar’ a Venezuela — configura uso unilateral da força e intervenção armada, em violação frontal da Carta da ONU e do princípio da soberania nacional.
Uma verdade deve ser cravada sem rodeios: o regime político e o governo da Venezuela — seja qual for a avaliação que se faça dele — são assunto exclusivo do povo venezuelano. Isso é soberania nacional. Nenhuma potência tem mandato para “corrigir” pela força a vontade de uma sociedade, sequestrar seu destino e rebatizar tutela colonial como “transição”.
Chame pelo nome: isso não é “transição democrática”. É pirataria geopolítica. É sequestro de Estado. É terrorismo de Estado praticado por uma potência que se considera acima de qualquer regra.
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1) A MADRUGADA DO SEQUESTRO: QUANDO O IMPÉRIO ABANDONA O VERNIZ E EXIBE O PORRETE
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Segundo a Reuters, a operação (“Operation Absolute Resolve”) envolveu meses de planejamento, inteligência e forças especiais, com ataques a defesas e alvos militares e, em seguida, o sequestro do presidente Maduro em Caracas — removido do país sob custódia dos EUA.
E Trump, longe de fingir pudor, afirmou que os EUA “vão comandar” a Venezuela até uma “transição” — uma frase que não descreve uma prisão: descreve ocupação de fato, tutela colonial e confissão de objetivo político.
Isso é o império dizendo: “o país não é de vocês”.
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2) O CERCO ECONÔMICO: SANÇÕES COMO ARMA DE FOME E CHANTAGEM
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Antes dos aviões e comandos, veio o estrangulamento.
A Ordem Executiva dos EUA (Executive Order – E.O.) 13808 (24/08/2017) formalizou restrições financeiras que atingiram a capacidade do Estado venezuelano de operar no sistema internacional — um passo decisivo na transformação de “sanções” em guerra econômica.
A E.O. 13884 (05/08/2019) subiu o tom ao bloquear propriedades e interesses do chamado “Governo da Venezuela” sob jurisdição dos EUA — um bloqueio amplo que, na prática, vira um embargo travestido de legalidade doméstica.
Esse método é clássico: você quebra a respiração econômica do país e depois aponta para o sufoco como “prova” de falência. É coerção, não “princípio”.
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3) O “GOVERNO PARALELO”: ENGENHARIA DE REGIME COMO FRAUDE DE SOBERANIA
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A etapa seguinte foi a tentativa de rebatizar a soberania venezuelana por decreto estrangeiro: o reconhecimento de uma autoridade alternativa como “legítima”, para corroer o Estado por dentro e por fora, disputar ativos e fabricar “consenso” diplomático sob ameaça econômica.
Isso também tem nome: intervenção — a imposição, por fora, de quem pode ou não governar um país.
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4) PETRÓLEO: O SAQUE COMO OBJETIVO E A MENTIRA COMO JUSTIFICATIVA
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Quando Trump mistura “prisão” com “administrar o país”, a narrativa cai sozinha. Especialistas ouvidos pela Reuters apontaram a contradição: ou é operação de “aplicação da lei” ou é projeto político de controle estatal — as duas coisas juntas expõem a ilegalidade e a intenção real.
A máscara “moral” (democracia, anticorrupção, antinarcóticos) funciona como embalagem. O conteúdo recorrente é domínio estratégico — e a Venezuela, por razões óbvias, é um prato cobiçado.
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5) LEGALIDADE INTERNACIONAL? O IMPÉRIO RI — E AVANÇA
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E o elemento mais cínico: as “acusações criminais” repetidas para justificar agressão e sequestro carecem de prova material pública, verificável e submetida a escrutínio independente. Sem evidência transparente, viram apenas biombos narrativos — um álibi de conveniência para vestir de “lei” aquilo que é força, chantagem e intervenção.
O ponto central: tráfico de drogas e acusações criminais não justificam ataque militar sob o direito internacional; uso da força exige critérios restritos (autodefesa/ONU). Ainda assim, o ato foi executado — porque o imperialismo conta com a impunidade.
O precedente é venenoso: se uma potência decide que pode sequestrar um chefe de Estado e anunciar tutela política, nenhum país do Sul Global está seguro. A regra vira esta: soberania existe até contrariar interesses do centro.
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6) A RESPOSTA NECESSÁRIA: COMBATER O IMPERIALISMO NORTE-AMERICANO COM ENERGIA — SEM ACEITAR A NORMALIZAÇÃO DO CRIME
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“Combater” aqui não é espetáculo; é estratégia. É recusar a linguagem que torna aceitável a barbárie. É enfrentar a bandidagem imperial em quatro frentes:
Diplomática: condenação explícita e coordenação regional para afirmar a soberania nacional da Venezuela como princípio não negociável. O próprio Lula classificou a ação como cruzando “linha inaceitável” e pediu resposta da ONU.
Jurídica: denúncia formal do uso unilateral da força, insistência em investigação e responsabilização internacional — mesmo que o império tente blindar-se pelo poder.
Econômica e informacional: expor sanções como chantagem e desmontar propaganda que chama cerco de “ajuda” e ocupação de “transição”.
Popular e política: solidariedade organizada e permanente, porque império prospera quando a indignação vira ruído e passa.
O que aconteceu não foi “missão”. Foi pirataria: tomar um país pela garganta — com bloqueio, depois com golpes de reconhecimento, e por fim com armas — e chamar isso de “ordem”.
E se há algo que a história da América Latina ensina é simples: quando o império sente que pode, ele volta. Quando encontra resistência, ele recua.
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*Emir Mourad é Secretário Geral da Confederação Palestina Latino-americana e do Caribe (COPLAC), ex-Secretário Geral da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), ex-Conselheiro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR)
