‘Vamos dar uma lição aos ianques que eles nunca vão esquecer’: embaixador do Irã concede entrevista exclusiva à AND (A Nova Democracia)
--------------------
por Redação de AND -------
Na tarde de 26 de março, a reportagem de AND conversou com o embaixador do Irã no Brasil, o Sr. Abdollah Nekounam Ghadiri, em entrevista exclusiva sobre a situação da guerra de resistência travada pela nação iraniana em oposição à guerra de agressão imperialista iniciada pelos imperialistas ianques (EUA) e a entidade nazi-sionista.
Segundo o embaixador, a agressão ianque-sionista fracassou em seus objetivos estratégicos. Não obstante, questionado sobre possíveis novos ataques, como contra a estratégica ilha petrolífera de Kharg, ele afirma que o país está preparado para qualquer cenário: “estamos prontos e estamos esperando”.
Indagado sobre a intenção ianque de escalar a guerra, Ghadiri, com firme posição anti-imperialista, disparou: “Para quem já estudou a História, certamente deve saber como nós nos comportamos nos momentos difíceis, nos períodos de guerra, e vamos dar uma lição que eles nunca vão esquecer, e vai ser uma lição muito forte”.
Leia na íntegra abaixo ou assista no programa A Propósito.
***
A Nova Democracia (AND): Saudações de Nova Democracia e saudações anti-imperialistas a todos os espectadores do jornal A Nova Democracia. Hoje, em uma entrevista exclusiva e bastante especial para o nosso jornal, entrevistaremos o embaixador da República Islâmica do Irã no Brasil, o sr. Abdollah Nekounam Ghadiri. Falaremos sobre os últimos períodos da agressão ianque e sionista à República Islâmica do Irã e as futuras perspectivas para esse conflito e a resistência iraniana.
---
Abdollah Nekounam Ghadiri (Embaixador do Irã): Bom, primeiramente gostaria de agradecer por esta oportunidade, e também agradeço muito ao programa de vocês e a todos os valorosos telespectadores que estão nos assistindo hoje. Como vocês bem sabem, as visões e as perspectivas da República Islâmica do Irã sobre o regime sionista se baseiam em princípios. Conforme a nossa constituição, devo dizer que nós somos contra as pessoas que oprimem as outras, os países que colonizam os outros, e também usam seus interesses pessoais para atingir os seus objetivos.
Vocês bem sabem que, depois da Revolução Islâmica, e também no período de Apartheid, imediatamente depois disso acontecer, nós rompemos as nossas relações, devido a essa tragédia, com a África do Sul. Também nesse contexto, devo dizer que, depois da vitória da República Islâmica e o estabelecimento da República Islâmica no governo, nós fechamos a embaixada do regime sionista e a entregamos aos guerreiros palestinos, e rompemos as nossas relações com o regime sionista. Nós emolduramos as nossas relações contra as entidades conforme os princípios e valores do ser humano. Como bem sabem, nesses 47 anos, todas as opiniões dos países ocidentais, do Estados Unidos, essa posição do bloco ocidental contrária a nós, advém da nossa posição e à nossa visão sobre o regime sionista.
E, nesse contexto, devo mencionar que, na pauta do uso pacífico de energia nuclear por parte do Irã, em que alguns países colocam essa pauta como energia nuclear para uso militar, esses mesmos países já nos disseram diversas vezes que, se nós trocarmos ou mudarmos as nossas visões e posições sobre o regime sionista, até a questão nuclear será resolvida brevemente. Eles imaginavam que as nossas posições e visões sobre o regime sionista fossem baseadas em alguns interesses que, depois de certo tempo, seriam de certa forma excluídos. Mas a nossa visão de princípio tem um motivo: o motivo é que o regime sionista ocupou os territórios de um país, de uma população, e depois obrigou o povo daquela região a emigrar de seus territórios. E eles assassinaram o povo que restava nos últimos dois ou três anos; nós vimos mais de 70 mil pessoas assassinadas por meio dos interesses desse regime, e 20 mil eram somente crianças.
----------------------
AND: Primeiro, eu gostaria de agradecer por todo esse profundo panorama que o senhor nos apresenta. Falando mais especificamente sobre a situação atual, estamos agora nos aproximando do marco de um mês desde o início da mais recente agressão direta dos ianques e sionistas contra a República Islâmica do Irã. Como o senhor avalia o saldo da guerra até agora, particularmente do ponto de vista da resistência e autodefesa iranianas?
---
Embaixador do Irã: Obrigado pela pergunta, devo dizer que, de uma forma mais explícita, a derrota desses dois regimes e a iniciativa impensada por parte deles está mais clara e todos estão diante dessa flagrante derrota. Nos últimos nove meses, duas vezes, esses dois regimes, em meio às negociações, nos atacaram; e eles usaram, de certa forma, a mesa de negociações como um elemento para fazer as suas atrocidades. E quando nós estávamos, de uma forma muito clara e legítima, conversando e negociando sobre os assuntos em pauta, eles explodiram e bombardearam a mesa de negociações. A primeira vez foi em junho de 2025; por mais que as ações feitas em junho tenham sido agressões, nós nos colocamos de prontidão para negociar mais uma vez, e, quando nós estávamos no meio das negociações, eles, com um comportamento de armadilha, de mentira, usaram as negociações para nos atacar, enquanto nós estávamos prontos para negociar, para conversar, mas eles ultrapassaram os limites e nos atacaram.
E, nesses últimos tempos, eles fizeram uma ação criminosa, uma ação que é considerada totalmente agressiva, e assassinaram o nosso líder supremo, e, na imaginação deles, pensavam que haviam feito uma ação gloriosa com esse assassinato. E devo dizer uma coisa importante: por mais que o líder supremo tenha recebido muitas sugestões de segurança para ficar no abrigo, como ele acreditava que a população do Irã, o povo, não está em abrigo, portanto ele também não deveria estar, e, no momento [do assassinato], ele estava trabalhando em seu escritório. E, com essa sua decisão, nos mostrou uma proximidade, um legado de liderança para o mundo que mostra a proximidade do líder com seu povo.
------------------------
AND: Mais uma vez, muito obrigado pela resposta bastante esclarecedora. Ainda sobre esse período atual, recentemente Donald Trump disse em vários discursos, marcados pela sua arrogância, que tem a iniciativa do conflito e está impondo os termos do cessar-fogo. Gostaríamos de saber, na opinião do senhor, como o Irã avalia essas afirmações, que não correspondem à realidade que vemos no terreno militar e político.
---
Embaixador do Irã: Mais ou menos 25 ou 26 dias se passaram desde o início do ataque e da agressão militar desses dois regimes contra a República Islâmica do Irã. Vocês bem sabem que, durante esse tempo, o povo se manifestou nas ruas em apoio ao governo, e mostrou o seu apoio. Um dos pedidos do povo que está nas ruas é que o governo não aceite de forma alguma o cessar-fogo. Eles pedem que não se deixe criar, mais uma vez, uma plataforma de mentiras por parte desses dois regimes. E, se vocês acompanharam as declarações das autoridades iranianas nesses últimos tempos, de forma clara, de forma cristalina, essas autoridades dizem que, de forma alguma, aceitam qualquer ultimato desses dois regimes, e vão lutar da forma mais importante, mais necessária, até o fim.
Portanto, devo dizer que, atualmente, nós estamos em uma guerra de desejos e de poderes. E, nessa guerra de vontades que nós estamos tendo agora, a vontade do povo do Irã é que a guerra continue até que os inimigos recuem 100%. De toda forma, o povo do Irã não aceita esse círculo inadequado de guerra, de negociações e novamente guerra, e estamos com todo o esforço para combater o inimigo e para nos defender, e nós continuaremos assim. E, se vocês acompanham as recentes informações e notícias, vão saber a situação atual desses dois regimes.
------------------------
AND: Outro ponto importante da situação atual é que, neste momento, particularmente nesta última semana, têm surgido notícias que apontam como Donald Trump tem se virado contra a ilha de Kharg. Gostaríamos de saber se o Irã avalia que há indícios concretos de que os ianques preparam um ataque contra a ilha de Kharg, e quais são as preparações nesse sentido.
---
Embaixador do Irã: A única coisa que eu posso dizer é repetir a resposta do nosso ministro das Relações Exteriores [do Irã, Abbas Araghchi] numa entrevista que ele concedeu, e a resposta é: “Nós estamos prontos e nós estamos esperando.”
--------------------------
AND: Aproveitando esse mesmo ponto, eu gostaria também de saber se o Irã avalia que esse voltar-se de Donald Trump para a ilha de Kharg representa um sinal de que ele fracassou nos seus objetivos estratégicos mais amplos.
---
Embaixador do Irã: Certamente esse assunto mostra, a princípio, os objetivos estratégicos do Estados Unidos: a energia e o petróleo. Portanto, isso pode ser considerado um alerta para todos que têm recursos naturais, recursos minerais, recursos de energia, e enfim. E o que eles pensavam sobre o Irã era, de certa forma, algo errado; com experiência milenar nós estamos enfrentando os assuntos internos do nosso país. Fomos nós quem criamos o jogo de xadrez, somos nós quem produzimos um tapete tão valioso, o tapete persa – que chegamos a dedicar um ano para produzir, para fazer um tapete persa, que tem todos os elementos naturais e artísticos nele.
Para quem já estudou a História, certamente deve saber, nos períodos difíceis, nos períodos de guerra, como nós nos comportamos, e vamos dar uma lição que eles nunca vão esquecer, e vai ser uma lição muito forte.
-------------------------
AND: Algo que chama bastante atenção também nessa situação é o trabalho diplomático que o Irã tem feito, e o próprio trabalho político, que resultou no isolamento político do Estados Unidos e do regime sionista. Como o senhor avalia esse trabalho, tanto do governo iraniano quanto dos representantes do Irã no exterior?
---
Embaixador do Irã: É natural, porque estávamos no meio das negociações e eles explodiram a mesa de negociações. Vocês e a opinião pública também viram as declarações e as mensagens no X [antigo Twitter] do excelentíssimo ministro de Omã sobre as negociações. Aqui está tudo claro, mostra quem é o invasor e mostra de uma forma clara todos os atos de invasão.
--------------------------
AND: Nós temos visto também uma certa crise entre o canibal e Grande Satã, Donald Trump, e a Otan, a ponto de ele ter dito que a Otan “não fez absolutamente nada” em relação à agressão em curso. Isso significa, ou pode indicar, também uma crise de comando e de relações do EUA com essa coalizão militar europeia?
---
Embaixador do Irã: O que estamos vendo agora, devemos dizer que essa união não aconteceu, essa coligação não aconteceu. O motivo pode ser que o presidente do Estados Unidos considera-se o rei do mundo e ele não sente a necessidade de ter sugestões dos países que são seus aliados, e deixar de lado seus aliados pode resultar em reações por parte deles. De toda forma, o presidente do EUA mostrou que tem somente um conselheiro para as questões internacionais, que é muito próximo, e caminham juntos. Os conselhos desse conselheiro certamente são totalmente contra os interesses do povo americano, mas o presidente do EUA segue aceitando os seus conselhos. De alguma forma, ele está vendo os resultados das sugestões e conselhos do seu conselheiro, por mais que o próprio conselheiro também esteja numa situação extremamente difícil.
---------------------------
AND: É interessante que o senhor falou como as decisões de Donald Trump vão contra as aspirações do próprio povo estadunidense. Em que medida a ampla mobilização das massas populares, tanto no Irã como no resto do mundo, contra a agressão, tem sido um fator decisivo nos eixos da resistência frente à agressão do Estados Unidos e dos nazi-sionistas?
---
Embaixador do Irã: Certamente o papel principal deve ser dos povos do mundo. Portanto, a opinião contrária das populações a essas políticas agressivas terá seus resultados, por mais que o império dos bens e o império das comunicações queiram silenciar essas opiniões públicas. Na verdade, devemos pensar sobre isso, que esses poderes estão nesses impérios. E também no decorrer dos ataques contra a Faixa de Gaza, vimos que esses meios de comunicação “mainstream” mudaram totalmente o que acontecia e o que acontece naquela região sobre a população de Gaza.
-------------------------
AND: E, pensando um pouco agora sobre as perspectivas futuras, diante desse cenário, o Irã avalia que a tendência é de escalada militar ou de uma solução nos seus próprios termos? Quais seriam as condições mínimas para uma redução real das tensões?
---
Embaixador do Irã: De toda forma, as ações militares fazem parte da solução, especialmente quando você tem direitos e precisa utilizá-los de forma poderosa.
-------------------------
AND: Para que possamos concluir, vemos as agressões contra diversos países do Oriente Médio, particularmente o Irã, a Palestina e o Líbano, mas também as agressões contra a Venezuela e Cuba, que têm levantado os povos numa onda anti-imperialista. Podemos considerar o momento atual propício para uma explosão da luta anti-imperialista no mundo inteiro?
---
Embaixador do Irã: Acredito que os recentes acontecimentos resultaram em uma sabedoria e um conhecimento sobre essas ações desses dois regimes. De certa forma, toda essa imagem criada nas décadas de 40 e 50, que mostrava, por meio de filmes americanos, que o EUA é acolhedor, receptivo, aceita imigrantes… Todas essas imagens foram destruídas, e estamos vendo o que a realidade mostra, as políticas que buscam interesses pessoais. E as autoridades americanas, além de usar milhares de trilhões de dólares nessas guerras, do cofre da sua população, também destruíram a imagem de seu país.
--------------------------
AND: Caros senhores e companheiros, agradecemos mais uma vez pelo seu tempo, por essa conversa. Foi uma honra para o jornal A Nova Democracia estar aqui, e demonstramos mais uma vez a nossa profunda solidariedade ao povo iraniano e apoio ativo à República Islâmica do Irã.
---
Embaixador do Irã: Da mesma forma, agradeço pela oportunidade de ter essa conversa com vocês e seus telespectadores. Desejo sucesso a todos vocês! Tchau, tchau!
