Analista russo diz que Venezuela, Irã e Brasil são alvos de Trump
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por Luiz Carlos Azenha na Revista Forum -------
Para o analista russo Dmitry Evstafiev, Donald Trump não atingirá seu objetivo de longo prazo sem antes controlar as reservas de petróleo da Venezuela e eventualmente Irã e Brasil.
O doutor em Ciência Política escreveu um artigo em que disse que o presidente dos Estados Unidos não está blefando quando fala em ocupar a Groenlândia.
Para Evstafiev, o projeto de Trump tem três objetivos: “Reinterpretar a Doutrina Monroe [‘a América para os estadunidenses’]; transformar os EUA em uma superpotência energética que monopoliza as regras do jogo no mercado de hidrocarbonetos, particularmente no comércio regional; aprimorar o status dos EUA como uma superpotência do Ártico – uma posição que os EUA atualmente ocupam apenas nominalmente”.
De acordo com o texto do analista russo, o sequestro de Nicolás Maduro e o controle indireto sobre o governo de Caracas foi só o primeiro passo.
Os Estados Unidos não podem se tornar uma superpotência energética a menos que controlem os recursos petrolíferos da Venezuela (e, eventualmente, do Brasil e do Irã) e eliminem as “frotas paralelas” o mais rápido possível. Da mesma forma, obter o controle legal total sobre a Groenlândia é essencial para consolidar os EUA como uma potência no Ártico. Caso contrário, será difícil para os EUA manterem a competitividade como superpotência energética após 2030.
As ‘frotas paralelas’ a que se refere o professor são petroleiros que transportam o produto de países sob sanção dos Estados Unidos, como a Venezuela, o Irã e a Rússia.
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Apertando a Rússia
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Para obter seu objetivo, Trump autorizou a maioria do Senado dos EUA a colocar em votação uma lei que permitirá a Washington punir todas as empresas de países que se envolverem com o setor de petróleo e gás da Rússia, dentre os quais se destacam a China, a Índia e o Brasil.
De acordo com a Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis), a Rússia fornece mais de 60% de todo o diesel importado pelo Brasil.
Trump trabalha por criar uma clivagem entre Rússia e China, através de um fim da guerra da Ucrânia que permita retirar as sanções à Moscou e fazer parcerias com o país no setor de petróleo e gás.
Os EUA ainda tem reservas comprovadas de quase 50 bilhões de barris de petróleo. Os EUA consomem 23 milhões de barris por dia em diesel, gasolina e derivados. Ou seja, as reservas estariam esgotadas em menos de 6 anos. Porém, com novas técnicas para retirar o petróleo do solo Washington poderia estender este prazo.
Olhando num horizonte longínquo, porém, o país teria de contar com as reservas de outros países, inclusive da Groenlândia.
O Serviço Geológico dos EUA estima em 90 bilhões de barris as reservas existentes dentro do Círculo Polar Ártico.
Segundo o cientista político russo, os europeus só agora se deram conta de sua quase completa dependência do poderio militar dos EUA:
A constatação de sua própria fragilidade militar perturba profundamente os europeus. Grandes países europeus poderiam estar dispostos a sacrificar a Groenlândia. Contudo, se Trump for bem-sucedido, essas nações se tornariam essencialmente seu “recurso”, perdendo sua voz política até mesmo dentro da OTAN, que antes era considerada uma “união de democracias iguais”. Além disso, caso a operação relativa à Groenlândia seja concretizada, nada se interporia entre Trump e o Canadá.
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Beijing fez o trabalho de casa
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Há vozes que alertam, no entanto, que a era dos hidrocarbonetos vai eventualmente chegar ao fim e a China fez “o trabalho de casa”. Escrevendo no New York Times, o historiador Adam Tooze lembrou:
A determinação com que Pequim tem buscado energias alternativas na última geração reflete seu desejo de não se submeter aos caprichos de Washington e à sua política violenta e volátil. A China hoje é, antes de tudo, uma gigante potência em energia fóssil — de longe a maior que o mundo já viu. Mas sua principal fonte de energia é uma que os Estados Unidos não controlam: o carvão.
Tooze também disse que, seguindo o modelo soviético, o poder industrial da China decorre do consumo de eletricidade, agora eletro-tech:
Para eventualmente substituir suas usinas termelétricas a carvão, a China incentivou empreendedores privados a construir fábricas inovadoras de baterias e painéis solares, que hoje dominam os mercados mundiais.
