FLÁVIO DINO PROÍBE MORDOMIAS E PENDURICALHOS NOS 3 PODERES

Ao proibir os supersalários no âmbito do serviço público, o ministro Flávio Dino atinge um ponto central da cultura elitista brasileira ----------------- Por Daniel da Costa ------ Essa é uma medida muito importante tomada por Flávio Dino, pois toca no cerne do elitismo brasileiro. No Brasil colonial e imperial, prevaleceram os privilégios de sangue, compadrio e herança social como forma de garantir a vida confortável de uma pequena elite, enquanto a maioria da população era escravizada ou vivia em condições de extrema exploração. Com a Proclamação da República, em 1889, e com o ideário de modernização e industrialização do país, consolidou-se a noção das chamadas “profissões nobres”, destinadas aos filhos da elite e aos representantes diretos de seus interesses. Assim, enquanto a grande massa da população colocava literalmente a mão na massa, as profissões ligadas ao trabalho intelectual ou que exigiam formação universitária — como direito, medicina e engenharia — passaram a ser socialmente distinguidas. Eram ocupações exercidas, majoritariamente, pelos filhos das elites econômicas. Desde o período colonial, com o envio desses filhos para estudar direito e medicina em Portugal, formou-se o costume de tratar advogados, médicos e engenheiros — em sua maioria apenas bacharéis, sem doutorado acadêmico — como “doutores”. Trata-se menos de uma antonomásia em sentido estrito e mais de um uso honorífico e socialmente consagrado, ligado ao prestígio de classe e não à titulação universitária. Outro traço marcante desse processo é que, “naturalmente”, desses mesmos grupos profissionais passaram a sair os quadros dirigentes do Estado brasileiro. Desde a origem da República, os cargos de decisão e comando permaneceram majoritariamente nas mãos dos filhos dessa elite, que reproduziu um sistema de privilégios de casta, estruturando uma burocracia voltada à autoproteção institucional. Os supersalários desse segmento — algo inconstitucional, criminoso e imoral — são expressão direta dessa lógica histórica de distinção e privilégio. Nesse sentido, a ação do ministro Flávio Dino representa um gesto de justiça ao enfrentar um dos pilares fundamentais do elitismo brasileiro.