A omnipresença mediática do chamado “processo Epstein” cria a ilusão de que estamos perante um grande exercício de justiça em curso. Mas basta olhar com alguma distância para perceber que se trata, sobretudo, de um ritual de gestão do escândalo, não de um processo orientado para o esclarecimento pleno da verdade.
O caso envolve demasiadas figuras centrais do poder político, financeiro, académico e mediático ocidental - em vários continentes - para que se possa acreditar que venha a ser totalmente exposto enquanto vigorarem os atuais equilíbrios de poder nos Estados Unidos e na Europa. Esperar isso é esperar o impossível. O sistema judicial norte-americano, profundamente permeável a interesses económicos, influência política e negociações opacas, nunca demonstrou capacidade para se auto-incriminar quando o escândalo ameaça o próprio núcleo das elites.
A própria morte de Jeffrey Epstein em prisão continua envolta num nevoeiro que nenhuma explicação oficial conseguiu dissipar de forma credível. Falhas múltiplas, câmaras inoperacionais, vigilância suspensa - um conjunto de “coincidências” que, noutras circunstâncias, seriam suficientes para abrir investigações de largo alcance. Aqui, tornaram-se apenas mais um capítulo encerrado sem fecho.
O mesmo se passa com os chamados “ficheiros Epstein”: milhares de páginas sob segredo, libertadas a conta-gotas, com nomes ora insinuados, ora protegidos. Alguns dos envolvidos já desapareceram convenientemente da cena pública; outros alcançaram um estatuto tão elevado que sabem, com segurança, que dispõem de meios suficientes para relativizar, justificar ou simplesmente atravessar incólumes o escândalo. A justiça seletiva é, aliás, uma das marcas distintivas dos regimes que se dizem exemplares.
Tudo isto aponta para um desfecho previsível: o caso Epstein será arquivado na mesma prateleira simbólica de outros grandes enigmas contemporâneos - o assassinato de Kennedy, o 11 de Setembro, entre outros. Momentos de comoção, torrentes de informação, promessas de verdade… e, depois, o esquecimento progressivo, engolido pela sucessão de novos escândalos, novas crises, novas distrações.
É aqui que a questão se torna verdadeiramente política. A obsessão contínua com Epstein - com os vícios sexuais de algumas centenas de indivíduos poderosos - funciona também como mecanismo de desvio de atenção. Enquanto se disseca até à exaustão a luxúria criminosa de elites decadentes, ficam na penumbra processos muito mais devastadores, porque coletivos: a destruição sistemática da população palestiniana, os conflitos armados na Ucrânia, na Etiópia e noutros pontos esquecidos do globo, a fome estrutural em África, a falência progressiva das instituições internacionais, incluindo a ONU.
Troca-se um escândalo moral individual por tragédias humanas de massa. É uma escolha editorial, mas também uma escolha ideológica: falar de perversões privadas é menos perigoso do que falar de sistemas que produzem morte, miséria e desigualdade em escala industrial.
Talvez isso revele algo mais profundo sobre o nosso tempo. Num mundo saturado de população e de sofrimento, as mentes são orientadas para aquilo que choca sem exigir transformação estrutural. É mais confortável condenar monstros individuais do que questionar mecanismos globais que produzem milhões de vítimas anónimas.
A mente humana carrega esta contradição: entre o escândalo ruidoso dos ricos e a dor silenciosa dos pobres. A minha posição é clara. Entre a luxúria criminosa de alguns e a miséria estrutural de milhões, a prioridade não pode ser ambígua. A verdadeira obscenidade não está apenas na ilha de Epstein; está num mundo que continua a tolerar a fome, a guerra e a desigualdade como se fossem ruído de fundo da História. Os "Epstein" do nosso mundo sabem quem são e sabem o que merecem. Mas sabem que estão protegidos!
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por João Gomes

