O BANQUETE DOS DEUSES PODRES

por Vasco Morgado ------------- Há dias em que a história da vida não passa de um animal mitológico com fome de inocentes. E nesses dias, como hoje, apetece-me convocar as Fúrias, essas divindades antigas que perseguiam crimes sem prescrição, para lhes perguntar: “onde estivestes quando os palácios dormiam sobre ossos?” O caso Epstein, esse Minotauro de colarinho branco, não nasceu num labirinto por acaso. Foi alimentado com a carne macia da complacência, com o vinho doce da influência, com o silêncio cúmplice das instituições que se ajoelham perante o ouro. Durante décadas, o monstro passeou-se por salões iluminados, fotografado ao lado de príncipes, magnatas e presidentes. E agora, subitamente, todos descobrem o horror como se ele tivesse caído do céu, intacto e inexplicável, como um meteorito moral. Mas não caiu. Foi cultivado. Quando o nome de Jeffrey Epstein explodiu nos noticiários, assistimos ao teatro das virgens ofendidas. Instituições inteiras fingiram surpresa, como se nunca tivessem fechado os olhos às denúncias, como se nunca tivessem preferido a fotografia com o poderoso ao testemunho da vítima. E ao lado dele, como uma sacerdotisa sombria do culto do silêncio, estava Ghislaine Maxwell, não como exceção, mas como engrenagem. Mas este não é um caso. É um padrão. Lembram-se de Spotlight? O filme que nos mostrou a investigação do jornal The Boston Globe sobre os abusos sistemáticos na Igreja Católica americana? Ali também houve décadas de silêncio, transferências discretas, relatórios enterrados. A instituição que pregava a pureza escondia o lodo sob a batina. E quando a verdade veio à tona, quantos disseram: “Não sabíamos”? Não sabiam, ou não quiseram saber? O que dizer de Sean “Diddy” Combs, envolto em acusações graves que durante anos pareciam sussurros inconvenientes no meio da indústria do espetáculo? Do escândalo da Casa Pia, aqui no nosso quintal, onde durante décadas crianças foram abusadas enquanto o país fingia que o problema era apenas poeira debaixo do tapete? Jimmy Savile, canonizado mediaticamente até a morte revelar o que a vida conseguiu ocultar? Os casos em Oulu, na Finlândia, cidade de nome frio como o gelo moral que permitiu que crimes contra menores se prolongassem antes da indignação pública? E os relatos perturbadores de Anneke Lucas, ecoando redes e silêncios dos anos 70? São constelações do mesmo céu envenenado. No entanto, o que mais me inquieta não são apenas os grandes nomes, os que ocupam manchetes e alimentam documentários. São os anónimos. Os abusadores que nunca serão tema de um filme para os Óscares, os que não frequentam ilhas privadas nem estúdios de televisão, mas que operam no quarto ao lado, na escola da esquina, na família respeitável. Esses não terão obituário, quanto mais breaking news. E as suas vítimas carregarão o peso de um mundo que só se indigna quando há celebridades suficientes para garantir audiências. O mundo nunca foi uma existência pacífica. Sempre existiram pessoas más, frias como estrategas de Maquiavel, mas sem a sua franqueza literária. O mal não é uma anomalia recente; é uma presença antiga, tão velha como as tragédias gregas. O que varia é o verniz. O caso Epstein é mais um. Um a juntar a tantos outros que nunca deviam ter existido. Mas não é apenas o monstro individual que nos deve revoltar. É o coro que o protegeu. São os convites aceites, os processos arquivados, os acordos judiciais indulgentes, os relatórios ignorados. É a liturgia da conveniência. As instituições falham porque são feitas de pessoas. Mas falham sobretudo quando escolhem proteger a própria imagem em vez da dignidade humana. Preferem salvar a fachada do templo do que as crianças sacrificadas no altar invisível do poder. Depois, quando a maré sobe, vestem-se de indignação tardia. Não precisamos de mais escândalos mediáticos para provar que o mundo é imperfeito. Precisamos de memória. Memória feroz. Memória que não permita que cada novo caso seja tratado como uma exceção surpreendente, mas como sintoma de uma doença estrutural, a idolatria do poder e o desprezo pelos vulneráveis. As Fúrias mitológicas não descansavam. Não aceitavam acordos discretos nem comunicados bem redigidos. Perseguiam até que a verdade fosse exposta. Talvez nos falte isso, uma fúria ética que não se deixe anestesiar pela fama, pelo dinheiro ou pela conveniência. Porque enquanto continuarmos a fingir espanto a cada novo nome revelado, estaremos apenas a repetir o ritual mais antigo da hipocrisia humana: fechar os olhos, esperar que passe, e depois declarar-nos chocados. Nisto só há uma coisa a fazer: DENUNCIAR!
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