Sem a arma nuclear, o Brasil subcolonizaria a América Latina para Trump

O presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca (Foto: REUTERS/Brian Snyder) ----------------- Com aliados nuclearizados que nos deem suporte, poderemos evitar nossa subordinação aos Estados Unidos sem confronto -------------- por J. Carlos de Assis no Brasil 247 ------- A Globo News sinalizou ontem a estratégia do Itamaraty, certamente acolhida por Lula, para estabelecer a posição brasileira frente à crise desencadeada pelo sequestro de Maduro: trata-se de colocar o País na posição de um subcolonizador continental, subordinado a Trump, para ajudá-lo a estabilizar a Venezuela nas condições norte-americanas. Isso é o que mais agradaria às classes dominantes brasileiras: nenhuma briga com Washington, desde que possam continuar acumulando suas fortunas à custa do estrangulamento das camadas mais baixas de nossa população, do esmagamento de nosso Estado Social e de transferências ininterruptas de recursos públicos para o setor financeiro especulativo, da ordem de R$ 1 trilhão só de juros anuais. Para mim isso é uma infâmia. Ou reagimos, ou entregamos nossa soberania de forma definitiva aos norte-americanos. Trump prepara para Bogotá uma operação similar à de Caracas. Outras provavelmente virão, sob pretextos diversos, na América Latina, já que ele não tem limites para mentir - como se constata pelo recuo na acusação a Maduro de que seria chefe do tráfico de drogas para os EUA. Assim, nas condições atuais, ninguém poderá evitar o domínio absoluto do hemisfério pelos EUA. Diante disso, reitero a sugestão que dei no artigo anterior para que os verdadeiros nacionalistas liderem grandes manifestações populares, que estamos em condições de promover através da revista Mutirão Solar e do Instituto Mutirão Solar, a fim de pressionar Lula a ancorar a soberania brasileira numa aliança militar com as potências nucleares que participam do BRICS, ou seja, China, Rússia e Índia. Como se viu na crise dos mísseis em Cuba em 1963, só uma potência global com poder global pode confrontar outra potência com poderio igual. Isso evita a guerra, em lugar de promovê-la. Entretanto, quando uma potência nuclear ameaça uma nação que não tem um arsenal de bombas atômicas, esta última está condenada à subordinação e à perda de sua soberania, inclusive a soberania sobre seus recursos naturais, como acaba de acontecer com a Venezuela. O Brasil abdicou de produzir armas nucleares e sacramentou isso na Constituição de 1988. Portanto, diante das ameaças de Donald Trump ao continente, nossas lideranças têm o dever moral de compensar essa fraqueza política voluntária por uma aliança estratégica. Chamo essa aliança de OTASP - Organização do Tratado do Atlântico Sul e do Pacífico, nos moldes da OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte. O artigo 5 do tratado da OTAN estabelece que a agressão a qualquer de seus membros constitui agressão a todos eles. A OTASP reproduziria exatamente esse artigo em seu tratado constitutivo. Aliás, é o que, por enquanto, está colocando a Dinamarca e a Groenlândia a salvo do voraz apetite de Donald Trump. Por enquanto. É que ele, arrogante como ninguém, pode passar por cima desse artigo de forma arbitrária e explodir de vez a organização militar, para frustração dos europeus já enfraquecidos por seu estúpido envolvimento na guerra da Ucrânia. É claro que, no confuso quadro geopolítico atual, não se sabe qual seria exatamente a posição de China e Rússia em face da proposta de criação da OTASP. Muitos acreditam que o assalto a Caracas por Trump foi precedido por um "acordão" com Moscou e Pequim para que fiquem de mãos livres a fim de que resolvam a seu modo a guerra na Ucrânia e a questão de Taiwan. Não acredito nisso. São situações absolutamente distintas. A questão da Ucrânia é uma guerra em curso com um acordo final já encaminhado. Já Taiwan é considerada por Pequim uma "província rebelde", que um dia inexoravelmente voltará a suas mãos, com guerra ou por acordo – como aconteceu com Hong Kong. Mais difícil, para mim, é acreditar que essas duas potências nucleares, a maior delas a caminho de tornar-se hegemônica no mundo na frente econômica, aceitem entregar a Donald Trump todo o hemisfério ocidental como ele quer. Portanto, está nas mãos principalmente da diplomacia brasileira a constituição da OTASP, nos mesmos moldes da organização do BRICS. Bastará aos líderes desse bloco, principalmente Lula, por comandar um país diretamente ameaçado em sua soberania - tendo em vista a vontade manifesta abertamente por Washington de se apoderar de todo o "nosso hemisfério" - convencer seus parceiros a virar a chave e transformá-lo numa organização militar com poder de confrontar Donald Trump, ou qualquer outro futuro presidente dos EUA tão louco quanto ele. Essa questão tem que ser resolvida logo. Não pode esperar pelos trâmites diplomáticos convencionais. Os países com poder nuclear da OTASP devem se preparar para instalar bases militares na América Latina antes de que Trump assuma o controle de todo o continente. É que, operando numa estratégia defensiva, fica mais fácil para a OTASP impor aos EUA a responsabilidade pela deflagração de uma guerra atômica, que eles naturalmente evitarão. Para implementação da estratégia aqui sugerida será indispensável neutralizar o poder que as classes econômicas dominantes têm sobre o Estado e o Governo brasileiros. Elas se encontrariam numa posição de grande conforto se o povo aceitasse, pacificamente, a parceria para a estabilização da Venezuela no acordo do Brasil com Trump. Vão investir pesadamente nisso. Assim, a mobilização social tornou-se um imperativo para a defesa da soberania brasileira, antes que as oligarquias econômicas a vendam a Donald Trump. Com a revista Mutirão Solar e o Instituto Mutirão Solar, vamos começar a organizar o mais breve possível, junto com sindicatos e outras entidades da Sociedade Civil, debates nos sites e blogs, manifestações de rua e passeatas a fim de pressionar Lula a assumir uma posição firme em favor da transição de parte do BRICS para a OTASP. Com aliados nuclearizados que nos deem suporte, poderemos evitar nossa subordinação aos Estados Unidos sem confronto - que, devido aos precedentes, poderia nos ser imposto pelo troglodita de Washington! ------------------------ J. Carlos de Assis, o aitor, é Economista, doutor em Engenharia de Produção pela UFRJ, professor de Economia Internacional na Universidade Estadual da Paraíba e autor de mais de 20 livros sobre economia política.