Elite empresarial que apoiou a ditadura militar tem raízes profundas em famílias escravista
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Um levantamento inédito revelou que a conexão entre o poder econômico e o autoritarismo no Brasil atravessa séculos. Segundo dados divulgados nesta segunda-feira (27), pelo menos dois em cada três empresários identificados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) como apoiadores ou financiadores da ditadura militar (1964-1985) descendem diretamente de famílias de senhores de escravos.
A investigação, parte do projeto “Perdas e Danos” da Radioagência Nacional, reconstruiu a árvore genealógica de 62 grandes empresários citados no relatório final da CNV. Destes, 40 pertencem a linhagens que acumularam riqueza e influência política durante o período da escravidão no Brasil. O estudo aponta que nomes de sobrenomes tradicionais, como os Guinle de Paula Machado, Batista Figueiredo e Beltrão, compõem o que pesquisadores chamam de “núcleo duro” da classe dominante brasileira, mantendo o controle social e econômico desde o período colonial.
A herança do controle e a repressão laboral
De acordo com o historiador Ricardo Oliveira, coordenador do Núcleo de Estudos Paranaenses e especialista em genealogia do poder, a transição do “senhoriato escravista” para o empresariado moderno não foi apenas uma sucessão de capitais, mas de métodos. A pesquisa destaca que as mesmas famílias que exerceram o domínio sobre corpos escravizados no século XIX utilizaram o aparato repressivo do Estado no século XX para controlar movimentos sindicais e garantir lucros.
Um dos casos emblemáticos citados é o da Cobrasma, empresa que foi alvo de investigações da Unifesp por condições de trabalho que se assemelhavam à escravidão moderna durante o regime militar. Em 1968, uma greve na companhia foi um dos estopins para o endurecimento do regime, culminando no AI-5. Registros do Ministério do Trabalho da época revelam que a repressão dentro das fábricas era subsidiada e incentivada pelos próprios donos, que forneciam listas de operários “subversivos” aos órgãos de inteligência.
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O “Moinho de Gastar Gente”
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Os dados complementares trazem um cenário alarmante sobre a desigualdade estrutural. Enquanto o PIB brasileiro registrava altas durante o “Milagre Econômico”, a concentração de renda disparava:
Concentração de Renda: Em 1960, os 5% mais ricos detinham 28% da renda nacional; em 1972, esse número saltou para quase 40%.
Imobilidade Social: Segundo a OCDE, no Brasil contemporâneo, uma pessoa nascida na base da pirâmide social leva, em média, nove gerações (cerca de 300 anos) para atingir a classe média — um reflexo direto da herança escravocrata que não foi rompida.
Expansão das investigações e reparação
Atualmente, o Ministério Público Federal (MPF) e grupos de pesquisa da Unifesp mantêm investigações abertas sobre o papel de 11 grandes empresas (incluindo gigantes como Petrobras, Fiat, Folha de S. Paulo e Itaipu) por cumplicidade em graves violações de direitos humanos. O objetivo das novas frentes de investigação é embasar ações de reparação coletiva, buscando não apenas a memória histórica, mas a responsabilização financeira pelo apoio logístico e financeiro dado a centros de tortura e à repressão sistemática.
Especialistas defendem que entender essa linhagem escravocrata é fundamental para compreender por que o empresariado brasileiro, em sua maioria, viu na ditadura um ambiente seguro para a expansão de seus negócios, baseando sua lucratividade na compressão salarial e no silenciamento da classe trabalhadora.
