Revolução Islâmica: 47 anos de história, conquista e cerco permanente

O atual líder supremo do Irã, Ali Khamenei, durante discurso ao longo da Revolução Iraniana, em outubro de 1978. (Foto: Khamenei.ir) ---------------------- Sayid Marcos Tenório ---- Especial para Opera Mundi ----------- 47 anos depois, Revolução Islâmica do Irã segue desafiando os três pilares do sistema imperial: a hegemonia militar dos EUA, a supremacia regional de Israel e a dependência econômica do Sul Global Sayid Marcos Tenório -------------------------- 47 anos depois de 1979, a Revolução Islâmica do Irã continua sendo um dos acontecimentos mais explosivos e mais difamados da história contemporânea. Não foi apenas a derrubada de uma monarquia corrupta, mas a ruptura de um povo com o sistema imperialista, que tratava o Irã como colônia estratégica. Por isso, a Revolução Islâmica não pertence ao passado. Ela segue em curso, travada hoje por meio de sanções, sabotagem, guerra psicológica e tentativas permanentes de “mudança de regime”. Para entender essa continuidade, é preciso voltar a 1953, ao golpe anglo-americano contra o presidente iraniano Mohammad Mossadegh, que destruiu uma experiência democrática e nacionalista para reinstalar o Xá Pahlavi como guardião dos interesses ocidentais no Golfo Pérsico. O Irã foi convertido em base militar dos EUA, mercado cativo do Ocidente e laboratório de repressão política via SAVAK, a polícia política treinada pela CIA e Israel. Esse foi o berço do autoritarismo que a Revolução demoliu. Nesse cenário, emerge o Imam Khomeini. Sua oposição não era moralista, mas estruturalmente anticolonial. Ele denunciou a “Revolução Branca” como uma modernização subordinada, rejeitou a lei de capitulação que tornava militares estrangeiros intocáveis perante a justiça iraniana e condenou a aliança do Xá com Israel. Preso e exilado, transformou-se na voz de uma nação silenciada, uma voz que atravessava fronteiras em fitas cassete, sermões e panfletos, criando uma consciência política impossível de sufocar. O retorno do Imam Khomeini ao Irã, em 1º de fevereiro de 1979, foi um terremoto político mundial. Mais de 6 Milhões de iranianos ocuparam as ruas, formando um corredor humano de mais de 30 quilômetros, do aeroporto até o cemitério de Beheshte Zahra. Não houve caos. Houve organização popular e dignidade coletiva, com o povo demonstrando que não precisava de tutela ocidental para ser politicamente maduro. No cemitério dos mártires, Khomeini decretou o fim do regime fantoche e instituiu um governo baseado na soberania popular. Ali nascia algo que o Ocidente jamais aceitaria: um Estado independente que combinava fé, justiça social e resistência ao imperialismo. Desde então, o Irã revolucionário construiu conquistas que a mídia hegemônica tenta apagar. Desenvolveu ciência e tecnologia próprias, indústria de defesa autônoma, medicina avançada, capacidade aeroespacial, energia e uma política externa multipolar. Forjou uma arquitetura regional de resistência contra ocupações e guerras de agressão. Fez tudo isso sob um regime brutal de sanções concebidas não para “negociar”, mas para asfixiar o povo e quebrar sua vontade política. O pretexto central desse cerco é o programa nuclear iraniano. Enquanto Israel possui armas nucleares fora de qualquer tratado e com proteção dos EUA, o Irã, que é signatário do TNP, é tratado como ameaça simplesmente por reivindicar tecnologia nuclear pacífica. Mas o cerco atual é sobretudo psicológico. As chamadas “revoluções coloridas” não começam nas ruas, começam nas redes sociais, nas ONGs de fachada e think tanks, que fabricam narrativas para transformar terrorismo em “protesto” e repressão imperial em “defesa da democracia”. No final de dezembro de 2025 e início de janeiro de 2026, o Irã enfrentou uma nova ofensiva híbrida. O que começou como uma manifestação legítima de comerciantes foi rapidamente convertido em terrorismo urbano, com ataques armados, incêndios a escolas e mesquitas, sabotagem de serviços públicos e assassinatos de civis e policiais. Figuras degeneradas ligadas ao antigo regime, como Reza Pahlavi, e figuras como Donald Trump e Benjamin Netanyahu atuaram como incitadores abertos, prometendo sanções e apoio externo. O caráter dessa operação arquitetada por agências de inteligência estrangeiras ficou escancarado. O objetivo era a violência armada coordenada, guerra informacional, fabricação de números de vítimas e tentativa de culpar o próprio Estado iraniano. O ex-chefe da CIA, Mike Pompeo, admitiu que EUA e Mossad atuaram em apoio aos distúrbios, uma confissão que desmonta a farsa de “protesto espontâneo”. O padrão dessa guerra híbrida é conhecido. Quando o Irã resiste, o Ocidente responde com repressão direta. Quando isso falha, lança guerra psicológica. Quando esta falha, impõe sanções. E quando as sanções não derrubam o regime, tenta-se novamente a “revolução colorida”. Em nenhum momento o objetivo foi promover direitos humanos ou liberdades. Sempre foi mudança de regime e restauração de uma ordem submissa ao imperialismo. Por isso a Revolução Islâmica continua sendo demonizada. Ela desafia três pilares do sistema imperial: a hegemonia militar dos EUA, a supremacia regional de Israel e a dependência econômica do Sul Global. Ao articular fé, soberania e resistência, o Irã criou um modelo alternativo que inspira povos e alarma impérios. Aos 47 anos, a Revolução não é relíquia, é trincheira e exemplo vivo. Sobreviveu à guerra imposta pelo Iraque, décadas de sanções, sabotagens, assassinatos seletivos e campanhas incessantes de difamação. A Revolução Islâmica se mantém de pé porque está enraizada na memória e na vontade de seu povo. Hoje, enquanto o Ocidente tenta estrangular o Irã por meios econômicos e narrativos, a lição permanece forte: nenhum império pode subjugar indefinidamente uma nação que decidiu ser livre. A história de 1979 não foi acidente. Foi expressão de uma vontade coletiva que ainda pulsa e serve de farol aos povos que resistem por soberania. Compreender os 47 anos da Revolução Islâmica é compreender a luta entre soberania e dominação, entre verdade e propaganda, entre resistência e império. E nessa batalha o Irã segue sendo um dos grandes campos de disputa do século XXI, não como vítima passiva, mas como sujeito histórico em combate.