por Milton Alves * ----------
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reúne neste sábado (7), em Miami, os presidentes de direita e extrema direita da América Latina. A reunião denominada de Cúpula Escudo das Américas – Shield of Americas Summit – tem por objetivo principal adotar mecanismos para conter a influência econômica da China na região, debater a questão da migração, o narcotráfico e a segurança regional.
Comunicado divulgado pelo Departamento de Estado dos EUA classifica a reunião como histórica e que visa “promover a liberdade, a segurança e a prosperidade na região. Esta histórica coalizão de nações trabalhará unida para impulsionar estratégias que travem a ingerência estrangeira em nosso hemisfério, as gangues e cartéis criminais e a migração irregular e massiva”.
O encontro trumpista reúne 11 presidentes e uma primeira-ministra no resort de sua propriedade nas cercanias de Miami, o Trump National Doral Miami. Participa da reunião o presidente da Argentina, Javier Milei; o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz Pereira; o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast; o presidente de Costa Rica, Rodrigo Chaves Robles; o presidente da República Dominicana, Luis Abinader; o presidente do Equador, Daniel Noboa; o presidente de El Salvador, Nayib Bukele; o presidente da Guiana, Irfaan Ali; o presidente de Honduras, Nasry Tito Asfura; o presidente do Panamá, José Raul Mulino; o presidente do Paraguai, Santiago Peña e a primeira ministra de Trinidade e Tobago, Kamla Persad-Bissessar.
A cúpula convocada pelo presidente estadunidense ocorre no contexto de uma escalada belicista em curso contra o Irã, após operação de sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro – que completou dois meses – e do acirramento dos ataques ao governo e ao povo de Cuba, com o criminoso bloqueio energético – e de pressões tarifárias generalizadas contra as diversas nações do continente.
Esta articulação demonstra um esforço do governo Trump para consolidar um bloco político conservador e extremista na América do Sul e América Central, com base no chamado “Corolário Trump”, uma espécie de atualização da Doutrina Monroe, formulada em 1823.
O eixo principal da reunião trumpista é assegurar uma hegemonia política, econômica e militar nas Américas, garantindo uma área de influência consolidada e, com isso, reduzir o protagonismo chinês, que avançou muito nos últimos anos. Ou seja, na prática, é a implementação de uma agressiva agenda política intervencionista, o fortalecimento da presença do Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM) na região, a militarização do combate ao narcotráfico e a instalação de novas bases militares.
No plano interno, Trump amarga uma queda acentuada de popularidade com o ataque ao Irã e pela truculência do ICE contra os migrantes, ele também enfrenta críticas na sua base de sustentação, setores tidos como os mais “duros” do movimento Maga – Make América Great Again – rejeitam a política guerreira da administração da Casa Branca, que prometeu durante a campanha eleitoral que não iniciaria nenhuma nova guerra. Há o temor do impacto negativo nas urnas da política executada por Donald Trump nas eleições de meio de mandato em novembro.
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Projeto neocolonial e reacionário
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A versão trumpista da “Doutrina Monroe” pretende impor um draconiano modelo neocolonial para controlar estrategicamente os recursos minerais e naturais da região, garantindo uma reserva estratégica para o imperialismo norte-americano, que trava uma disputa geopolítica com a China por áreas de influência e pelo domínio de novas rotas comerciais.
Trata-se de uma ameaça existencial para os povos das Américas que serão transformados em novas colônias, exportadores de matérias primas, e em nações sem soberania política, militar e tecnológica. Somente uma rede continental de resistência poderá enfrentar e derrotar a sanha imperialista.
Nos últimos anos, o avanço da extrema direita, o enfraquecimento dos instrumentos contra-hegemônicos como a Unasul, a Celac e a ALBA-TCP (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América – Tratado de Comércio dos Povos) e a vitória eleitoral de Trump modificaram o cenário político, exigindo uma resistência mais ativa e coordenada dos governos de esquerda e dos movimentos sociais da região.
Países como o Brasil, México e Colômbia, alvos em graus variados dos ataques do império do norte, estão diante de enormes desafios para construir uma política alternativa de caráter soberanista, integradora e democrática no continente.
Neste sentido, as eleições de outubro de 2026 no Brasil ganham um sentido estratégico e definidor de rumos nas Américas.
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*É colunista em diversos sites e portais da mídia progressista e de esquerda. É o autor dos livros ‘Lava Jato, uma conspiração contra o Brasil’ [Kotter, 2021] e de ‘Brasil Sem Máscara – o governo Bolsonaro e a destruição do país’ [Kotter, 2022], entre outras obras. É dirigente estadual do PT-PR.
