por João Gomes --------------
Há momentos na história europeia em que o silêncio pesa mais do que os aviões. E depois há momentos raros em que alguém, no meio da coreografia diplomática, decide levantar-se da cadeira, bater o pó ao casaco e dizer simplesmente: não. Desta vez, foi a Espanha.
Num continente que prefere vírgulas a pontos finais, Espanha optou pelo ponto. Recusou o automatismo, recusou o “é assim porque sempre foi assim”, recusou transformar compromissos militares em reflexos pavlovianos. Fê-lo invocando o direito internacional, a coerência política e a leitura própria da Carta das Nações Unidas - a mesma Carta que a Nações Unidas tantas vezes recorda quando os mísseis começam a falar mais alto do que os diplomatas. E o que fez o resto da Europa? Afinou o coro do desconforto.
Portugal, por exemplo - esse país que gosta de se imaginar ponte atlântica e consciência moral das navegações - refugiou-se nos “acordos existentes”. Invocou artigos, parágrafos, interpretações técnicas. Tudo muito jurídico, muito formal, muito respeitador do papel timbrado. Mas quando a história bate à porta, os tratados não substituem a decisão política. Portugal não disse “sim” com entusiasmo. Disse “é o que está acordado”. É a diferença entre convicção e procedimento. Entre escolha e automatismo.
Um país que se orgulha de soberania estratégica abrigou-se atrás da cláusula contratual. Não foi ousadia; foi prudência. Não foi posição; foi gestão de risco. Temeu a reação da Estados Unidos. Acobardou-se. Dobrou a espinha - como fazem todos os cobardes quando tem argumentos para dizer NÂO e não conseguem. Achou que o preço da dissidência seria demasiado alto. Talvez. A política externa também se faz de medos e o governo português tem demasiadas "meninas".
Já o restante continente preferiu inicialmente a coreografia habitual. A França ponderou, a Alemanha equilibrou, o Reino Unido hesitou - mas depois cederam e ai vão os seus aviões "defender a comunidade". Curioso é observar como os princípios europeus parecem variar conforme a latitude. Quando se fala de “direito internacional”, a Europa ergue sobrancelhas e redige resoluções. Mas quando o aliado histórico entra em ação, a retórica suaviza-se, a gramática torna-se condicional e o verbo “condenar” transforma-se em “preocupar”.
Espanha fez o oposto. Não alinhou automaticamente. Não vestiu a prudência como manto diplomático. Arriscou fricção. Arriscou desconforto. Arriscou ser a exceção. Há quem lhe chame imprudência. Outros chamar-lhe-ão coerência. Outros ainda coragem. Num continente onde tantas capitais preferem não afrontar o vento dominante, Madrid enfrentou o toiro. Não porque goste de conflito, mas porque decidiu que soberania não é apenas palavra de cerimónia - é exercício prático.
A Europa gosta de se definir como “potência normativa”. Mas normas que não sobrevivem ao teste da pressão são apenas decoração moral. Quando chega a hora da decisão, resta saber quem as aplica mesmo quando é incómodo. Desta vez, a fotografia ficou assim: um país que disse “não” de forma audível; vários que disseram “é complicado”. Disseram "temos medo". Acobardaram-se!
Talvez no futuro se conclua que a prudência tinha razão. Talvez se conclua que a firmeza espanhola foi apenas gesto simbólico. Mas há algo inegável: num cenário de ruído estratégico, Espanha escolheu a nitidez. E numa Europa habituada a falar em uníssono apenas quando o risco é mínimo, isso já é, por si só, uma nota dissonante.
E viva Espanha - não como slogan, mas lembrando de que soberania também é a capacidade de discordar.
