NEOPENTECOSTALISMO, A FASE SUPERIOR DO CRISTIANISMO CAPITALISTA E BOZONARISTA NO BRASIL

Friedric von Syphud* --------------- Se Jesus Cristo gostasse de dinheiro, luxúria e poder estatal, teria vindo ao mundo como imperador de Roma — cercado por legiões, palácios e tributos — e não como filho de um carpinteiro e de uma jovem camponesa, nascido à margem do império e executado como subversivo. Esse dado elementar, quase constrangedor em sua simplicidade histórica, já seria suficiente para desmontar as pretensões espirituais do neopentecostalismo contemporâneo. O neopentecostalismo não é continuidade do cristianismo primitivo, mas sua inversão funcional e moral. Onde havia crítica à riqueza, instala-se a veneração do lucro. Onde havia suspeita do poder, consolida-se a aliança com o Estado. Onde havia comunidade, surge a empresa religiosa; onde havia fé, estabelece-se o mercado da fé. Essa forma religiosa opera como mecanismo primitivo de acumulação de capitais, baseado não na produção material, mas na extração sistemática de recursos financeiros e simbólicos de populações socialmente vulnerabilizadas. Dízimos compulsórios, ofertas emocionais e campanhas permanentes de arrecadação convertem a esperança em receita. O resultado é visível: megatemplos, impérios patrimoniais e a aquisição estratégica de emissoras de rádio e televisão, instrumentos centrais de reprodução ideológica e expansão do negócio religioso. Nesse sistema, o fiel não é sujeito espiritual, mas contribuinte disciplinado. A pobreza deixa de ser produto de relações sociais injustas e passa a ser tratada como falha individual, deficiência moral ou insuficiência de fé. A desigualdade não é denunciada — é santificada. A mitologia bíblica é reorganizada conforme as necessidades do discurso. Moisés, personagem envolto em narrativa mítica, é elevado à condição de arquétipo de liderança absoluta, mediador incontestável, legislador acima de qualquer crítica. Davi, cuja trajetória é marcada por crimes, violência e abuso de poder, é transformado em herói moral reciclável, desde que seus pecados sirvam para justificar a autoridade e a impunidade. O critério não é ético, mas funcional ao poder. Essa engenharia simbólica prepara o terreno para a defesa de valores profundamente anticristãos, entre eles a apologia da violência armada. O neopentecostalismo contemporâneo, especialmente no Brasil, passou a legitimar o acesso irresponsável a armas e munições, convertendo instrumentos de morte em símbolos de virilidade, fé e autoridade. A lógica é simples: quem tem Deus, tem direito à força; quem discorda, merece ser silenciado. Não se trata de desvio teológico, mas de coerência interna. Uma religião que glorifica hierarquia, obediência e prosperidade individual precisa, cedo ou tarde, naturalizar a violência como método de regulação social. A arma aparece como extensão do poder masculino, do medo e do controle — jamais como defesa da vida. É nesse ponto que o vínculo com o bozonarismo se torna umbilical. No Brasil, neopentecostalismo e bozonarismo não são aliados ocasionais, mas expressões complementares do mesmo projeto. Um fornece a linguagem sagrada; o outro, a plataforma política. Um promete salvação individual; o outro oferece autorização para o ódio, o racismo, a misoginia e a eliminação simbólica — ou física — do adversário. O bozonarismo ofereceu ao neopentecostalismo aquilo de que ele precisava: acesso direto ao Estado, influência legislativa, flexibilização de controles, estímulo à cultura armamentista e legitimação pública de uma moral autoritária. Em troca, recebeu púlpitos, fiéis disciplinados, campanhas eleitorais travestidas de cultos e uma teologia moldada para justificar a brutalidade como virtude. Essa fusão produz um cristianismo irreconhecível: nacionalista no discurso, mas antinacional na prática; moralista em público, permissivo com a violência e a corrupção; defensor da família enquanto destrói laços sociais; proclamador da vida enquanto flerta com a morte. Por isso, chamar o neopentecostalismo de fase superior do cristianismo capitalista e bozonarismo não é provocação retórica, mas descrição precisa. Ele representa uma fé totalmente adaptada à lógica da acumulação, da dominação e da exclusão. Uma religião que não transforma o mundo, mas o administra para poucos; que não liberta consciências, mas as formata. Nesse sentido mais amplo, o neopentecostalismo é uma involução civilizatória. Reduz a experiência humana a cálculo, medo, obediência e consumo. Substitui ética por sucesso, solidariedade por mérito e transcendência por espetáculo armado. Ao fazê-lo, aponta não para o futuro da humanidade, mas para seu esgotamento moral. Se existe um caminho para o fim da humanidade enquanto projeto ético coletivo — enquanto capacidade de pensar o comum, o diferente e o justo —, ele passa por essa forma de fé que transforma Deus em acionista, o pastor em gestor, o fiel em cliente e a violência em valor. O carpinteiro da Galileia jamais reconheceria esse império. E talvez seja exatamente por isso que precise ser constantemente distorcido, silenciado ou reduzido a logotipo eleitoral. ------------------------ (*) PhD em Filosofia Quântica e Geopolítica Aeroespacial pela University of Greenland e pesquisador do Institute for Advanced Studies of Nowhere. ------------------------ #neopentecostalismo #SemAnistiaParaGolpistas #BolsonarismoNuncaMais #CadeiaParaGolpistas #FalsosProfetas