Matar um velho é sempre um gesto simbólico. Não é apenas interromper uma vida que já atravessou décadas de história; é tentar amputar a memória que ele carrega. Quando esse velho é líder espiritual de um povo antigo, a morte deixa de ser um ato militar e passa a ser uma mensagem civilizacional: não se elimina apenas um homem - tenta-se desautorizar uma tradição. E o nosso tempo aperfeiçoou essa pedagogia da violência.
Fala-se de precisão cirúrgica, de operações estratégicas, de neutralizações necessárias. A linguagem técnica serve de anestesia moral. Milhares de milhões de dólares são mobilizados com a frieza de um cálculo financeiro. Satélites, drones, inteligência artificial, sistemas de guiamento. Tudo muito moderno. Tudo muito eficaz. Tudo muito infantil na sua lógica final.
Infantil porque acredita que destruir uma figura é destruir a raiz. Infantil porque confunde poder com maturidade. Infantil porque ignora que o ódio não se dissolve com explosões - aduba-se.
O novo formato político que se impõe no mundo não se apresenta como império, mas opera como tal. Não ocupa formalmente territórios; reorganiza-os por pressão, sanção, chantagem estratégica e demonstração bélica. Não impõe religião; proclama neutralidade secular enquanto cria a sua própria teologia: a do mercado, da supremacia tecnológica, da segurança permanente. Essa é a nova fé dominante - a crença de que o poder técnico substitui qualquer transcendência e que a ordem pode ser imposta de fora para dentro.
Mas há uma ironia trágica neste método. Ao matar um velho líder espiritual, não se elimina a fé que o sustenta. Pelo contrário: transforma-se esse velho num mártir, numa narrativa, num símbolo condensado. A morte converte-se em cimento identitário. E o ódio, que talvez estivesse disperso, encontra um ponto de coagulação. Infantiliza-se o conflito.
Os povos deixam de discutir políticas e regressam às identidades primárias. A religião deixa de ser experiência interior e volta a ser bandeira. A nação deixa de ser espaço cívico e torna-se muralha emocional. O passado é convocado não como memória crítica, mas como arsenal. E assim o mundo avança - tecnologicamente sofisticado, emocionalmente regressivo.
As potências justificam-se com palavras grandes: estabilidade, dissuasão, equilíbrio regional. Mas o que frequentemente produzem é fragmentação prolongada. Incendeiam-se antigas fraturas sob o argumento de prevenir conflitos maiores. A lógica é sempre preventiva - e quase sempre provoca escalada.
Cada ataque que pretende reafirmar hegemonia acaba por reforçar ressentimentos históricos. Cada demonstração de força acelera a polarização. Cada operação que promete encerrar um ciclo inaugura outro, mais profundo e mais difícil de dissolver. O problema já não é apenas geopolítico. É antropológico. Quando o poder passa a acreditar que pode redesenhar identidades coletivas por via militar, entra-se numa fase perigosa da história. Porque identidade não se bombardeia. Fé não se neutraliza. Memória não se elimina com tecnologia.
Matar um velho para afirmar um mundo novo é, no fundo, um gesto de insegurança civilizacional.
Os impérios clássicos sabiam que dominar não era apenas vencer batalhas; era integrar, negociar, absorver diferenças. O novo formato imperial parece dispensar essa complexidade. Prefere a simplificação binária: aliado ou inimigo, estável ou hostil, moderno ou retrógrado. Mas o mundo real é híbrido, contraditório, resistente.
Quando se acentuam as divisões humanas - religião contra religião, povo contra povo, modernidade contra tradição - não se está a proteger a ordem internacional. Está-se a corroer as condições mínimas de convivência futura. A consequência é previsível: sociedades mais fechadas, discursos mais radicais, juventudes formadas sob a pedagogia da humilhação e da vingança. A morte de um velho torna-se semente de um ódio mais jovem, mais inflamável e mais difícil de conter. E, enquanto isso, os que decidem continuam a falar em racionalidade estratégica.
Talvez o verdadeiro sinal de maturidade política fosse o contrário: reconhecer que a força não substitui o entendimento, que a supremacia não gera paz duradoura e que incendiar memórias antigas é uma forma sofisticada de falência moral.
O mundo não precisa de novas demonstrações de poder. Precisa de coragem para abandonar a infantilidade bélica que insiste em acreditar que destruir é governar. Matar um velho pode parecer um gesto decisivo. Mas, quando o faz para alimentar o ódio novo, é apenas a prova de que a humanidade ainda não aprendeu a envelhecer com sabedoria.
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João Gomes.
Bom domingo!
