Em outubro de 2023, o deputado estadual Requião Filho (PDT) subiu à tribuna da Assembleia Legislativa do Paraná para denunciar um esquema de espionagem que teria sido montado pelo governo Ratinho Junior (PSD). A denúncia apontava a criação, em 2021, de uma Diretoria de Inteligência dentro da Controladoria Geral do Estado (CGE), estrutura que tradicionalmente sempre foi atribuição da Secretaria de Segurança Pública. O caso paranaense ganhou força ao vir a público na esteira do escândalo da "Abin paralela", quando a Polícia Federal investigava o uso de um software espião da empresa israelense Cognyte para monitorar ilegalmente autoridades.
Requião Filho protocolou um pedido de informações ao Executivo em 26 de outubro de 2023, questionando quais sistemas de interceptação estavam sendo usados, e no mesmo dia enviou uma notícia-crime ao então ministro da Justiça, Flávio Dino, pedindo apuração federal sobre o "uso político de sistemas de inteligência" no Paraná, com suspeitas de monitoramento de parlamentares, magistrados e jornalistas. Em 30 de outubro, o deputado propôs a criação de uma CPI e se colocou à disposição para ser relator, mas a comissão nunca foi instaurada por falta de apoio da base governista na Assembleia, que controla a maioria das 54 cadeiras. Em meados de 2024, o Ministério Público do Paraná arquivou as apurações, o que levou o deputado a declarar que a denúncia foi "escondida debaixo do tapete da impunidade".
Oito anos antes, em março de 2016, outro paranaense protagonizava um dos episódios mais graves de abuso de autoridade da história judicial brasileira. O então juiz federal Sergio Moro, titular da 13ª Vara Federal de Curitiba, retirou o sigilo de interceptações telefônicas do ex-presidente Lula e divulgou publicamente uma conversa com a então presidente Dilma Rousseff, ocorrida em 16 de março de 2016. O diálogo captou Dilma dizendo a Lula que estava mandando "o Bessias junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse". A divulgação seletiva do áudio foi interpretada politicamente como uma tentativa de dar foro privilegiado a Lula para retirá-lo da jurisdição de Moro, mas o governo argumentava que se tratava apenas de um documento para eventual ausência do ex-presidente na cerimônia de posse. O próprio Moro reconheceu, em despacho, que a conversa foi captada depois do horário em que ele havia determinado a suspensão da interceptação — a ordem para encerrar as gravações foi dada às 11h12, mas o diálogo ocorreu às 13h32 e foi juntado aos autos pela Polícia Federal. Apesar de admitir que "não havia reparado antes no ponto", Moro considerou o fato irrelevante e validou a divulgação.
Tal ato foi ilegal. Por envolver a presidente da República, autoridade com foro privilegiado, caberia a Moro enviar as provas ao Supremo Tribunal Federal, e não divulgá-las. O ministro Teori Zavascki, então relator da Lava Jato no STF, declarou a decisão de Moro ilegal e as provas nulas em 22 de março de 2016. Mensagens de Telegram reveladas posteriormente pela "Vaza Jato" mostraram que os procuradores e o juiz estavam cientes da nulidade, mas interessados no "estrago" político — o procurador Deltan Dallagnol chegou a admitir que "a questão jurídica é filigrana dentro do contexto maior que é político". O episódio é apontado como catalisador do impeachment de Dilma e da subsequente prisão de Lula.
Em dezembro de 2025, novas revelações aprofundaram o histórico de monitoramentos ilegais ordenados por Moro. A Polícia Federal realizou uma busca e apreensão na 13ª Vara Federal de Curitiba e encontrou, em uma "caixa amarela" arquivada há mais de 20 anos, documentos que comprovam que o ex-juiz e atual senador grampeou autoridades com foro privilegiado usando delatores ainda em 2004 e 2005. O material, solicitado pelo ministro Dias Toffoli (STF) desde 2023, continha provas de interceptações ordenadas por Moro em julho de 2005. O caso teve origem quando Moro determinou a prisão do então deputado estadual Tony Garcia em 2004. O advogado de Garcia, Sérgio Costa, firmou um acordo de delação que, sob determinação de Moro, autorizava o delator a gravar autoridades, inclusive aquelas com foro privilegiado. Entre as provas recuperadas está uma gravação de 40 minutos com o então presidente do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR), Heinz Herwig, feita por um policial federal que se apresentou como secretário no escritório do delator. A PF também apreendeu registros de gravações envolvendo desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), responsável por revisar decisões da própria 13ª Vara. Desembargadores e presidentes de tribunais de contas só poderiam ser investigados mediante autorização do Superior Tribunal de Justiça (STJ). A investigação recuperou despachos de Moro ordenando novas tentativas de gravação após considerar que "as gravações foram insatisfatórias para os fins pretendidos".
Os episódios citados demonstram a utilização de estruturas de inteligência e interceptação para monitorar autoridades, violando preceitos legais e prerrogativas de foro. Em ambos os casos, as autoridades monitoradas possuíam prerrogativa de foro — parlamentares estaduais, desembargadores e a própria presidente da República —, o que tornaria qualquer investigação por instâncias inferiores (primeira instância ou Executivo estadual) ilegal. Enquanto o caso paranaense foi arquivado sem que a CPI saísse do papel por falta de apoio da base governista na Assembleia, o caso Moro tramita no STF e pode levar o ex-juiz, hoje senador, a responder por abuso de autoridade no Conselho de Ética do Senado, com risco de cassação do mandato e perda dos direitos políticos.
