A PERGUNTA FEITA AOS 16 ANOS: A TRAJETÓRIA DE UM ESPIÃO RUMO AO ESTADO.

Era 1968. Em Leningrado, um jovem magro estava em frente a um prédio imponente, com paredes de pedra amarelada e portas pesadas. Ali estava a sede da KGB. Entrar exigia coragem; querer trabalhar lá dentro era algo completamente diferente. Ele fez ao guarda na porta uma única pergunta: "O que preciso fazer para trabalhar aqui?" A resposta foi curta e clara: "Obter um diploma em Direito." Naquele dia, ele saiu de lá não com um formulário ou convite, mas com um objetivo. UMA CRIANÇA CRESCENDO À SOMBRA DO CERCO Vladimir Putin nasceu em 1952 em um apartamento modesto em Leningrado. Ele havia perdido dois irmãos mais velhos antes mesmo de nascer. Um na infância, o outro durante a Segunda Guerra Mundial. Durante o Cerco de Leningrado, um período marcado na história da cidade durante a Segunda Guerra Mundial. Seu pai era um veterano que havia retornado ferido da frente de batalha. Sua mãe trabalhava em uma fábrica. A casa era pequena, a vida era difícil. As ruas eram implacáveis; daquelas onde só os fortes sobreviviam. Esse ambiente o impulsionou à disciplina desde cedo. Ele foi apresentado às artes marciais. Judô e sambô se tornaram não apenas um esporte, mas uma forma de treinamento de caráter. A paciência, o equilíbrio e o senso de tempo que ele aprendeu no tatame eram como ensaios para as estratégias que desenvolveria no futuro. Mas o que realmente o cativava eram os homens que viviam nas sombras. Histórias de espionagem, segredos de Estado, guerras invisíveis… Ele queria pertencer àquele mundo. O CAMINHO FRIO ATÉ O OBJETIVO Ele nunca se esqueceu da resposta à pergunta que fez no ensino médio. Ele entrou para a faculdade de direito. Quando se formou em 1975, foi aceito na KGB, um dos poucos selecionados entre centenas de candidatos. Passou dezesseis anos no mundo da inteligência. Aprendeu línguas estrangeiras, analisou e compreendeu as pessoas. Em meados da década de 1980, foi designado para Dresden, na Alemanha Oriental. Lá, trabalhou em estreita colaboração com a Stasi, o braço local da inteligência soviética. Eram os últimos anos da Guerra Fria. O equilíbrio era frágil. Os muros pareciam sólidos. Até novembro de 1989. A queda do Muro de Berlim não foi apenas o colapso de uma fronteira; foi o fim de uma era. Na sede em Dresden, documentos foram queimados às pressas. Os fornos foram preenchidos com arquivos. O sistema que ele fora treinado para proteger estava desmoronando diante de seus olhos. Naquela noite, o curso da história mudou. E o dele também. DE ESPIÃO A POLÍTICO Quando a União Soviética entrou em colapso em 1991, o oficial de inteligência retornou ao seu país. Leningrado havia se tornado São Petersburgo. Anatoly Sobchak, um ex-professor de direito, era o prefeito e buscava um conselheiro de confiança. Para Putin, essa era uma nova etapa. As habilidades que ele aprendeu na inteligência – construir redes de lealdade, controlar informações, ler as pessoas com precisão – se adequaram surpreendentemente bem à natureza da política. Sua ascensão foi rápida. Vice-prefeito, cargos importantes em Moscou, depois chefe da agência de inteligência. Em 1999, foi nomeado primeiro-ministro. Na véspera de Ano Novo do mesmo ano, o então presidente russo, Boris Yeltsin, renunciou inesperadamente. Ele lhe entregou o cargo temporariamente. Venceu as eleições realizadas três meses depois. Aquele garoto de 16 anos que estava no portão da KGB com um sonho agora era o líder da Rússia. E ele ocuparia esse cargo por mais de vinte anos. O PESO DE UM PROBLEMA Grandes transformações às vezes começam não com slogans estridentes, mas com uma pergunta feita em voz baixa. Um objetivo claro, uma vontade nutrida com paciência e um plano de longo prazo. Quando esses três elementos se unem, os limites de uma vida comum podem se expandir. A história está repleta de histórias de pessoas determinadas. Mas algumas pessoas influenciam não apenas o próprio destino, mas também o rumo de seu país e até mesmo do mundo. Às vezes, tudo começa com uma simples pergunta feita à pessoa certa.